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Benjamin Romeo: Contador

21 de Abril de 2015

A Espanha vem se modernizando há algum tempo como várias outras regiões vinícolas da Europa. Contudo, essa nova filosofia muitas vezes oferece novidades um tanto decepcionantes. Vinhos super extraídos, carga excessiva de madeira nova, cepas não condizentes com seu terroir, e por aí afora. Entretanto, não é o caso da bodega acima, Contador, de Benjamin Romeo. Antes de entrar no assunto especificamente, vamos recordar um pouco o terroir riojano.

As três Riojas: Alta, Alavesa e Baja

Na chamada Rioja Alavesa, os solos predominantes são argilo-calcários, gerando vinhos equilibrados, frescos e elegantes. Na Rioja Baja, os solos são argilo-ferruginosos. São solos pesados onde a Garnacha, e não a Tempranillo, se dá muito bem, gerando vinhos com muita fruta porém, encorpados e alcoólicos. É a sub-região menos prestigiada. Por fim, temos Rioja Alta, terroir de nosso artigo em questão, da bodega Contador. A localização de seus vinhedos é bastante estratégica, visto que seu posicionamento no mapa acima fica bem dentro daquele dente infiltrado entre as duas partes de Rioja Alavesa. A sede da bodega fica no vilarejo de San Vicente de la Sonsierra. Estas são as terras de maior altitude em Rioja Alta, proporcionando boa amplitude térmica, fator fundamental para uvas equilibradas. O outro fator importantíssimo é a mescla de solos nesta região, misturando em proporções diversas o calcário, a argila ferruginosa e solos de origem aluvial decorrente de outras eras geológicas do rio Ebro, principal rio da região separando fundamentalmente, Rioja Alavesa com Rioja Alta. No caso da bodega Contador, este dente específico é o único setor de Rioja Alta onde as vinhas localizam-se na margem norte do rio Ebro. Para completar, Benjamin Romeo escolhe a dedo seus vários vinhedos na região, procurando solos específicos e vinhas de idade avançada.

Agora sim, falando fundamentalmente da bodega Contador, trata-se de um projeto relativamente novo iniciado em 1995. De forma muito artesanal e com muita dificuldade, Benjamin Romeo inicia a elaboração de seus vinhos onde ao mesmo tempo, vai adquirindo novos terrenos. Numa escala de microvinificação, elabora seu vinho principal, ícone, chamado de Contador, onde Robert Parker pontua as safras de 2004 e 2005 seguidamente com 100 pontos. Começa aí o nascimento de mais um mito. Como sucesso chama sucesso, Benjamin Romeo expande sua vinícola com novas construções, aquisição de novos vinhedos, mas sem abrir mão de qualidade e detalhes fundamentais na elaboração de grandes vinhos. Seus vinhedos são conduzidos de forma biodinâmica, o carvalho francês é pessoalmente monitorado, fruto das melhores partidas e inclusive as rolhas, selecionadas de corticeiros da mais alta confiabilidade. Nos vinhedos, trabalha com podas severas, buscando baixos rendimentos por parreira, rendimentos esses facilitados pela avançada idade das vinhas. As fermentações ocorrem em toneis de carvalho tipo tronco-cônicos, no intuito de integrar melhor a madeira na massa vínica e otimizar a extração de suas uvas de alta qualidade. As barricas novas continuam no processo, desde a fermentação malolática, até o longo amadurecimento antes do engarrafamento. Em seu pensamento, o vinho deve estar à altura de uma barrica nova. Portanto, vamos aos vinhos, degustados segundo a ordem de seu mentor.

O vinho de entrada da bodega

O que degustamos tratava-se da safra 2011. São vinhedos de várias procedência mesclando 91% Tempranillo e 9% Mazuelo (Cariñena nas demais regiões espanholas). A produção não passa de dois quilos por parreira. A fermentação dá-se em aço inox com posterior amadurecimento em barricas francesas usadas com um ano de idade. Boa concentração de frutas, toque florais e notas de fumo. A madeira está bem integrada ao conjunto, taninos ainda a resolver, e uma pontinha de álcool sobressalente. Para um vinho básico da bodega apresenta um nível muito bom. Produção de noventa mil garrafas nesta safra.

