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Os encantadores Riojas Brancos

11 de Agosto de 2011

Em nome do chamado ¨gosto internacional¨,  muitas regiões clássicas da Europa estão propondo vinhos mais potentes, mais extraídos, mais macios, mais amadeirados, visando abocanhar nichos de mercado cada vez mais competitivos, principalmente nos vinhos destinados à exportação. Tanto é verdade, que em várias regiões já abordadas por Vinho Sem Segredo, falamos de forma recorrente de produtores tradicionalistas e modernistas. E muitas vezes, os chamados tradicionalistas são encarados de forma preconceituosa, no sentido de serem reacionários, acomodados e avessos a todo tipo de inovação. É bem verdade que não podemos generalizar, mas a verdadeira tradição que busca a preservação dos conceitos básicos de terroir com vinhos característiscos e de personalidade, deve ser sempre louvada e divulgada. É o caso de Rioja, onde cada vez mais, é difícil encontrarmos aqueles vinhos elegantes, admiravelmente amadeirados e profundos. Ver artigo neste blog intitulado ¨A arte da barrica¨.

Neste contexto, vamos indicar alguns vinhos e produtores que lutam por esta tradição, nos proporcionando exemplares diferenciados, que fogem dos brancos e tintos de estilo relativamente padronizados, que inundam nosso dia a dia.

Brancos de Rioja

Conforme artigo anterior, a base destes vinhos é a casta Viura. Podem ser para consumo imediato, normalmente sem passagem por barricas. São frescos, cítricos e bem agradáveis.

O destaque realmente fica para os grandes brancos com passagem por barricas. Conde de Valdemar da importadora Mistral (www.mistral.com.br) e Finca Allende da importadora Peninsula (www.peninsulavinhos.com.br ) são belos exemplares. Finca Allende tem até um toque de modernidade com barricas novas francesas, mas cumpre sua missão mesclando as uvas Viura e Malvasia. Esses vinhos podem escoltar dignamente belas postas de bacalhau. Apresentam textura cremosa e sabores intensos.

Lopes de Heredia: O Montrachet de Rioja

O vinho acima, encontrado na importadora Vinci (www.vinci.com.br), é a perfeição que um grande branco de Rioja pode atingir. Estamos falando da safra de 1987 em perfeitas condições. Este branco passou nove anos e meio em barricas de carvalho americano usadas, sofrendo um longo processo de micro-oxigenação, com duas trasfegas anuais ao longo de todo o processo. Como a madeira é inerte, a fruta fica preservada com toques extremamente precisos de oxidação. Sua graduação alcoólica de 12º aliada a uma bela acidez, resulta num equilíbrio perfeito. Viña Tondonia é sem dúvida, um patrimônio de Rioja comandada pela tradição da familia Lopes de Heredia.

Terroir: Priorato

1 de Agosto de 2011

Priorato ou Priorat (em catalão) compartilha com Rioja a classificação máxima nas atuais leis espanholas, como Denominación de Origen Calificada (DOCa). Situada na porção nordeste da Espanha, sub-região da Catalunha, dentro da província de Tarragona. Abaixo, mapa dos principais municípios que formam o Priorato.

11 municípios formando a famosa denominação

Esta região foi inspiração para outra denominação espanhola chamada Bierzo, apresentada em artigos anteriores enfatizando a uva local Mencía. De fato, há muitas características em comum, tais como: solos ricos em pizarras (espécie de argila laminar), orografia acidentada e revitalização de vinhedos antigos com cepas autóctones. Pizarra ou llicorella em catalão, são solos pedregosos de origem metamórfica, ou seja, modificação de argilas ricas em mica e quartzo por ação de temperatura e pressão ao longo das eras geológicas.

