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Tempranillo: Solos e Climas

19 de Fevereiro de 2020

A mesma uva Tempranillo que assume vários nomes na península ibérica molda vinhos diferentes, dependendo da região onde é cultivada. Vamos neste artigo nos concentrar em dois grandes vinhos que beiram o Douro com solos e climas distintos, Ribera del Duero e Douro, ou seja, Espanha e Portugal, respectivamente.

ribera del duero map

Ribera del Duero

São pouco mais de 20 mil hectares de vinhas onde em 1999 só chegava a 10 mil hectares. A Tempranillo é amplamente plantada com mais de 95% das vinhas, sobrando muito pouco para uvas como Cabernet Sauvignon, Merlot, Garnacha, Malbec, e a branca Albillo.

Em termos das quatro províncias, Burgos domina amplamente o plantio com 17 mil hectares, seguido por Valladolid com quase 5 mil hectares de vinhas. Segóvia e Soria são plantios bem abaixo. As plantações mais expressivas de vinhas ficam entre os anos 90 até 2010.

ribera del duero zonas importantes

zonas nobres da região

Os maiores inconvenientes na região são excesso de madureza das uvas e abuso da madeira. Neste sentido, vamos falar de algumas áreas nobres da vasta região, começando por Burgos. Nesta zona em rosa, temos uma expressão de fruta notável, acompanhada por certo frescor nos vinhos. Como exemplo, temos a viña Pedrosa.

img_7282Destaques na região pela importadora Clarets

Aalto é uma das mais destacadas bodegas de Ribera del Duero, trabalhando entre Burgos e Valladolid, alinhando potência e elegância como poucos. O projeto tem à frente Mariano Garcia, enólogo responsável  por 30 anos pelo mítico Vega-Sicilia. Os vinhedos PS (Pagos Selecionados) ainda são mais exclusivos. Preços bem competitivos.

Na zona em azul da província de Soria, temos vinhos mais elegantes com vinhas de mil metros de altitude, além de idade avançada. São vinhos complexos e de muito frescor. Dominio de Atauta é seu grande destaque. Nos vinhedos de Segovia, zona pintada em verde, a exploração é recente e ainda muito tímida. Segue aproximadamente o padrão de Soria com vinhos elegantes. Um destaque seria a bodega Severino Sanz.

Por fim, a zona mais nobre de Ribera del Duero, pintada em laranja no mapa, conhecida também como a milla d´oro, pertencente a Valladolid, um trecho de aproximadamente 15 quilômetros que vai de Quintanilla de Onésimo até Peñafiel. A altitude gira em torno de 800 metros e o solo argilo-calcário tem destacada predominância de solo pedregoso mais branco. Os vinhos aliam potência e elegância com muita propriedade. Bodegas como Vega-Sicilia, Domínio de Pingus, Alion, e Abadia Retuerta, um pouco fora do limite da milla de oro, estão lá. 

douro região mapa

Douro – Vinhas

Em termos de sub-região, o Baixo corgo é menos prestigiada, pois há chuvas em excesso e os solos não são tão nobres. O maior destaque da região é a famosa Quinta do Côtto.

A sub- região do Douro Superior é a menos explorada, a mais seca e quente de todas elas. Perto do chamada Cima Corgo, esta sub-região tem sua área mais nobre. Na fronteira com a Espanha, o clima tende a ser muito quente.

Por fim, a nobre sub-região do Cima Corgo onde os fatores de terroir são mais precisos. Vinhas antigas, localização mais eficiente quanto às altitudes e exposição dos vinhedos no que tange a insolação e ventos. As áreas de xisto, solo pedregoso, são mais nobres. Aqui estão localizadas as melhores quintas do Douro.

Em termos de solo, aqui falamos de granito, xisto, e altitudes de 400 a 500 metros. No verão o clima é bem quente, podendo chegar perto de 50 graus centígrados. 

quinta do crasto tinta roriz

exemplar confiável da Qualimpor

Não é feito todos os anos, dependendo das condições climáticas. Segue os mesmos padrões do varietal Touriga Nacional. Respeita três terroir de exposição distintas à mesma altitude (300 metros) e condições de solo com reserva hídrica.

Tempranillo – Tinta Roriz

Conhecida como Tinta Roriz no Douro e Aragonês no Alentejo, é a casta mais plantada em Portugal. Muito cultivada na região do Douro, ela inspira cuidados para seu plantio. O sítio ideal para seu cultivo é o Cima-Corgo, sub-região não muito fria como o Baixo-Corgo, nem muito quente como Douro Superior. Sob baixos rendimentos e maturação adequada, costuma gerar vinhos equilibrados, elegantes, e com bom potencial de taninos. Conserva muito bem a cor e participa de lotes, dando alta contribuição, sobretudo no envelhecimento. Seu casamento com a madeira  é notável e de muita harmonia.

Alguns produtores como Quinta do Crasto e Casa Eufêmia fazem varietais deste tinto, respeitando as condições de terroir, sobretudo em termos de altitude e exposição dos vinhedos.

alentejo sub-regiões

Alentejo

Falando um pouco do Alentejo, região sul de Portugal onde  a dupla Trincadeira e Aragonês molda os principais tintos da região, vamos comentar de solos e suas adaptações.