Aromas fascinantes

Aqui começamos a entrar nos grandes vinhos da bodega. Os aromas elegantes e complexos envolvem frutas maduras, baunilha, toques de fumo, cedro, ervas e defumado. Seu lado floral é encantador, lembrando lavanda, segundo o próprio Benjamin. Bom corpo, macio, taninos finos e belo equilíbrio. Expansivo em boca, suporta bem uns bons anos em adega. Este 100% Tempranillo parte de uma mescla de vinhedos com rendimentos de 1,2 quilos por parreira. Seu amadurecimento em barricas francesas novas leva dezoito meses. Tinto que alia concentração e elegância, sem percebermos traços de madeira excessivos. Produção de 10500 garrafas nesta safra.

Gran Reserva em estilo moderno

Este tinto com 24 meses em barricas, mais 36 meses em garrafas, mostra uma cor super conservada para um Gran Reserva, ainda com traços violáceos. Também partindo de uma mescla de vinhedos, seu blend engloba 82% Tempranillo, 10% Garnacha, 4% Graciano e 4% Mazuelo. Seu frescor é incrível, e sua estrutura tânica é marcante. Deve ser obrigatoriamente decantado. Seus aromas de frutas maduras, ervas, baunilha, fumo, cedro e outros defumados estão perfeitamente integrados com o madeira. Como são vinhas antigas, seu rendimento é de meio quilo por parreira. Grande persistência, expansão e equilíbrio notável. Vai longe em adega. Apenas quatro mil garrafas nesta safra.

Rioja de vinhedo único

Este sim é um vinho de Pago, vinhedo único chamado La Liende com redimentos de um quilo por parreira. 100% Tempranillo vinificado em madeira e posteriormente, amadurecido em barricas novas francesas por 18 meses. Este solo de origem calcário-aluvial, transmite elegância e mineralidade ao vinho. Grande concentração de cor, aromas de frutas escuras maduras, toques de café, florais, e balsâmicos. Estrutura e qualidade de taninos incríveis. Macio em boca, fresco, belo equilíbrio. Vinho de longa guarda em adega. Apenas 5500 garrafas nesta safra.

Rioja branco elegante

Este é o branco topo de gama da bodega com produção de cinco mil garrafas por ano. Parte de vários vinhedos mesclando 73% Garnacha Blanca, 15% Malvasia e 12% Viura. Os rendimentos não passam de um quilo por parreira. Sua fermentação dá-se em barricas francesas com posterior amadurecimento nas mesmas por oito meses. Há bâtonnage periódica durante o processo, buscando maior complexidade aromática, proteção da cor e textura mais sedosa. De fato, sua cor brilhante, pouco evoluída, confirma o processo acima. Aromas elegantes, mesclando frutas maduras, baunilha e tostados finos. Em nenhum momento, a madeira é invasiva. Belo frescor, apesar de seus 15° de álcool. Bom corpo, boa estrutura e de grande expansão em boca. Boa parceria para um Manchego (queijo) pouco afinado.

Esses vinhos são trazidos pela importadora Premium (www.premiumwines.com.br), a qual prima por uma seleção de produtores de alta qualidade. Parabéns aos proprietários Orlando e Rodrigo por mais esta conquista.

Combinado: Saquê ou Riesling?

25 de Agosto de 2014

Um dos pratos mais pedidos na culinária japonesa é o combinado, envolvendo vários elementos como sushis e sashimis numa apresentação sempre sedutora e instigante, conforme foto abaixo:

Texturas e sabores sutis

No belo livro do sommelier Philippe de Faure-Brac sobre harmonização, Vins et Mets du Monde, há sempre sugestões audaciosas para os vinhos de acompanhamento. Contudo, na culinária japonesa sobre sushis e sashimis, sua proposta é bem tradicional, saquê e não o vinho. De fato, devo admitir que é um combinação admirável, provando mais uma vez que bebidas e comidas locais, regionais, são escolhas certeiras. A delicadeza da bebida e seu leve toque adocicado faz par perfeito com o sushi, sobretudo. O arroz com uma sugestão de doçura faz o elo de ligação com o saquê de forma extremamente harmoniosa. Embora o Jerez seja o vinho mais próximo da tradicional bebida japonesa, numa comparação tête-à-tête, o Jerez chega a ser tosco, muito evasivo. É o que eu digo sempre, a comparação é cruel. Insistindo no Jerez, prefira um delicado e fresco Manzanilla com sua nota de salinidade.

Vale a pena optar pelo autêntico saquê japonês. Mais delicado, elegante e pouca percepção do álcool. Apesar de custar pelo menos o dobro dos nacionais, o preço final não é tão proibitivo. É claro que os exemplares especiais, de grande artesanato, são sempre de custo elevado.