Voltando ao Priorato, na década de oitenta do século passado, houve uma recuperação dos vinhedos plantados com antigas cepas de Garnacha (Grenache) e Cariñena (Carignan), motivada por enólogos famosos (sobretudo, René Barbier e Álvaro Palacios) que perceberam o potencial da região. Com rendimentos muito baixos e uma bela concentração nos mostos gerados a partir de videiras antigas, foi possível elaborar vinhos musculosos e com incrível mineralidade, advinda deste solo particular. São vinhos potentes, calorosos e bem apropriados para este nosso período invernal.

Relevo montanhoso: altitude entre 300 e 700 metros

Apesar de existirem pequenas quantidades de vinhos brancos, rosés e até fortificados (generosos), estamos ressaltando os tintos, que efetivamente deram fama à região. Os tradicionais tintos do Priorato são elaborados à base de Garnacha e Cariñena de videiras antigas, em proporções variadas. Podem ser até varietais. Nos Prioratos mais modernos, há uma mescla com castas internacionais (francesas) como Cabernet Sauvginon, Cabernet Franc, Merlot, Pinot Noir, Syrah, Ull de Lebre (Tempranillo) e Picapoll Negro, em pequenas proporções, sem uma definição rigorosa.

Solos de pizarras (Llicorella em catalão)

A graduação alcoólica mínima para esses tintos é de 13,5º e o tempo de permanência em barricas é de seis, doze e vinte e quatro meses para as designações crianza, reserva e gran reserva, respectivamente. Para vinhos de tal concentração, o rendimento máximo é de 39 hectolitros por hectare, sendo que na prática, mostra-se bem menor (muitas vezes, abaixo de 20 hl/ha). Os vinhedos de Garnacha e Cariñena respondem por mais de 60% da área de cultivo.

Nas principais importadoras  (Mistral, Vinci, Grand Cru, Decanter) podem ser encontrados belos exemplares. Evidentemente, os vinhos de alta gama dos produtores mais famosos têm seu preço. A produção é muito pequena e os rendimentos são baixíssimos. Pratos à base de carnes vermelhas ou caças com molhos densos e condimentados costumam harmonizar muito bem.

Destaques: Clos Mogador (Mistral), Alvaro Palacios (Mistral), Mas Martinet (Grand Cru) e Roquers de Porrera (Decanter). As respectivas importadoras estão entre parênteses.

Terroir: Brunello di Montalcino

25 de Julho de 2011

Brunello di Montalcino é um dos maiores ícones da Toscana,  dividindo enorme prestígio com seus rivais, Barolo (Piemonte) e Amarone della Valpolicella (Veneto).

Nasce 100% Sangiovese, mas um clone especial chamado Sangiovese Grosso, desenvolvido por Ferruccio Biondi-Santi, inventor do Brunello, no fim do século dezenove. De lá para cá, muita fama, muito prestígio e muita expansão territorial. Hoje o Consórcio dos Brunellos conta com mais de  duzentos produtores (www.consorziobrunellodimontalcino.it).

A localização com relação a tipo de solo e altitude, somados ao estilo do produtor, confere enorme diversidade entre os Brunellos. No fundo, é o velho conceito de terroir que tentaremos esclarecer a partir do mapa abaixo (dê um zoom para melhor visualização):

Diversidade de altitudes e solos

Imaginem uma grande área quadrada com lados de dezesseis quilômetros, delimitada por vários rios (Asso, Ombrone e Orcia), onde no centro desta área (próximo à cidade de Montalcino) esteja o vértice de uma pirâmide com a referida base quadrada. As linhas em azul no mapa acima simbolizam este conceito.

Atualmente, os Brunellos dividem-se em Tradicionalistas e Modernistas, fato cada vez mais corriqueiro nas famosas denominações da Itália. O chamado estilo tradicionalista deriva de Brunellos de longas fermentações, com acidez marcante e amadurecimento em grandes botti (tonéis de grande dimensão) por longos períodos, fornecendo um toque oxidativo ao vinho. Já o chamado estilo modernista, apresenta Brunellos mais frutados, mais macios e amadurecidos em barricas preferencialmente francesas, sendo muito mais agradáveis quando novos e caindo no gosto do chamado mercado internacional. Portanto, é preciso descobrir este estilo, conhecendo o produtor e muitas vezes, perceber nas condições de terroir, uma vocação genética inerente a um determinado estilo.

