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Surpresa às cegas: Noemía

27 de Abril de 2026

O convite chegou numa manhã de terça-feira. “Almoço na sexta-feira, pode?” A agenda estava livre. O amigo avisava que levaria todos os vinhos; cabia apenas fechar a lista de convidados. Nada de formalidades: seria apenas uma brincadeira entre amigos, dessas que misturam curiosidade e prazer. O restaurante escolhido ficava fora do eixo centro–zona sul–zona oeste: a Parrillita, na Avenida Lins de Vasconcelos, 988, no Cambuci. Bom preço, boas carnes, segundo o anfitrião.

Sentados à mesa, a pegadinha foi logo revelada: quatro vinhos tintos enrolados em papel-alumínio. Degustação às cegas, com direito a palpites antes da revelação. Seriam da mesma uva? De países diferentes? Safras distintas? As opiniões divergiam: dois rótulos pareciam vir do Novo Mundo, cheios de fruta; dois, do Velho Mundo, lembrando margem esquerda de Bordeaux ou talvez Espanha? https://www.cartacapital.com.br/blogs/pantagruel/a-arte-de-envelhecer-e-permanecer-relevante/  Ou Portugal? https://www.cartacapital.com.br/blogs/pantagruel/heteronimos-de-um-viticultor/ E quanto à idade? A maioria arriscava algo em torno de dez anos.

A expectativa aumentava à cada gole. O amigo em questão tinha a fama de uma adega generosa, recheada de rótulos de prestígio. Qual seria a surpresa desta vez? Quando o papel foi retirado, os olhos de todos se arregalaram: tratava-se do mesmo vinho, em safras diferentes. Não era Velho Mundo. Eram tintos da mesma vinícola. Mais precisamente, elaborados com malbec na fria Patagônia pela Bodega Noemía, das safras 2006, 2007, 2010 e 2011. São importados hoje pela @vinoterra_br.

As duas primeiras garrafas, quase vinte anos depois da colheita, mostravam como bons vinhos, não importa de onde, envelhecem com graça e complexidade. As mais jovens, por sua vez, exibiam o vigor da malbec — fruta generosa, taninos macios —, combinação perfeita com a suculência das carnes servidas. Noemia já foi tema de post desse site há anos (incluindo com viagem para conhecer os vinhedos e a propriedade: https://vinhosemsegredo.com/2011/11/17/chacra-e-noemiabodegas-de-terroir/.

Vinhedos das primeiras décadas do século passado são a espinha dorsal deste projeto biodinâmico na região argentina da Patagônia, mais especificamente na sub-região de Rio Negro. Os mesmos estavam para ser arrancados na virada do milênio quando aparece a figura central desta história, um dinamarquês perfeccionista chamado Hans Vinding-Diers. Percebendo o potencial da região e este pequeno tesouro de pouco hectares, não teve dúvida, articulou a negociação com duas poderosas famílias italianas do ramo vitivinícola. Piero Incisa della Rocchetta, proprietário do mítico supertoscano Sassicaia, e  Condessa Noemi Marone Cinzano do famoso Brunello di Montalcino Argiano.

Dividiram a propriedade em duas bodegas distintas (Chacra e Noemia), mas com um único propósito; elaborar vinhos de alta qualidade expressando fielmente a natureza de seus respectivos terroirs. Os pequenos lotes de vinhas antigas dividem-se por idade. As cepas plantadas em 1955 geram os vinhos Chacra 55 (Pinot Noir) e os vinhos J. Alberto (Malbec). Os vinhedos plantados em 1932 dão origem aos ícones Chacra 32 (Pinot Noir) e Noemía (Malbec). Os vinhos ícones provenientes das parreiras de 1932 diferenciam-se por uma concentração maior e rendimentos baixíssimos em torno de 20 hectolitros por hectare. A produção não passa muito de seis mil garrafas por safra.

A prova às cegas https://www.cartacapital.com.br/blogs/pantagruel/degustador-as-cegas/ , sempre um exercício de humildade, acabou funcionando como antídoto contra uma tendência que vem crescendo em algumas rodas de enófilos brasileiros: o “cancelamento” do vinho argentino. Não se trata de boicote formal nem de cruzada declarada, mas de uma atitude repetida em algumas mesas e grupos de WhatsApp, em que o malbec (e por extensão outros argentinos) é tratado como algo fora de moda, previsível, quase um clichê.

Em algumas rodas enófilas, há quem torça o nariz não apenas para o malbec da Patagônia, mas também para uma das vinícolas mais prestigiadas da Argentina: a Catena Zapata, cuja história abriu o caminho para os vinhos da América Latina.

A história começa em 1902, quando Nicola Catena deixou a Itália, fugindo da fome que devastava sua região natal, e plantou em Mendoza a primeira vinha de malbec. Aos poucos, a uva francesa encontrou na Argentina um novo lar e ganhou dimensão internacional. Na década de 1960, porém, a economia argentina entrou em colapso, a inflação disparou e a família Catena enfrentou um de seus períodos mais difíceis. Colher as uvas custava mais caro do que deixá-las nas videiras.

Diante do dilema, Domingo Catena consultou seu filho de 22 anos, Nicolás — recém-doutor em economia. O jovem recomendou não colher. Mas Domingo não conseguiu contrariar a própria consciência e levou adiante uma safra que sabia trazer pouquíssima renda. Anos depois, Nicolás ainda recordaria a tristeza de ver o pai trabalhar em vão.