Um autêntico japonês: sutil e marcante

Já quando se trata de sashimi, o vinho pode combinar bem, prevalecendo o toque de maresia no prato. Pessoalmente, os Rieslings são os mais indicados. Sua alta acidez, leveza, frescor e um toque de mineralidade, são componentes fundamentais para a harmonização. Ele contrapõe de forma admirável a maresia e a salinidade do prato (molho shoyu). Um Kabinett clássico alemão do Mosel, apresenta leveza, sutileza e um leve toque adocicado que pode acompanhar também o sushi com sucesso. Os alemães do Rheingau tendem a ser mais encorpados e menos delicados com as devidas exceções. Já os alsacianos costumam apresentar mais corpo e estrutura, passando um pouco por cima do prato. Uma exceção pode ser o riesling da Maison Trimbach (importadora Zahil – http://www.zahil.com.br), extremamente seco e mineral. Prefira a versão básica, menos encorpada do que os fabulosos Cuvée Frédéric Émile e o suntuoso Clos Sainte-Hune.

Mosel: elegância e sutil doçura

O produtor acima, importado pela Decanter (www.decanter.com.br),  é pouco conhecido no Brasil, mas de grande reputação na denominação Mosel-Saar-Ruwer. Trittenheimer é um de seus terroirs especiais.

Alguns rieslings do Novo Mundo podem ser testados tais como, australianos do Clare Valley, a norte de Barossa Valley; neozelandeses da Ilha Sul, vinícola Rippon de Central Otago por exemplo, um dos belos vinhedos do mundo, importado pela Premium (www.premiumwines.com.br). Austríacos com a uva emblemática Gruner Veltliner são opções interessantes. Alguns vinhos do Loire com a uva Chenin Blanc sob a apelação Vouvray Sec e Tendre (leve açúcar residual) são os vinhos que mais se aproximam do estilo alemão.

Lembrete: Vinho Sem Segredo na Radio Bandeirantes (FM 90,9) às terças e quintas-feiras. Pela manhã, no programa Manhã Bandeirantes e à tarde, no Jornal em Três Tempos.

Nova Zelândia: Parte III

6 de Maio de 2013

Embora a ilha Sul tenha surgido posteriormente à ilha Norte em termos vitivinícola, Marlborough teve enorme importância em promover a região e com isso fazer da Sauvignon Blanc, a uva emblemática deste país, além de tornar a ilha Sul mais produtiva que sua irmã ao norte. Apesar de tudo, o desafio não foi fácil. Amadurecer uvas num dos locais mais frios e meridionais do mundo pode retardar o amadurecimento das mesmas em até sete semanas com relação à ilha Norte. Novamente, temos o mapa abaixo.

Marlborough: a mais badalada região da ilha Sul

Apesar do nome, Nelson não é minha região preferida na ilha Sul. Embora esteja praticamente na mesma latitude de Marlborough, não tem a mesma proteção com relação aos gélidos ventos vindos  de oeste. Com isso, o amadurecimento das uvas costuma ser dramático. Contudo, há bons exemplares de Sauvignon Blanc, alguns Rieslings, Pinot Noir e principalmente Chardonnay, facilitada pela maturação precoce.

Pulando por enquanto Marlborough, a região central da ilha Sul, Canterburry, é geralmente muito fria para a maioria das cepas. Neste sentido, Chardonnay e Pinot Noir costumam destacarem-se. Riesling e Sauvignon Blanc também têm seus espaços.

Passando agora para Central Otago, a região mais meridional da ilha Sul, a perfeita proteção a oeste da cadeia de montanhas dos Alpes do Sul fazem da região um dos melhores terroir para o cultivo da Pinot Noir. Embora o clima seja frio, os vinhos costumam ter profundidade e elegância. A vinícola Rippon, comentada em posts anteriores e também em artigo especial neste mesmo blog (procurar por Rippon Pinot Noir) é a grande referência. Dentre as brancas, a Riesling é bastante promissora, além de Chardonnay e Pinot Gris. Os vinhos são elegantes e aromáticos.

