Vinhos nos extremos

13 de Abril de 2026

Felipe Tosso quis ser tenista. Entre os dez e os 17 anos, jogava seis vezes por semana e viajava pela América do Sul para disputar torneios. Chegou a figurar entre os quatro melhores juvenis do ranking chileno, até que uma contusão séria no tornozelo direito o deixou seis meses sem pisar no chão. Abandonou o sonho e ficou cinco anos longe do esporte. Tentou então a engenharia civil. Cursou por dois anos, mas concluiu que o ambiente de escritório não o faria feliz. Precisava do ar puro. Migrou para a agronomia, inspirado também pela carreira de sua mãe.

A linha Gray tem boa qualidade preço, com destaque para o chardonnay, coringa à mesa, na casa dos R$ 200. Já a linha Kosten deve ter algumas garrafas vendidas no Brasil em breve.

O mundo do vinho entrou em sua vida nesse intervalo, por meio de um clube de degustação, em que era o mais novo entre os membros, cuja maioria tinha o dobro da idade. Encantou-se ao beber um branco chileno de Chardonnay com algum tempo de envelhecimento. Ao sentir aromas de manteiga, nozes e mel, decidiu que preferia fazer vinho a bebê-lo. É uma paixão que não abandonou: bebe vinho todos os dias, sempre em busca de regiões e produtores desconhecidos.

Ao sair da faculdade, ingressou na maior vinícola do país: a Concha y Toro. Era início dos anos 1990 e foi colocado na equipe que produzia o Dom Melchor, nascido em 1987, com uvas de origem bordalesa plantadas no Vale do Maipo no século XIX e consultoria de enólogos franceses famosos. Mesmo com o sucesso que levou publicações dos Estados Unidos a eleger a novidade entre as melhores do mundo, o Chile ainda tateava um caminho.

No início dos anos 2000, chegou à Ventisquero, um projeto familiar nascido numa época em que Chile e Argentina buscavam identificar como poderiam ser diferenciar no mundo enológico. Com 25 anos na empresa e muitas referências, o caminho mudou. Os terroirs se ampliaram.

“As vinícolas que buscavam o diferente se contavam nos dedos das mãos. Prevalecia um estilo mais potente, e ninguém trabalhava nos extremos climáticos do país, como no deserto de Atacama ou na Patagônia”, lembra Tosso, que esteve esta semana em São Paulo para um evento do guia Descorchados, especializado em vinhos sul-americanos e que elegeu a Ventisquero a vinícola de 2026.

O desafio de fazer vinhos elegantes em diferentes terroirs chilenos o levou para regiões que antes pareciam improváveis. A primeira delas, o deserto de Atacama, chegou por acaso. A família proprietária da Ventisquero havia comprado hectares na região para plantar oliveiras e produzir azeite. Quando os trabalhadores começaram a preparar o solo, perceberam que ele poderia abrigar videiras. Plantaram oito variedades em cerca de dez mil metros quadrados. Nasceu assim o projeto Tara, batizado como o arbusto nativo que resiste ao árido clima local. “O solo é muito interessante. Tínhamos de fazer algo especial”, diz.

Explorado o extremo norte, veio a vez da Patagônia chilena, uma região inóspita que Tosso conhece também como turista: recentemente, levou a mulher e as quatro filhas para passar férias por lá. Para chegar, é preciso voar e, depois, atravessar de balsa uma área marcada por geleiras. “É o ponto mais ao sul do mundo onde se produz vinho, perto de um dos maiores lagos da América do Sul, o General Carrera.”

Há cerca de dez anos, dois agrônomos que trabalhavam na região notaram a abundância de cerejeiras, um sinal de que o solo poderia ser apto para vinhedos. Em parceria com um produtor de cerejas, plantaram cinquenta mudas de sete variedades selecionadas para o frio. Vingaram o Sauvignon Blanc, o Chardonnay e o Pinot Noir.  Descobriram que, além da temperatura e doe ventos, havia outra questão a considerar: os pássaros.

“Tivemos nossa primeira produção decente em 2020, com pouquíssima uva. Em 2021, os pássaros comeram tudo; em 2022 vieram os primeiros cachos reais, ainda em escala experimental; em 2023 lançamos os três vinhos Kosten”, conta. O nome da linha é o que os habitantes chamam os ventos intensos que varrem a região. Os vinhos feitos com chardonnay e pinot noir mal chegam a 400 garrafas produzidas.

