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Novidades no sul do Brasil

17 de Novembro de 2014

Confesso a vocês que não sou muito otimista com os vinhos brasileiros, sobretudo quanto à sua relação qualidade/preço. Isso é facilmente comprovado pelos poucos artigos descritos neste blog. Entretanto, quando há boas novidades, é um dever divulga-los. Além de se fazer justiça, é sempre um incentivo aos produtores em busca incessante pela qualidade e esmero em seus vinhos. Numa viagem recente, segue abaixo relato do que melhor tivemos a oportunidade de degustar.

Só para começar, dois Alvarinhos surpreendentes do sul do país. É! É isso mesmo, Alvarinho. Aquela casta do Minho português, das Rias Baixas espanhola. Não só cumpriram o desafio desta temperamental casta, como marcaram personalidade em seus vinhos. O primeiro, foto abaixo, é da vinícola Hermann, do mesmo Adolar, proprietário da destacada importadora Decanter (www.decanter.com.br). Branco elegante, delicado, com toques florais e de frutas brancas.

Bela expressão do varietal

O vinho abaixo, Alvarinho da vinícola Miolo, é elaborado na Campanha, região mais meridional do sul do país, fazendo divisa com terras uruguaias. Apresenta passagem por barrica, um procedimento sempre ousado para vinhos brancos, mas com grande êxito. A madeira só valorizou o vinho, acrescentando elegância e finesse.

Toque elegante de madeira

O vinho abaixo é outra grata surpresa. Um Alicante Bouschet da serra gaúcha elaborado pela competente vinícola Pizzato. Esta é a casta majoritária do grande Mouchão, um alentejano de primeira linha que pessoalmente, é o melhor e mais diferenciado da região. Um tinto de cor extremamente profunda a despeito de seus seis anos de idade (safra 2008). Os aromas concentrados de frutas escuras somam-se a toques de ervas e mentol muito bem casados. A estrutura tânica é notável  e sua persistência aromática bastante expansiva. Trata-se de um vinho de guarda para pelo menos mais oito anos. Vale a pena provar!

Casta exótica surpreendente

O vinho abaixo às cegas passaria facilmente por qualquer ícone chileno ou argentino. Sua cor é impenetrável  e seus aromas esbanjam frutas, especiarias e um refinado toque de madeira francesa. O corpo é impactante com um equilíbrio notável. Seus taninos ainda muito presentes, mas extremamente finos, se amoldarão certamente ao longo dos anos. Um vinho para colocar sem medo às cegas com tintos potentes do Novo Mundo. Este tinto é elaborado na Campanha (divisa com o Uruguai) com seis castas (Cabernet Sauvignon, Tempranillo, Petit Verdot, Merlot, Tannat e Touriga Nacional(,

Encara qualquer ícone do Mercosul

Por fim, uma vertical completa de um dos melhores tintos gaúchos dos últimos tempos, o famoso Lote 43 da vinícola Miolo. Algumas impressões ficaram bem nítidas na degustação. Primeiramente, a boa concentração dos vinhos, bem equilibrados e bem casados com a madeira. A primeira safra histórica é a de 1999. Um tinto de quinze anos que ainda apresenta-se inteiro e com aromas muito elegantes. Deve ter mais uns cinco anos neste platô de evolução antes de sua fase final.

