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Enogastronomia entre amigos

22 de Agosto de 2010

Seis Lugares: número perfeito

Muitas vezes numa mesa de restaurante,  perdemos a oportunidade de desfrutar entre amigos os prazeres da enogastronomia. A heterogeneidade do grupo em relação a pratos e bebidas aliada ao receio de propor algo compartilhado, são alguns dos principais fatores para minar este objetivo.

O que geralmente acaba acontecendo é alguém da mesa tomar a iniciativa pedindo um determinado vinho, e muitas vezes, repetindo-o na medida que haja necessidade.

Para termos sucesso nesta empreitada, é fundamental reunirmos pessoas com certa afinidade. Podem ser três casais ou uma mescla de casais e amigos em torno de seis pessoas. É um número interessante para pedir algumas garrafas, deixando a conversa sob controle,  sem virar bagunça. Para um consumo civilizado, três garrafas ao longo da refeição parece ser o ideal.

A primeira garrafa deve ser invariavelmente um espumante Brut (seco). É o vinho ideal por vários motivos: fazer o brinde inicial, combinar perfeitamente com os vários tipos de couvert, mantendo o paladar sempre fresco, apresentar corpo relativamente leve, bem sintonizado com os momentos iniciais da refeição. Opções como Prosecco, Cava ou um bom espumante nacional são facilmente encontradas em boas cartas de vinho. O cuidado aqui é apenas não pedir espumantes muito estruturados, encorpados, que são inadequados nesses momentos iniciais. Se a opção for champagne, o estilo Blanc des Blancs é a pedida certa, elaborado só com Chardonnay.

A segunda garrafa pode ser pedida com a terceira ao mesmo tempo, dependendo dos pratos escolhidos pelo grupo. Como na prática, dificilmente todos pedirão um menu degustação, o habitual é a escolha de pratos diversos, incluindo peixes, aves, massas, carnes, entre outros. As opções de um branco e um tinto, ou um tinto leve e um tinto mais encorpado, ou um tinto leve e um branco encorpado, costumam ser bastante abrangentes, aparando as principais arestas. Caso haja apenas uma pessoa ou duas que destoem em termos de harmonização, pode ser pedido um vinho em taça ou uma meia garrafa.

Finalizando a refeição, um pequeno abuso é permitido com a sobremesa ou logo após a mesma. Uma meia garrafa de um vinho doce dividida por seis, não acarretará grandes transtornos. Novamente, para pedidos isolados, o vinho em taça pode ser uma grande opção.

Outro desfecho seria finalizar a refeição com licores, destilados diversos, satisfazendo paladares de forma individualizada.

Mais uma forma de encarar a ocasião, é levar uma grande garrafa ao restaurante, principalmente numa data especial, evidentemente, com a devida comunicação no momento da reserva. A forma gentil e elegante neste caso, é escolher as demais garrafas da refeição no restaurante, sobretudo se não for cobrada a chamada taxa de rolha.

Harmonização: Paella e Vinho

18 de Maio de 2010

Paella Valenciana: inspiração para as demais

Neste blog existe um post antigo sobre paella que será deletado a partir de agora, pois era apenas um teste visual para o início de Vinho Sem Segredo. Peço também permissão ao meu amigo Juan, da importadora de vinhos espanhóis Peninsula, para discorrer sobre o tema.

Paella hoje em dia é muito mais uma técnica de cozimento do arroz com ingredientes dos mais variados tipos, do que propriamente uma prato de origem espanhola nascido nas proximidades de Valencia. Nesta elaboração, o arroz absorve os aromas e temperos de determinados ingredientes dando origem a uma nova paella, de acordo com a criatividade de cada um.

Evidentemente, existem algumas paellas clássicas como a marinera (peixes e frutos do mar), mixta (mescla frutos do mar com carnes diversas, inclusive embutidos)  e a original valenciana (ilustrada acima). A origem do prato é camponesa, onde trabalhadores juntavam na preparação do arroz (a região de Valencia é célebre pelos arrozais), verduras, carnes diversas, inclusive caças, especiarias e temperos como o açafrão.

Com relação à harmonização, a paella, assim como os risotos e massas, pedem um vinho de corpo médio. Entretanto, tudo pode mudar de acordo com os ingredientes e concentração de sabor dada pelo caldo de cozimento.