O tênis voltou. No fim de semana passado, Tosso disputou um torneio masters e chegou às semifinais. O tornozelo direito aguentou.

Adegas fechadas

7 de Abril de 2026

A convivência entre quem cria e quem julga tem limites às vezes indefiníveis, seja no vinho, seja em outras áreas. No fim dos anos 1950, Paulo Autran deixou a educação de lado. Após Paulo Francis criticar reiteradas vezes, em suas colunas sobre teatro, a atriz Tônia Carrero, Autran esperou o momento para contra-atacar. Em uma peça em que só participava do final, viu o jornalista na plateia. Depois de a cortina descer e o público ir embora, aproximou-se de Francis e o chamou. O jornalista virou o rosto, Autran desferiu uma cusparada. “Cuspi com prazer”, relembrou o ator anos depois, enquanto o jornalista se arrependeu da briga.

No mundo do vinho, essa hostilidade manifesta-se de outras formas. O mais famoso crítico do mundo de Baco, o advogado Robert Parker, coleciona histórias. Em 1986, Parker viajou para a Borgonha. Visitou o Domaine Fourrier, cuja maior parte das videiras é em Gevrey Chambertin, um dos vinhos preferidos de Napoleão. Experimentou os vinhos. Sugeriu a Jean-Claude Fourrier que utilizasse mais madeira em seus vinhos, para torná-los mais exuberantes. Foi convidado a se retirar da propriedade. “Meus vinhos, suas críticas”, relatou o filho de Fourrier ao podcast I´ll drink to that.

A vingança de Parker veio meses depois, em sua publicação aos assinantes: uma crítica afirmando que a vinícola tinha uma das adegas mais sujas da Borgonha e que nada de bom poderia sair de lá. O resultado? O mercado americano fechou as portas e safras inteiras ficaram encalhadas nas caves por anos.

A hostilidade nem sempre fica nas palavras. Segundo relato em O Imperador do Vinho, de Elin McCoy, em Bordeaux, o gerente do Château Cheval Blanc, Jacques Hébrard, assistiu impassível a seu cachorro atacar Robert Parker após uma avaliação desfavorável. Na publicação, Parker tinha qualificado a safra 1981 de uma das mais famosas propriedades da França como “decepcionante e medíocre”. Quando o crítico pediu um curativo para a perna, Hébrard entregou-lhe uma cópia do texto e vociferou: “foi isso que você escreveu!”.

Essa disputa de poder ocorre também entre os próprios críticos pela hegemonia do paladar. A safra 2003 foi marcada por um calor intenso na França. A canícula provocou problemas em diversas regiões vinícolas com uvas que perderam acidez em muitos casos. Em Bordeaux, o Château Pavie tinha passado por uma modernização radical. Tornou-se o marco zero de uma disputa de paladares entre os dois lados do oceano Atlântico.

Jancis Robinson, crítica do Financial Times, deu nota 12 de 20 pontos para o Pavie 2003, descrevendo-o como ridículo e excessivamente maduro por assemelhar-se não a um vinho seco, mas a um fortificado, tão poderoso que tinha perdido qualquer elegância. Dos Estados Unidos, Robert Parker reagiu classificando a avaliação de Robinson como um golpe maldoso. Parker sugeriu que Robinson era movida por preconceito britânico contra o estilo moderno da propriedade. Fizeram as pazes anos depois, mas os paladares continuaram distintos.

As polêmicas estão longe de ficarem concentradas na França. Antonio Galloni, que trabalhou com Parker antes de fundar o site Vinous, especializou-se em vinhos italianos. Suas notas determinam o preço de mercado. Em novembro de 2015, Galloni estava preparado para viajar para o Piemonte degustar barolos e barbarescos das safras dos dois anos anteriores. Pediu horário para visitar a vinícola Aldo Conterno, uma das mais tradicionais produtoras de Barolo. A resposta foi que eles não poderiam recebê-lo, pois estariam fora todo o mês. Mas Galloni disse que viu muitas pessoas visitarem a vinícola sem problemas. Respondeu aos assinantes. “Não é o meu primeiro rodeio.”