Solos de textura franco-argilosa e de cor avermelhada é encontrado em Reguengos e Granja Amarejeda. Solos pardos de textura franco-arenosa com quartzo é encontrado em Redondo, Reguengos, Vidigueira, e Évora.

cortes-de-cima-aragonez-2012

outra grafia da Aragonês

Um vinho muito confiável, feito no terroir alentejano, sempre com o aporte de madeira que a Tempranillo tanto gosta. É preciso um clima mais ameno no Alentejo para que as condições de cultivo e o bom afluxo de polifenóis tenham êxito na colheita. Importado pela Adega Alentejana.

Nas regiões de Portalegre, Évora, Redondo e Reguengos, podemos encontrar um solo arenoso com fragmentos de xisto.

Um solo vermelho ou amarelo de fragmentos de xisto é encontrado praticamente em toda a região. Em Moura, Borba ou Vidigueira, pode-se encontrar algum calcário.

Quanto às castas, as internacionais Cabernet Sauvignon e Syrah estão presentes e se adaptam bemem clima quente, principalmente a Syrah, enquanto a Alicante Bouschet é mais importante em Portalegre, notadamente o Mouchão. As castas Castelão e Alfroucheiro não são das mais nobres, preferindo entrar no eventuais cortes. Já a estrela Touriga Nacional tem seu prestigio em baixos rendimentos. Costuma entrar em cortes com pequenas porcentagens para conferir equilíbrio e elegância. 

A Trincadeira, também conhecida como Tinta Amarela no Douro, é uma casta vigorosa que se adaptou bem aos solos e clima alentejanos. Participa dos cortes com bom volume. 

Por fim, a Aragonês, conhecida como Tinta Roriz no Douro. Em solos e climas alentejanas só trabalha bem com baixos redimentos devido ao calor excessivo. É uma boa uva de corte, conferindo elegância e poder de longevidade aos vinhos. Alguns exemplares varietais como da vinícola Cortes de Cima.

Em resumo, em solos argilo-calcários e em altitudes convenientes, a Tempranillo pode se expressar melhor como varietal, tornando os vinhos potentes e bem equilibrados. Já em solos arenosos e de xisto, seu cuidado deve ser redobrado quanto aos rendimentos e adequação de altitude e exposição do terreno. Ela se presta muito mais ao corte, dando elegância e equilíbrio ao conjunto, além de poder de longevidade aos vinhos.

Bacalhau da Semana Santa

2 de Abril de 2012

Com a aproximação da semana santa, receitas que envolvem bacalhau são inevitáveis. Por isso, busquei algumas publicações da revista Gula dos anos 90 para citar esta receita.

Revista Gula dos anos 90

A receita é simples, mas tem um ingrediente novo, o presunto cru. Intitula-se Bacalhau  Assado com Presunto Cru ou Bacalhau à Transmontana. Após o bacalhau devidamente dessalgado, monte em um refratário as cebolas e batatas em rodelas regadas num bom azeite de oliva. Disponha em cima, as postas de bacalhau cortadas ao meio e recheadas com fatias de presunto cru não muito finas. Polvilhe as postas de bacalhau com farinha de rosca e leve ao forno para cozinhar e dourar, regando com azeite, o quanto for necessário. Pode-se adicionar salsinha ou coentro a gosto.

Para aqueles que não abrem mão de um bom tinto, muito cuidado na harmonização. Embora o bacalhau não apresente problemas com o sal se for devidamente dessalgado, o presunto cru não tem jeito. Existe um sal intrínseco ao alimento e o mesmo precisa ser considerado. Portanto, os tintos precisam ter bastante corpo, pois o sabor do prato exige, mas ao mesmo tempo, seus taninos devem ser bem dóceis para não serem agredidos pelo sal. Uma boa acidez é sempre benvinda para encarar a oleosidade do prato. Neste sentido, um bom alentejano jovem, com muita fruta e fresco, pode ser um bom casamento. Se houver um toque de madeira, o bacalhau também agradece.

Quem não quiser correr riscos com os temidos taninos, um branco de corpo com passagem por madeira é uma ótima pedida. Para fugir dos óbvios Chardonnays, o branco do Dão elaborado com a uva Encruzado fermentado em barricas, é uma bela opção. Quinta dos Roques Encruzado da importadora Decanter (www.decanter.com.br). Alentejanos de boa estrutura elaborados com a uva branca Antão Vaz são também pedidas certas. Se possível, o branco Pera Manca preenche todos estes requisitos com muita classe. Este vinho é trazido pela importadora Adega Alentejana (www.alentejana.com.br). Uma opção de tinto nesta mesma importadora é o consistente produtor chamado Cortes de Cima, mesclando muito bem a uva Aragonês (o nome local da Tempranillo) com a francesa Syrah.

Maiores informações sobre a polêmica harmonização Bacalhau e Vinho, consultar tema neste mesmo site. Feliz Páscoa a todos! sempre com a dobradinha infalível: Bacalhau na sexta-feira e Cordeiro no domingo de Páscoa.


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