Paellas com predomínio ou exclusivamente elaboradas com frutos do mar, tenderão para um branco fresco, de boa acidez, com aromas cítricos e minerais. Pode ser um Verdejo de Rueda, um Sauvignon Blanc do Novo Mundo sem madeira ou um Albariño Dom Pedro de Souto Maior (importadora Peninsula – www.peninsula1.com).  Aqueles que preferem um espumante, por que não um cava Juvé y Camps também da Peninsula. Apresenta corpo adequado, prolongada permanência com as leveduras e boa persistência aromática, capazes de enfrentar mariscos e outros frutos de mar com sabores pronunciados.

Num outro extremo, quando lidamos com paellas de caças, carnes de maior personalidade, podemos pensar em tintos de boa estrutura, mas sem exageros. Nada de blockbusters do Novo Mundo. Castaño Collecion com predomínio de Monastrell (uva Mourvèdre para os franceses) da região de Yecla e Finca Allende, Tempranillo da Rioja Alta, são ótimas opções. Ambos os tintos, da importadora Peninsula.

Paellas entre estes dois extremos, devem ser estudadas caso a caso, mas os rosés de Navarra podem ser lembrados, além dos espumantes rosés, inclusive cavas com a uva Monastrell.

Enfim, as opções são bastante variadas, conforme os ingredientes da receita. A escolha pelos espanhóis é sempre mais adequada, além de podermos provar vinhos de uvas e regiões pouco conhecidas. Como já citei anteriormente, Don Juan da Peninsula pode aconselhar outras dicas de espanhóis exclusivos e quem sabe com uma boa conversa, fazer uma paella sob encomenda, na qual ele é mestre também.

 

Harmonização: Frango Xadrez e Vinho

21 de Abril de 2010

A qualquer hora, um dos campeões do Delivery!

Atire a primeira pedra quem já não discou para os chineses. Mesmo que não seja seu prato favorito, é uma bela solução numa hora de apuros. E até mesmo nestas horas, uma prosaica garrafa de vinho pode e deve tornar o momento agradável e muito mais interessante sensorialmente.

As variações da receita são inúmeras, mas vamos dividí-las com legumes ou com amendoim. Os ingredientes onipresentes são frango em cubos, pimentões, cebola e shoyu. Os legumes podem incluir cenouras, brócolis, acelga, entre outros. O amendoim é uma questão de gosto, pode ser acrescentado ou não.

O prato tem peso médio (normalmente peito de frango)  e é relativamente simples. Portanto, nada de vinhos sofisticados. Lembre-se que temos pimentões que costumam ofuscar sutilezas de grandes vinhos. Um ponto importante é a textura do molho, bastante aveludada quando o prato é bem executado. A crocância dos ingredientes é também uma marca registrada da culinária chinesa.

Uma das melhores opções é um bom espumante, inclusive os nacionais de leve a médio corpo. A acidez e efervescência destes vinhos animam o prato, limpando agradavelmente o paladar da delicada textura oleosa do molho. Se sua opção for pelos legumes, opte por um espumante do método Charmat, onde os sabores frutados e florais vão de encontro ao sabor do prato. Proseccos de boa procedência no estilo Extra-Dry (não tão secos como o Brut) são benvindos.

Se a opção for com amendoim, os espumantes pelo método Champenoise (método Tradicional ou Clássico são sinônimos) apresentam melhor sintonia. Os aromas advindos do contato relativamente prolongado com as  leveduras, além de uma eventual mineralidade, casam melhor com o perfil de frutas secas dado pelo amendoim. Um Cava (espumante espanhol elaborado obrigatoriamente pelo método Clássico) relativamente simples é uma ótima pedida. Não desperdiçe um Cava sofisticado, nem tão pouco um Champagne com amendoins. Não estamos falando de avelãs, amêndoas, nem nozes, e sim de uma semente tupiniquim.

Além dos espumantes, vinhos brancos relativamente leves, frescos e frutados caem bem. Evite vinhos de aromas austeros e minerais como um Chablis por exemplo. O mesmo vale para os tintos. Um Sancerre (Pinot Noir do Loire), um Dolcetto, um Tempranillo Joven ou nacionais sem passagem por madeira são alternativas interessantes.

Por fim, a culinária chinesa é extremamente rica e vai muito além do nosso frango xadrez. Em linhas gerais, os brancos alemães combinam muito bem, principalmente com molhos agridoces e receitas com carne suína. Oportunamente, falaremos sobre o assunto.