Linhagem autêntica de um clássico

Falar sobre um vinho brasileiro que se destaca no mercado e é sempre lembrado como um dos melhores do sul do país, pode significar uma questão de marketing, de comodismo ou ainda, de interesses escusos. Não é o caso do vinho acima. O Lote 43 desde sua primeira safra heroica nos idos de 1999, primou por concentração e qualidade em todas as etapas de elaboração. Sou suspeito em falar desta safra pioneira, pois já degustei-o em várias oportunidades e em todas elas, sempre com muita classe, personalidade e consistência. Quem diria que um tinto nacional de quinze anos de guarda estaria em perfeito estado? Naturalmente, com as marcas da idade, aromas terciários, taninos polimerizados, mas ainda proporcionando grande prazer. Evidentemente, as demais safras a despeito de julgamentos técnicos, pesa o gosto pessoal e algumas peculiaridades respectivas de cada amostra. Por isso, os anos de 2002, 2004, 2008 e os recentes, 2011 e 2012, apresentam um belo padrão de tipicidade e consistência. Contudo, devo destacar a singular safra de 2005. Vários exemplares desta safra já me impressionaram favoravelmente, mas o Lote 43 2005 é um “tour de force” neste batalhão. Um tinto potente, de grande estrato, cores profundas, não denotando a idade. Seus aromas são intensos e marcantes, além de uma boca muito bem equilibrada e agradavelmente quente. Um vinho para inverno, belos assados e molhos densos. Seus taninos apesar da abundância, são finos e agradavelmente firmes. Persistência longa e expansiva. Muitos anos pela frente e para os mais apressados, uma decantação obrigatória de pelo menos uma hora. O 99 pode descansar em paz quando chegar a sua hora, pois tem um sucessor à altura.

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Grandes Vinhos, Grandes Safras: Parte V

22 de Outubro de 2014

Agora deixando a Borgonha, e partida para Bordeaux. Chegando em Bordeaux, fomos almoçar em Saint-Emilion no Château Troplond-Mondot (pronuncia-se “Trolon-Mondô). Belo restaurante com menu bem executado. Estamos falando da margem direita de Bordeaux.

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Branco de margem direita

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A delicadeza de Pessac-Léognan

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À sombra do grande Yquem

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Pessac-Léognan de estrutura

Para dar início aos trabalhos, um quarteto muito  bem representado dos brancos bordaleses, vinhos de uma certa maneira subjugados frente ao enorme destaque dos tintos. De início, Jean Luc Thunevin Blanc nº 1 2009. Muito agradável, mas o menos complexo do painel. Madeira bem casada com a fruta e final fresco. O segundo trata-se de um branco bem elegante, Château Carbonnieux 2011. Aromas sutis, toques florais e textura delicada em  boca. Sempre um bom início de refeição. O terceiro vinho, o branco seco do Château d´Yquem, “Y” , Ygrec 2008. Elaborado com proporções semelhantes de Sémillon e Sauvignon Blanc, é um vinho marcante, com boa presença em boca e bastante gastronômico. Por último, um grande Pessac-Léognan, Domaine de Chevalier 2007. Um dos melhores de Bordeaux, apresenta ótima estrutura para envelhecimento. Bom corpo, textura macia e boa evolução de aromas. Fechou com chave de ouro esta série.

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Não estava em sintonia com os demais

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Chateauneuf-du-Pape de exceção

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Um dos melhores bouchonné

Na sequência de tintos, vamos abordar os três não bordaleses em primeiro lugar. Começando pelo Masseto 2001, foi o tinto que destoou no painel. É claro que se tomado individualmente, trata-se de um belo toscano baseado na casta Merlot. Contudo, diante dos bordaleses que virão a seguir, não há termo de comparação. Em seguida, um Chateauneuf-du-Pape fora de série do mítico produtor Henri Bonneau Réserve des Celéstins, uma cuvée especial de sua cave. Aromas lembrando o sul da França como garrigue (vegetação típica da Provence), ervas, especiarias e toques balsâmicos. Boca sedosa e extremamente longo. Por último, o que deveria ser talvez o vinho da viagem, o lendário Hermitage Paul Jaboulet La Chapelle 1961, estava bouchonné. Uma pena, mas sua cor, estrutura, e potência de taninos impressionaram.

