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Terroir: Alsace III

11 de Julho de 2011

Além das quatro cepas comentadas no post anterior (Alsace II); Pinot Blanc (PB), Sylvaner (SY), Chardonnay (CH), Pinot Noir (PN) e outras de menor importância, compõem os vinhedos alsacianos. A Sylvaner gera vinhos relativamente simples, mas muito consumidos localmente no dia a dia. Chardonnay e Pinot Blanc fazem parte do chamado vinho-base para os interessantes Crémants d´Alsace, que falaremos mais adiante. Já a Pinot Noir é responsável pelo tinto da região num estilo leve e sem maiores atrativos, além de compor os chamados Crémants rosés. Riesling (RI), Gewurztraminer (GW), Pinot Gris (PG) e Muscat (MU), completam o quadro abaixo com dados do ano passado (2010):

 Superfície dos vinhedos por varietais

A apelação básica da região está fundamentada na AOC (Appellation d´Origine Contrôlée) Alsace respondendo por 74% da produção, da qual 92% de vinhos brancos, na sua grande maioria varietais. As uvas são mencionadas nos rótulos com participação integral (100%). Uma pequena parcela da apelação é elaborada com mistura de uvas (assemblage) sob as denominações Edelzwicker e Gentil, como veremos a seguir:

Edelzwicker

Zwicker em alemão quer diz assemblage  e Edel, nobre, ou seja, mistura nobre. As uvas são vinificadas juntas ou separadamente, e depois misturadas, sem nenhuma imposição de porcentagem de determinadas cepas. Esta categoria dentro da apelação Alsace surgiu de forma natural, já que antigamente, era muito comum termos várias cepas plantadas juntas num mesmo espaço.

Gentil

Quando a mistura (assemblage) é mais nobre, temos a categoria Gentil. A mesma prevê uma porcentagem mínima de 50% das uvas Riesling, Gewurztraminer, Muscat e Pinot Gris, podendo ser complementadas por Sylvaner, Chasselas e Pinot Blanc. Antes da comercialização, os vinhos passam por uma comissão julgadora.

Alsace: bela opção no mundo dos Crémants

A apelação Crémant d´Alsace regulamentada em 1976 responde por cerca de 21% da produção total da Alsace. Este espumante é obrigatoriamente elaborado pelo método tradicional (tomada de espuma na própria garrafa). As uvas permitidas são: Pinot Blanc (grande porcentagem, porém sem imposição legal), Pinot Noir, Pinot Gris, Riesling, Chardonnay e Auxerrois, respectivamente, em ordem decrescente de produção. A permanência mínima sur lies (sobre as borras) antes do dégorgement (expulsão das leveduras mortas) é de nove meses.

Próximo post, as exceções e polêmicas da Alsácia, com vinhos míticos e de baixíssima produção: Grands Crus, Clos, e vinhos botrytizados.

Terroir: Alsace II

7 de Julho de 2011

A comparação dos brancos alsacianos é quase inevitável com seus vizinhos germânicos. Normalmente, o lado francês gera vinhos mais encorpados, mais opulentos e mais potentes em relação ao lado alemão. Como tudo é relativo, a Alsácia é uma região quente para padrões alemães. Por isso,  essas características são refletidas em seus vinhos. Entretanto, as versões Trocken dos atuais vinhos alemães aproximam-se muito do padrão alsaciano, a  ponto de confundirmos estes  exemplares numa degustação às cegas.

Tratando-se de vinhos varietais expressos nos rótulos, vamos detalhar a seguir, as principais uvas:

Riesling

Longe de menosprezar o alto padrão do Riesling alemão, a Alsácia talvez seja a única região fora da Alemanha a elaborar vinhos com esta caprichosa cepa, capazes de confrontar a excelência alemã. Seus aromas são típicos, mostrando com elegância sua trilogia aromática com aspectos florais, minerais e cítricos. A perfeição da mineralidade fica por conta da domaine Trimbach (os espetaculares Cuvée Frederic Emile e Clos Sainte Hune), com vinhos capazes de envelhecer por décadas. Já o lado mais opulento e exuberante está a cargo do produtor Zind-Humbrecht, com vinhos aromaticamente elegantes, macios e expansivos.