Comprou as garrafas em uma loja na Itália. Degustou os vinhos. Respondeu com notas baixas para os barolos 2013 de Aldo Conterno, reclamando do uso de madeira nos vinhos e disse que havia um punhado de outros produtores que poderiam oferecer vinhos excelentes a preços menores. Foi banido de visitar a vinícola, suspensão vigente até hoje. Ele continua comprando os vinhos em enotecas. Aumentou suas notas.

Fonte: https://www.wineberserkers.com/t/vinous-scoring-on-aldo-conterno-vendetta-or-reality/140779/63?page=4

Em outras artes, a hostilidade entre críticos e criadores também é histórica. A crítica de cinema Pauline Kael, que fez história na The New Yorker, colecionou cartas de ódio de alguns de seus resenhados. Ridley Scott disse que, depois de um comentário dela, nunca mais leu crítica nenhuma. David Lean afirmou que Kael o impediu de filmar por 14 anos. Nenhum deles conseguiu silenciá-la e nem arranhar sua credibilidade.

O cenário atual do mundo do vinho, porém, torna a independência um ativo raro. Com o Guia Michelin controlando a publicação fundada por Parker e a Vinous de Galloni lucrando com eventos de produtores que ela mesma avalia, a linha entre a crítica isenta e os negócios torna-se cada vez mais turva. Como no teatro de Autran, nas linhas de Kael ou nas adegas, a verdade às vezes aparece quando as cortinas se fecham ou a porta da vinícola se tranca.

Arroz de pato: com qual vinho?

30 de Março de 2026

A origem da receita é desconhecida, ainda sendo razão de debate: uns apontam para o centro de Portugal, mais especificamente para Lafões; outros, mais recentemente, indicam que a criação do prato teria sido em Braga. Discordâncias históricas à parte, o arroz de pato (campeão de audiência do site há década) ganhou mesas de restaurantes e casas no século 20, com a necessidade de comer fora de casa e a consequente multiplicação dos restaurantes, relembrou o jornalista Dias Lopes em texto de 2017.

Arroz de pato do quinta do marquês, no km 53 da Castello Branco: uma preferência pessoal

Joana Simon, uma das maiores especialistas em enogastronomia, cujo livro “Vinho e Comida” é um dos melhores sobre o tema, relata que os mouros introduziram o cultivo do arroz em Portugal no início do século VIII, embora durante muito tempo tenha permanecido um alimento dos ricos. Tornou-se muito mais amplamente consumido durante o século XX, na sequência de um plano de gestão de terras e águas, impulsionado a partir de 1921 por grandes importações do Brasil e das colônias portuguesas na África.

É um prato simples, baseado em três ingredientes principais – o pato, o arroz e o chouriço. A maior parte das discussões, em Portugal, se refere ao arroz e ao vinho. O arroz tradicional utilizado é o carolino português, uma variedade de grão médio a longo, rica em amido, que absorve bem os sabores (não muito diferente de variedades de risotto como o carnaroli, mas com mais amido). No entanto, algumas pessoas utilizam o arroz agulha, de grão mais longo, que resulta numa textura menos cremosa. Quanto ao vinho, alguns utilizam vinho tinto, outros insistem no branco.

O arroz de pato é um prato bastante rico, mas versátil; por isso, pode aceitar vários estilos de vinho de acompanhamento. Joana Simon prefere tinto com ele, e normalmente português. “Gosto que o vinho tenha alguma acidez ou frescura mineral para cortar a riqueza, algo que Portugal faz bem, mas certamente não está sozinho. Para sugerir apenas duas regiões além das suas fronteiras: os Beaujolais Crus de vinhas velhas, de produtores como Jules Desjourneys e Château du Moulin-à-Vent; e o Priorat, sobretudo o Torres Mas de la Rosa 2017, um lote de Garnacha e Cariñena requintado e etéreo, em vez de uma potência típica do Priorat”, escreveu em um artigo na World of Fine Wine.