Falar de Brunello e não falar de Biondi-Santi é como ir a Roma e não ver o Papa. Este é a referência do estilo tradicionalista, com vinhedos (o famoso vinhedo Il Greppo) acima de 480 metros ao nível do mar, muito próximos do vértice da pirâmide. Nesta altitude, uma das maiores em Montalcino, aliada a um solo com forte presença de calcário (além de argila e areia), as uvas têm um longo período de amadurecimento, gerando vinhos tânicos e de elevada acidez. Este cenário contribui sobremaneira para um estilo tradicionalista encabeçado por Biondi-Santi e seus seguidores.

Focando agora o extremo sul da região, temos o produtor Castello Banfi, situado a menos de 200 metros ao nível do mar, gerando uvas de fácil maturação, num solo rico em galestro, contribuindo para um Brunello mais macio e apto a um amadurecimento em madeira mais brando. É o chamado estilo modernista, com enorme aceitação no mercado americano.

Em resumo, salvo as exceções, na região central do mapa e também para o lado sudeste, temos em média, as maiores altitudes, propiciando um estilo mais tradicionalista. O lado sul do mapa, incluindo a parta sudoeste, apresenta as menores altitudes, pendendo para um estilo mais modernista. Já a parte norte do mapa, detalhes da localização do vinhedo e filosofia do produtor, são muito importantes para definirmos um estilo.

O fato é que Montalcino, por se encontrar mais ao sul que a região do Chianti Classico, além de uma maior influência marítima, apresenta condições climáticas bem mais favoráveis ao amadurecimento das uvas, sem perder acidez, ou seja, o clima é mais quente, menor risco de chuvas e altitudes suficientes para manter frescor nas uvas.

Estilo Tradicionalista

  • Biondi-Santi (importadora Mistral)
  • Azienda Costanti (importadora Mistral)

Estilo Modernista

  • Castello Banfi (importadora World Wine)
  • Azienda Agostina Pieri (importadora Cellar)
  • www.cellar-af.com.br (Amauri de Faria)
  • Azienda Argiano (importadora Vinci)

A atual legislação colaborou muito para termos Brunellos que respeitem seu estilo e seu terroir. O amadurecimento mínimo em madeira é de dois anos, período muito inferior ao que era exigido no passado, embora a linha tradicionalista goste de seguir este caminho. De todo modo, houve mais liberdade para produtores com outros critérios de elaboração.

A versão Rosso di Montalcino parte geralmente de parreiras mais jovens e trechos menos favorecidos dos vinhedos de cada produtor. Não há obrigatoriedade em amadurecer o vinho em madeira. Neste caso, o vinho pode ser tomado mais jovem, por um preço mais acessível, embora sem a complexidade dos grandes Brunellos.

Em termos de legislação, Brunello di Montalcino é DOCG (Denominazione di Origine Controllata e Garantita), enquanto Rosso di Montalcino é apenas DOC.

 

 

 

Terroir: A temperamental Nebbiolo

30 de Junho de 2011

Falar da denominação Barolo sem usar expressões como: exceto, depende da safra, dependendo do produtor, dependendo da exposição do terreno, e outras tantas considerações, é como pisar num campo minado, dizendo que até aquele instante, está tudo sob controle. Este tema foi elaborado a pedido do meu amigo Roberto Rockmann, barolista convicto, em busca incessante de novas opiniões sobre uma das mais importantes e tradicionais denominações italianas.

Apesar de ser elaborado exclusivamente com Nebbiolo, esta uva é tão ou mais complicada que a própria Pinot Noir na Borgonha. Sua maturação é tardia, com um ciclo bastante longo. O próprio nome está ligado à época de colheita, com a característica neblina (nebbia) que se intensifica no começo do outono piemontês. Seus taninos são potentes e exigem um amadurecimento perfeito, dificultando ainda mais seu paciente cultivo. Portanto, é fundamental uma excelente exposição do terreno, preferencialmente a sudeste, como ocorre nos grandes vinhedos no hemisfério norte.