Na gastronomia, a Riesling acompanha muito bem pratos defumados, receitas com carne de porco e o clássico alsaciano Choucroute Garnie.

Domaine Trimbach – importadora Zahil – www.zahil.com.br

Zind-Humbrecht – Expand – www.expand.com.br

Pinot Gris e Gewurztraminer, respectivamente

É importante salientar que as uvas acima são rosadas, gerando vinhos de cores mais acentuadas,  tendendo ao dourado, principalmente com o envelhecimento em garrafa. Trata-se sempre de uma vinificação em branco, sem a presença das cascas.

Pinot Gris

Na Itália, Pinot Grigio. Na Áustria ou Alemanha, Ruländer ou Grauer Burgunder. Seja como for, nos vários países onde é cultivada, com vários outros sinônimos, em nenhum outro lugar além da Alsácia, esta uva gera vinhos de tamanha complexidade e sofisticação. Em terroir alsaciano, seus vinhos lembram o lado floral mais discreto da Gewruztraminer com nuances de talco. Gustativamente, apresentam a textura e maciez de um chardonnay de bom corpo. Nas versões adocicadas, costuma ser o parceiro ideal para o autêntico foie gras alsaciano.

Gewurztraminer

Apesar de seus aromas florais intensos, além de lichias e especiarias, não há paralelos mesmo do lado alemão, para o estonteante “Gewurz” da Alsácia. Sua acidez costuma ser deficiente, mas quando não há este inconveniente, são vinhos exóticos e apaixonantes. Parceiro número um para o poderoso queijo local Munster. Culinária indiana com pratos mais aromáticos que picantes é outra pedida certa.

Muscat

As variedades Muscat à petits grains e Muscat Ottonel geram os convidativos moscatéis da Alsace. São vinhos leves, delicados e aromáticos, muito apropriados para aperitivos e pratos vegetarianos, inclusive com aspargos.

Em resumo, se você quer um ótimo moscatel seco, se você quer o melhor riesling além da Alemanha, se você quer os melhores Pinot Gris e Gewurztramminer do mundo, escolha a Alsácia. Terra dividida tantas vezes ao longo da história entre França e Alemanha, soube com maestria tirar proveito deste conflito, praticando de forma singular, um dos mais belos exemplos em vitivinicultura.

Terroir: Alsace I

4 de Julho de 2011

O terroir francês tem suas particularidades, sobretudo quando estamos falando de grandes latitudes norte, onde o frio e umidade são fatores extremamente limitadores ao cultivo da vinha. É o caso da Alsace e Champagne. Notem que ambas têm latitudes muito próximas. Contudo, apresentam fatores de terroir bastante distintos.

A santa proteção dos Vosges

Sabemos que ventos provenientes de todo o litoral francês na sua porção oeste, adentram no sentido leste em seu território, trazendo umidade, frio e muitas vezes chuvas. A situação fica mais dramática à medida que caminhamos para regiões mais setentrionais. Champagne é uma região propícia a estas influências por possuir uma topografia relativamente suave.

No caso da Alsácia, situada no extremo leste francês, fazendo divisa com a Alemanha, a situação muda radicalmente, pois existe um anteparo natural, bloqueando esta influências que vêm do lado Oeste. Este obstáculo é a famosa cadeia de montanhas dos Vosges. Não são extremamente altas (os maiores picos alcançam 1300 metros), mas o suficiente para interromper estas influências, conforme figura acima.