 

Espumantes para o final do ano

29 de Novembro de 2009

Este 100% Chardonnay é páreo duro para os champagnes

É um pecado lembrarmos deles só nesta época. Conhecendo seus estilos é possivel acompanhar toda uma refeição com espumantes, principalmente os mais gastronômicos, dentro de certos critérios de harmonização.

No artigo passado vimos bem a diferença entre champagnes e os demais espumantes. Agora veremos mais algumas dicas na hora de comprar. A primeira delas é conhecermos o verdadeiro teor de açúcar residual destes vinhos que é uma verdadeira confusão:

  • Brut: este é o verdadeiro espumante seco (pode conter até 15 gramas de açúcar residual por litro). O Extra-Brut é um pouco mais seco e o Brut Nature é mais seco ainda.
  • Sec ou Dry: Este não é seco. É meioseco. Pode conter de 17 a 32  g/l de açúcar residual. O termo extra o torna um pouco mais seco, porém mais doce que o Brut.
  • Demi-sec ou Rich: não é meioseco. É doce. Pode conter de 32 a 50 g/l de açúcar residual.
  • Doux: termo em desuso que siginifica muito doce. Contém mais de 50 g/l de açúcar residual

Estes valores podem variar um pouco de acordo com leis específicas para cada região, denominação ou país.

Espumantes nacionais

A média em geral é muito boa nas principais vinícolas da serra gaúcha. Quem não quiser correr riscos a Chandon do Brasil tem uma consistência impressionante sob a batuta de Philippe Mével.

Proseccos

No Brasil virou sinônimo de espumante barato. Portanto, fuja daquela conversa ¨custo/benefício¨. Não tem milagres. Os bons custam de R$ 50 a R$ 100 reais. Alguns nomes como Adami, Nino Franco, Ruggeri e Bisol são confiáveis.

Não espere deste tipo de espumante complexidade e persistência aromática. São vinhos relativamente simples, frescos, ideais para eventos, aperitivos e abertura de jantares.

Cavas

Como já vimos, são espumantes espanhóis elaborados obrigatoriamente pelo método clássico. São mais complexos e mais gastronômicos que os Proseccos em geral, e podem ter custos semelhantes. É uma questão de gosto e finalidade enogastronômica.

Fugindo um pouco de Codorníu e Freixenet, as bodegas Juvé Y Camps e Raventós i Blanc são pedidas seguras.

Champagnes

Para paladares exigentes e bolsos fartos. Não existe champagne barato, pelo menos aqui no Brasil. Procure fugir dos clichês Moët & Chandon e Veuve Clicquot. Não que não sejam bons e dignos da apelação, mas é sua obrigação ser mais original. Para isso vamos falar dos principais estilos de champagne:

  • Blanc de Blancs: Literalmente branco de brancas. Elaborado exclusivamente com Chardonnay, é o estilo mais delicado e mineral. Apesar de aparentemente frágeis, podem envelhercer maravilhosamente bem. Indicado para abrir refeições sofisticadas e pratos que exijam algum tipo de mineralidade. Quando envelhecidos são grandes parceiros de trufas. A foto do artigo anterior (Champagne Salon) é a perfeição deste estilo.
  • Brut non Vintage: é o carro-chefe de uma maison de champagne. De grande produção e sem indicação de safra (uma mistura de alguns anos). Geralmente é elaborado com as três uvas permitidas: Chardonnay, Pinot Noir e Pinot Meunier. Nomes como Drappier, Pol Roger, Gosset, Louis Roderer, Bollinger e Krug são altamente confiáveis.
  • Blanc de Noirs: Geralmente não é um termo utilizado nos rótulos, mas significa que temos alta porcentagem de Pinot Noir. São champagnes encorpados e gastronômicos. Não devem ser servidos como aperitivos. Um exemplo clássico deste estilo é o Drappier.
  • Cuvées de Luxo: É o máximo em sofisticação. Geralmente são safrados e proveem das melhores misturas de cada maison. De produção muito limitada, são complexos e de alta gastronomia, podendo envelhecer com muita propriedade. Dom Pérignon, La Grande Dame, Cristal, Bollinger RD, Pol Roger Winston Churchill são sempre lembrados.

Para aqueles que gostam de champagnes safrados, que são raros, sofisticados e caros as melhores safras não tão antigas são: 2002, 1998, 1996, 1995, 1990, 1985 e 1982.

Os champagnes de safra devem envelhecer. A espera sempre vale a pena. Tomá-los a partir do décimo ano.

Uma útima recomendação: na hora de abri-los por favor, sem barulho.

Boas Festas!