Além de acidez e mineralidade, há outros elementos que ajudam quando se quer pensar no vinho ao lado do prato. Uma variável é um certo grau de envelhecimento do vinho. Não é aconselhável um vinho muito jovem. Neste caso, os sabores da carne cozida e posteriormente assada, juntamente com os embutidos, não necessitam de taninos tão presentes. A acidez talvez seja mais importante para combater a gordura do prato.

Os taninos já pelo menos parcialmente polimerizados nos vinhos de certa evolução são suficientes para a suculência do prato. Além disso, os aromas terciários do vinho vão muito melhor com os sabores assados e defumados do prato. Um Reserva Ferreirinha com dez anos de idade por exemplo, seria maravilhoso. Outras alternativas portuguesas poderiam ser vinhos do Dão, de preferência os mais modernos com um pouco mais de potência, ou um belo Buçaco, naturalmente envelhecido, onde os sabores do Dão e Bairrada se fundem.

Saindo de Portugal, podemos ir para os italianos. A sangiovese, com sua acidez, é uma boa pedida, por exemplo num belo Brunello di Montalcino. Um Taurasi envelhecido com a uva Aglianico é outra bela pedida. Do lado espanhol, um Ribera del Duero, um Rioja Reserva ou Gran Reserva mais moderno, mais encorpado, também podem dar certo.

Quanto aos franceses, penso que o Rhône é a melhor opção. Um Cornas ou um bom Crozes-Hermitage com alguns anos de garrafa tem o perfil deste prato com as características da Syrah. Com um pouco mais de sofisticação, podemos tentar um Côte-Rôtie ou o grande Hermitage. No caso deste último, deve ser bem envelhecido para amansar sua potência.

Se a ideia for buscar vinhos do Novo Mundo, bom considerar que apenas os grandes tintos da região possuem capacidade para envelhecimento. Um Malbec da Bodega Achaval Ferrer, um Cabernet chileno de estirpe como o Casa Real Santa Rita, ou um Shiraz com toques de evolução como o sul-africano  da vinícola Neil Ellis.

Para não correr grandes erros, vamos ficar com a receita do restaurante Bela Sintra, referência em comida portuguesa em São Paulo.

1 Tempere o pato com o vinho branco, 2 cebolas, o louro, a pimenta-do-reino, o salsão e as cenouras picadas.
2 Deixe marinar por 12 horas, coloque o pato em uma panela de pressão com os legumes, cubra com água, tempere com sal e cozinhe por 15 a 20 minutos.
3 Desfie a carne e reserve.
4 Refogue no azeite a cebola restante com o alho e o bacon, acrescente o arroz e junte 1 litro do caldo do cozimento do pato.
5 Quando o caldo estiver fervendo, acerte o sal e deixe o arroz cozinhar.
6 Depois de cozido, misture o pato desfiado com o arroz em uma travessa.
7 Finalize com as rodelas de cenoura e chouriço sobre o arroz e leve ao forno por aproximadamente 20 minutos.

Almoço com Chiara Pepe

28 de Março de 2026

No começo da década de 1970, Emidio Pepe resolveu viajar aos Estados Unidos para mostrar a revolução iniciada em 1964 em sua vinícola em Abruzzo, região agrícola a leste de Roma, entre o Adriático e os Apeninos e que não despertava nem o interesse da crítica nem dos enófilos. Na sua mala, levou algumas garrafas de seu tinto, feito com a uva local Montelpulciano, considerada por muitos como ruim até para se usar nos molhos.

Uma garrafa foi parar na mesa de Lidia Bastianich, apresentadora premiada de televisão americana e autora de livros de culinária. Lidia gostou tanto que comprou o restante do que Emidio tinha trazido na mala para servir na abertura de seu restaurante, o Felidia, em Manhattan. Na inauguração do endereço, sentou-se à mesa e bebeu o Montepulciano, que ganhou centenas de pedidos quando os jornais americanos estamparam as fotografias do evento. Nunca mais a família parou de viajar. A vinícola se tornou tão reputada no exterior como a de Angelo Gaja ou de Biondi Santi. O Montelpuciano da safra 1964 foi vendido em leilão a mais de US$ 4 mil por uma loja em Nova York há poucos anos.