Além de bloquear umidade e chuva, os Vosges propiciam do lado leste uma série de encostas contíguas a exemplo da Côte d´Or (o supra-sumo do terroir borgonhês), situada mais ao sul. Essas encostas fornecem ângulos de insolação extremamente favoráveis, além de uma eficiente drenagem do terreno. Geologicamente, a diversidade de solos é imensa e o número de dias ensolarados é dos mais expressivos para padrões franceses, concentrados na época de maturação das uvas. Nestas condições, temos um clima mais favorável em relação à Champagne, gerando uvas com ótimos níveis de maturação.  Entretanto, essas uvas na sua grande maioria são brancas, pois a região ainda é muito fria para o cultivo adequado de uvas tintas.

De fato, os brancos da Alsácia são fascinantes e na sua imensa maioria, varietais (elaborados com uma única uva), expressando em seus rótulos os nomes das uvas, fato muito pouco usual na legislação francesa. As quatro principais uvas são Riesling, Pinot Gris, Muscat e Gewurztraminer, as quais serão detalhadas no próximo post.

Harmonização: Confit de Canard

24 de Junho de 2010

Preciosidade advinda de antiga técnica de conservação

Em tempos inimagináveis, quando não existia geladeira, a conservação de alimentos em gordura era uma das técnicas utilizadas na preservação de alimentos, para garantir comida na mesa nos rigorosos invernos europeus. Assim surgiu o saborosíssimo Confit de Canard (coxa e sobrecoxa de pato conservadas na própria gordura). Pode ser guanecido com uma simples salada ou algo mais contemporâneo como risoto, por exemplo.

De qualquer modo, é um prato de resistência. A carne cozinhada lentamente na própria gordura, tem um tom mais escurecido e sua proximidade ao osso, acentua sobremaneira o sabor. Não é à toa que na região do sudoeste francês, tintos vigorosos como Cahors e Madiran, com as uvas Malbec e Tannat respectivamente, sejam seus parceiros ideais. Além do intenso sabor, a gordura principalmente da pele dissolve-se, penetrando por toda a carne. Este tipo de gordura dissolvida casa-se perfeitamente com os taninos intensos e rústicos dos vinhos acima citados, tornando-os surpreendentemente macios. Portanto, nada de vinhos leves, a despeito de apresentarem acidez suficiente para o prato, mas sem a intensidade de sabor que o mesmo exige.

Uma das sugestões autênticas, é provar o belo Madiran de Alain Brumont, Château Montus, importado pela Decanter. Moderno, típico e bem equilibrado (www.decanter.com.br).

Se você gosta dos potentes tintos do Novo Mundo baseados em Cabernet Sauvignon, Shiraz, Tannat, Malbec, entre outros, inclusive com destacada passagem por madeira, esta é a hora deles também. Aromas intensos, bom teor alcoólico, taninos jovens e presentes serão benvindos neste momento. Normalmente, pode faltar um pouco de frescor, mas nada que comprometa de forma decisiva a harmonização. A tentativa de harmonização com Pinot Noir, principalmente os borgonhas, não é das mais felizes. O vinho é muito delicado e elegante para o prato. Embora não haja conflitos, esta não é a ave certa para tintos de tal sutileza.

Um branco de personalidade pode ser uma boa parceria para o confit frio que sobrou do dia anterior.  Ele pode ser desfiado, fazendo parte de uma salada de folhas com molho levemente agridoce. Neste caso, um bom e jovem Pinot Gris da Alsace é uma ótima opção. Sabores marcantes, acidez suficiente, juventude e bastante fruta, casam-se perfeitamente com esta vigorosa entrada. Quanto mais intenso for o sabor da carne, acompanhado de uma tendência doce mais acentuada do molho, mais intensos devem ser os brancos, inclusive os Vendange Tardive alsacianos. Além do pato, a carne de ganso enquadra-se perfeitamente neste contexto.

A citação destas aves, de forma alguma insinua um protesto à escalação do Dunga em nossa seleção, mas que eles fazem falta, fazem!