Nos anos 1980, após expandir a distribuição dos vinhos da família no Reino Unido, Nicolás teve uma oportunidade decisiva: tornar-se professor visitante na Universidade da Califórnia, em Berkeley. Foi lá que conheceu de perto os vinhos da Califórnia, então em ascensão, e percebeu que um novo mundo era possível. Voltou a Mendoza com uma convicção clara: a Argentina também poderia produzir vinhos de classe internacional.

O contexto, no entanto, era adverso. Assim como o Chile, a Argentina era vista como produtora de vinhos de mesa baratos, vendidos a granel. Apostar em qualidade parecia uma temeridade. Nicolás vendeu a divisão de vinhos comuns e manteve apenas o braço dedicado aos vinhos finos. Colegas e concorrentes riram, chamando-o de “completamente loco”. Mas foi justamente esse gesto ousado — exportar o primeiro vinho argentino de qualidade internacional — que pavimentou o caminho para colocar o país no mapa mundial do vinho. Décadas depois, a vinícola seria reconhecida pelo crítico Robert Parker https://www.cartacapital.com.br/blogs/pantagruel/parker-o-paladar-absoluto/  como “a referência em vinhos da América do Sul”

O almoço no Cambuci, com as safras da Bodega Noemía degustadas às cegas, mostrou exatamente isso: quando bem escolhidos, os vinhos argentinos são muito bons, envelhecem com elegância e seguem sendo parceiros ideais de uma boa carne. Mais do que revelar rótulos, a mesa mostrou algo maior: o “cancelamento” do vinho argentino em certas rodas fala menos sobre o que está dentro da taça e mais sobre modismos passageiros que, cedo ou tarde, também passam.

Chacra e Noemía: Bodegas de Terroir

17 de Novembro de 2011

Vinhedos das primeiras décadas do século passado são a espinha dorsal deste projeto biodinâmico na região argentina da Patagônia, mais especificamente na sub-região de Rio Negro. Os mesmos estavam para ser arrancados na virada do milênio quando aparece a figura central desta história, um dinamarquês perfeccionista chamado Hans Vinding-Diers. Percebendo o potencial da região e este pequeno tesouro de pouco hectares, não teve dúvida, articulou a negociação com duas poderosas famílias italianas do ramo vitivinícola. Piero Incisa della Rocchetta, proprietário do mítico supertoscano Sassicaia, e  Condessa Noemi Marone Cinzano do famoso Brunello di Montalcino Argiano, dividiram a propriedade em duas bodegas distintas mas com um único propósito; elaborar vinhos de alta qualidade expressando fielmente a natureza de seus respectivos terroirs.

O todo poderoso Hans é o maestro dos dois projetos, ditando normas de cultivo, épocas precisas nas colheitas e todo o rigor na vinificação e amadurecimento dos vinhos nas barricas.

Condessa Noemi ficou com as antigas vinhas de Malbec, batizando a bodega com um nome quase homônimo, Noemía. Já Piero, adquiriu as antigas vinhas de Pinot Noir, nomeando sua propriedade de Bodega Chacra.

Feita as devidas distinções, passemos daqui por diante, encarar as duas propriedades contíguas com um mesmo objetivo, expressar as qualidades de um grande Malbec e de um grande Pinot Noir na mais pura filosofia biodinâmica.

Tração animal preservando o solo

Os pequenos lotes de vinhas antigas dividem-se por idade. As cepas plantadas em 1955 geram os vinhos Chacra 55 (Pinot Noir) e os vinhos J. Alberto (Malbec). Os vinhedos plantados em 1932 dão origem aos ícones Chacra 32 (Pinot Noir) e Noemía (Malbec).

Vinhas Velhas: Patrimônio inestimável

Os vinhos elaborados a partir destas vinhas mostram aromas elegantes e diferenciados. Em boca são muito equilibrados, textura macia de taninos  e persistência aromática expansiva. São vinhos naturalmente concentrados sem ser superextraídos. O equilíbrio natural dessas vinhas geram cachos concentrados e em número reduzido por parreira.

Os vinhos ícones provenientes das parreiras de 1932 diferenciam-se por uma concentração maior e rendimentos baixíssimos em torno de 20 hectolitros por hectare. A produção não passa muito de seis mil garrafas por safra.

Porteira aberta entre Noemía e Chacra

Para financiar o sonho destes grandes vinhos é preciso pensar em produções maiores e de preços competitivos. Neste contexto, entram os vinhos A Lisa (Bodega Noemía) e Barda (Bodega Chacra), proveninentes de parreiras mais jovens, áreas de cultivo maiores, gerando um maior número de garrafas. Mas nada de ceticismos, são vinhos equilibrados, com excelente padrão de qualidade e os mesmos cuidados biodinâmicos.

Noemía e Chacra são verdadeiros oásis no deserto patagônico, sem termo de comparação com as demais bodegas da região, a despeito da boa qualidade e da crescente demanda de seus vinhos. Essas maravilhas são importadas no Brasil conforme endereços abaixo:

Noemía – importadora Vinci (www.vinci.com.br)

Chacra – importadora Ravin (www.ravin.com.br)