um almoço com chiara pepe; história de emidio pepe

Chiara Pepe, que assumiu o comando da vinícola na safra 2020 e agora em 2026 irá também comandar um dos mais famosos vinhos do planeta – La Chapelle, em Hermitage, conta com um sorriso essa história no almoço de uma terça-feira do fim de março de 2023 (última visita dela ao Brasil) em São Paulo, no Baru Marisqueria, quando questionada se gosta de viajar pelo mundo. “Faz parte da nossa história, assim como a biodinâmica”, diz ela, nascida em 1989. As 80 mil garrafas (45 mil do tinto, 5 mil de um disputado rosé – o Cerasuolo – e o restante de dois brancos – o Trebbiano e o Pecorino) são vendidas para 40 países, entre eles o Brasil, onde os vinhos serão importados a partir de 2026 pela Clarets. Foi sua terceira viagem ao país, a primeira desde que começou a vinificar. Em 2023, veio para um jantar no restaurante italiano Fame, zona oeste de São Paulo, para apresentar seus vinhos, então importados pela Uva Vinhos. “Os brasileiros têm um especial apelo pelo branco feito com a uva Pecorino, que enseja vinhos aromáticos e exóticos.”

Quando Chiara vinificou seus primeiros vinhos em 2020, o primeiro a bebê-los foi Emidio, que hoje assiste à distância aos passos da neta. “Ele ficou orgulhoso.” Não mudou a vinificação. Desde sua infância, Chiara viu seu avô trabalhar nas videiras e na cantina. Foi para a França estudar enologia e fez um estágio de um ano na Borgonha, no domaine Chandon de Briailles. Quando assumiu, não mudou nada. Desde 1964, não se usam defensivos para tratar os vinhedos. Primeiro, porque não existiam naquela época, segundo porque poderiam trazer algum impacto para os vinhos. Não se usa madeira. Os vinhos são envelhecidos em grandes toneis de cimento com leveduras naturais e vendidos quando a família julga estarem prontos para serem bebidos. As uvas são colhidas à mão e pisadas em um grande tonel de madeira. Eles começaram fazendo vinhos naturais décadas antes de o termo, em voga hoje, ter nascido.  

“Quando assumi, foi uma questão de manter a história do meu avô. Não fazemos nem faremos concessões para o mercado”, fala, abrindo seu branco feito de Trebbiano d´Abruzzo, safra 2015. As safras são vendidas quando a família acredita que os vinhos estejam prontos para serem bebidos. Emidio foi um dos primeiros a construir um espaço para envelhecer seus vinhos por longos períodos em garrafas antes do lançamento. A vinícola conta com uma adega com capacidade para envelhecer 350.000 garrafas. Há 50 anos, Montelpuciano era um vinho para ser bebido jovem, o governo encorajava cada vinícola a produzir centenas de milhares de garrafas para serem vendidas. “Meu avô ficou furioso e por isso decidiu apostar em outra direção e ir para os Estados Unidos ver se entendiam sua filosofia, que sempre foi natural”, diz ela servindo o Montelpuciano 1993, que com três décadas esbanja juventude.

O aquecimento global tem interferido nas datas de colheita (e nas férias), podendo a vindima ser antecipada ou prorrogada em duas a três semanas, o que pode fazer com que ocorra entre metade de agosto e início de setembro. Quando chega o momento a família de sete pessoas e outros 10 trabalhadores locais trabalham colhendo as uvas.

Além da preocupação com o clima, os preços dos vinhos nas regiões mais famosas do mundo têm feito surgirem dezenas de ofertas de compradores de terras do mundo todo. No Piemonte e na Toscana, dois dos mais famosos terroirs italianos, vinícolas foram compradas por americanos, ingleses, franceses, russos e até brasileiros (André Esteves e Galvão Bueno). Em Abruzzo, os preços da terra explodiram. Há 10 anos, um hectare valia 10 mil euros. Hoje pode custar 50 mil euros, um valor considerável, mas ainda muito abaixo dos 1 milhão de euros que podem ser alcançados em Barolo ou Barbaresco, terra onde nascem os melhores nebbiolos do planeta. “Há uma preocupação de que algumas vinícolas não sejam mais de famílias e percam essa essência artesanal.”

Mais sobre a vinda de Chiara em 2023 aqui: https://pisandoemuvas.com/2023/05/19/emidio-pepe-de-nova-york-para-o-mundo/