Rippon vineyard: uma das mais belas paisagens vitícolas

Finalmente, Marlborough, a grande estrela da ilha Sul. É o mais novo terroir clássico do chamado Novo Mundo. Apesar de uma área plana em solo de gravilha, sua drenagem é excelente. A exposição solar é uma das maiores e mais eficientes do mundo. Some-se a isso, a proteção eficiente da cadeia de montanhas dos Alpes do Sul, e você terá um terroir perfeito para o amadurecimento da Sauvignon Blanc. Favor verificar em artigos anteriores pelo título: Terroir Sauvignon Blanc. Com a expansão brutal da região na última década, a dica para não decepcionar-se é procurar por vinícolas conceituadas com vinhedos próximos ao rio Wairau (no idioma maori quer dizer “muitas águas”. Pronuncia-se Why-roo), buscando um terroir mais original. Alguns nomes como Cloudy Bay, Jackson Estate, Whiter Hills e Isabel Estate, são portos seguros. Além da Sauvignon Blanc, Chardonnay, Pinot Noir e Riesling, também são cultivadas. A maioria dos exemplares apresentam vinhos equilibrados, mas sem grandes atrativos.

Com este artigo encerramos as principais regiões deste belo país, voltando oportunamente a comentar produtores e vinhos específicos. A referência de vinhos neozelandeses no Brasil continua sendo a importadora Premium Wines de Belo Horizonte, dos proprietários Rodrigo Fonseca e Orlando Rodrigues (www.premiumwines.com.br).

Nova Zelândia: Parte I

29 de Abril de 2013

O mais novo país do chamado Novo Mundo no cenário internacional. Até os anos 70 os vinhedos neozelandeses eram inexpressivos, cultivados apenas na ilha Norte. A ilha Sul ainda era um desafio devido à latitude, ao clima frio, potencializado principalmente pelos fortes ventos vindos da parte oeste da ilha. Mas em 1985, o vinho Cloudy Bay Sauvignon Blanc elaborado com vinhas plantadas no nordeste da ilha Sul, na ainda não famosa região de Marlborough, mostrou ao mundo uma nova dimensão da Sauvignon Blanc. Com fruta exuberante e uma acidez vibrante, este Sauvignon conquistou o paladar da crítica especializada com muita repercussão no mercado internacional. Veremos em detalhes mais adiante, a razão deste sucesso. Abaixo, as principais regiões vinícolas das duas ilhas.

Diversidade de regiões nas duas ilhas

Segundo dados de 2012 do site New Zealand Wine (www.nzwine.com), a Nova Zelândia conta com pouco mais de trinta e quatro mil hectares de vinhas plantadas, sendo quase oitenta porcento de uvas brancas. A uva branca mais plantada de longe é a Sauvignon Blanc, uva emblemática deste país, com quase vinte mil hectares. Dentre as tintas, a Pinot Noir lidera com folga chegando a pouco mais de cinco mil hectares. Quanto às regiões, Marlborough na ilha Sul é a mais produtiva com sessenta e seis porcento da área total (34.269 hectares). Em seguida, a região de Hawkes Bay conta com catorze porcento da área total plantada, perfazendo pouco mais de quatro mil e oitocentos hectares. Regiões como Gisborne e Otago seguem com áreas em torno de mil e setecentos hectares cada uma. A propósito, o grande avanço da área plantada em Marlborough é preocupante no sentido da preservação do terroir original. Com a fama da região, sua expansão comprometeu a tipicidade e a concentração na maioria dos vinhos nos últimos tempos, tendo o produtor neste sentido papel fundamental. Só para se ter uma idéia, os dados de 2007 apontam pouco mais de dez mil hectares de vinhas contra dezenove mil em 2012.

Voltando ás uvas tintas, a Pinot Noir ainda é uma grande promessa deste país. Com clima relativamente frio, regiões como Martinborough (ilha Norte) e Central Otago (ilha Sul) são as mais promissoras. Neste sentido, vinícolas como Martinborough Vineyards e Rippon, respectivamente em Martinborough e Central Otago, são ótimos exemplos que nos fazem acreditar nesta promessa. Ambas são trazidas no Brasil pelas importadoras Mistral (www.mistral.com.br) e Premium (www.preimumwines.com.br), respectivamente.

Como último dado, a Nova Zelândia produziu em 2012 cento e noventa e quatro milhões de litros de vinho, sendo cento e setenta e nove milhões destinados à exportação, comprovando seu forte caráter em busca do mercado internacional. Em termos absolutos, o país não está entre os principais exportadores de vinho, mas proporcionalmente, é altamente respeitável. Seus vinhos pela qualidade, agradabilidade e exotismo conquistam cada vez mais consumidores dos mais diversos países e paladares. Austrália, Reino Unido e Estados Unidos estão entre seus principais importadores.

Próximo post, principais regiões da ilha Norte.