Esta breve introdução nos mostra o tamanho do problema. A despeito da pequena área desta denominação (imaginem um retângulo de oito quilometros de largura por doze quilometros de comprimento), tomar um barolo genérico é mais arriscado que tomar um borgonha comunal. Portanto, é fundamental conhecer o vinhedo específico e o estilo do produtor, para tentar entender o que se está tomando, de acordo com a característica da safra em questão.

 

[BaroloMap.jpg]

As várias comunas de Barolo

O mapa acima (dê um zoom para maiores detalhes) mostra uma importante linha divisória no sentido longitudinal, separando a oeste um solo denominado Tortoniano, de um solo a leste denominado Helvético. O solo Tortoniano, típico da comuna de La Morra, é composto de marga (mistura judiciosa de argila e calcário) com presença marcante de manganês e magnésio. É um solo claro com uma leve nuance azulada, semelhante à cor gelo. A Nebbiolo cultivada neste tipo de solo gera vinhos mais aromáticos, precoces, com taninos mais dóceis. Já o solo Helvético, é composto de marga com presença marcante de ferro, dando uma aparência mais amarelada. Nebbiolo cultivada neste tipo de solo gera vinhos mais austeros, de maior acidez e taninos mais marcantes. São os chamados Barolos de guarda, muito típicos da comuna de Serralunga d´Alba.

Seguindo esta linha de raciocínio, os chamados produtores Modernistas procuram cultivar uvas Nebbiolo em solos do tipo Tortoniano, cujo terroir é mais favorável  ao estilo moderno de vinficação, gerando Barolos de grande empatia.

Os chamados produtores Tradicionalistas encontram mais facilidades de expressar seus Barolos em solo do tipo Helvético, enfatizando toda a potência e austeridade desses vinhos.

Estilo Modernista

São Barolos aromáticos, agradáveis de beber mesmo em tenra idade, taninos relativamente macios e eventualmente, mostrando traços de barricas novas. Muito ao agrado do chamada gosto internacional.

Alguns Produtores: Domenico Clerico, Elio Grasso, Roberto Voerzio e Elio Altare.

Estilo Tradicionalista

São Barolos austeros, de grande acidez, taninos firmes, aromaticamente fechados quando novos. Vão se expressar melhor à medida que adquirirem aromas terciários (envelhecimento em garrafa).

Alguns Produtores: Massolino, Bruno Giacosa, Mascarello e Aldo Conterno.

Os produtores mencionados podem ser encontrados nas seguintes importadoras:

Grand Cru (Massolino): www.grandcru.com.br

Mistral (Giacosa): www.mistral.com.br

Vinci (Elio Altare e Domenico Clerico): www.vinci.com.br

Cellar (Aldo Conterno): www.cellar-af.com.br (fale com Amari de Faria, expert no Piemonte, e você terá outras dicas e produtores)

Interfood (Elio Grasso): www.interfood.com.br

Decanter (Mascarello): www.decanter.com.br

World Wine (Roberto Voerzio): www.worldwine.com.br

O fator complicador de toda esta história reside no fato de definir claramente o tipo de solo predominante de um determinado vinhedo, além de saber exatamente, até que ponto o produtor em questão pende para a escola Modernista ou Tradicionalista. Some-se a isto, os fatores climáticos de cada ano e por conseguinte, a safra, e a apaixonante polêmica está armada.

Concluindo, para você encontrar seu Barolo de coração, procure saber sobre o produtor, seu estilo e seus vinhedos. Veja se esses dados estão de acordo com seu gosto pessoal. Posso garantir que para chegar neste estágio, muitos Barolos serão abertos. Então, vamos ao sacrifício!