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Concorrente à altura do astro Petrus

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Le Pin: Produção minúscula

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Petrus: Sempre misterioso

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Haut Brion em suas grandes safras

Enfim, chegou a vez dos bordaleses. E que vinhos, que safras! Uma sequência de 1990 inesquecíveis. Começando  pelo Château Lafleur 1990, um Pomerol de rara beleza. Boa evolução de aromas lembrando um toque terroso, cogumelos, ameixas escuras e chocolate. O mais pronto da trilogia. Em seguida, o minúsculo Chateau Le Pin 1990. Muita estrutura de taninos, ainda um pouco fechado, dando a certeza que uma boa decantação só trará benefícios. Muita vida pela frente. Por fim, o Chateau Petrus 1990. Uma criança ainda. Este é o Romanée-Conti de Bordeaux. Vinho misterioso, que não se revela facilmente. Apesar de seus mais de vinte anos, muitos segredos a serem desvendados. Um das grandes safras deste tinto. Realmente, não tinha como o Masseto ficar pequenininho.

Para não ficarmos só na margem direita, que tal para finalizar um Haut Brion 1989, um dos cem pontos de Parker. Safra histórica para esta estupenda propriedade de Pessac-Léognan. Uma maravilha já acessível, mas sem nenhum sinal de cansaço. Nos aromas, o característico toque animal, trufas, toques terrosos, algo de café, de chocolate, envolvidos em taninos sedosos. Um verdadeiro Premier Grand Cru Classe. Bravo!

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R.J. Viñedos: Uma bodega familiar

17 de Setembro de 2014

Os vinhos argentinos cada vez mais inundam nosso mercado com as mais variadas opções. Neste terreno minado, é preciso separar o joio do trigo. É o caso da bodega Raul Joffré (RJ) destinada  a suas quatro filhas. Já dissemos em outras oportunidades os dois melhores terroirs de Mendoza: Valle de Uco e Zona Alta de Mendoza, emblematizada por Lújan de Cuyo e Maipú, onde muitas vezes encontramos vinhas antigas. Valle du Uco é uma zona relativamente nova, mas muito promissora, pois as altitudes podem atingir mais de 1300 metros, provocando com frequência a bem-vinda amplitude térmica (diferença de temperaturas entre o dia e a noite), e por conseqûencia, mantendo um ótimo frescor nas uvas com elevados níveis de acidez.

Início dos trabalhos

No caso desta bodega, os vinhedos situam-se em Valle de Uco com plantações de Malbec, Bonarda, Merlot, Cabernet Sauvignon, entre outras variedades. O início da degustação teve como vinho de entrada um Merlot de uma linha relativamente básica com apenas seis meses em madeira para 15% do vinho, ou seja, 85% do mesmo permanece em aço inox. Tinto de boa fruta, bom equilíbrio e evidentemente, sem complexidade. Pelo preço, R$ 48,00 a garrafa, é uma bela opção para eventos onde o consumo é elevado.

Bonarda: Bela surpresa da degustação

A uva Bonarda sempre teve um conotação negativa para vinhos de alta gama na Argentina. De origem italiana, sempre foi cultivada com altos rendimentos, para misturas de vinhos baratos e de grande volume. Neste caso, estamos falando de vinhas com cerca de sessenta anos de idade, plantadas no belo terroir de Agrelo, Lújan de Cuyo. Vinificação cuidadosa com longa maceração, o vinho é amadurecido em barricas de carvalho francês por dez meses.

Apresentou-se com uma cor jovem de muito boa intensidade. Os aromas, bem mesclados com a madeira, mostra fruta de muita pureza, aromas terrosos, de tabaco, ervas e notas de chocolate. Boa persistência aromática com taninos bem moldados. Ótima opção para fugir da mesmice dos Malbecs. Neste preço, R$ 75,00 a garrafa, talvez seja o melhor Bonarda argentino.

RJ Distinto: O ícone da bodega

Aqui estamos falando de um vinho de guarda. Apesar de quase dez anos (safra 2005), mostra-se ainda muito jovem. É imprescindível uma boa decantação. As vinhas antigas perfazem apenas um hectare. O blend favorece a guarda mesclando Malbec (40%), Cabernet Sauvignon (30%) e Merlot (30%). Vinificação pouco intervencionista com longa maceração das cascas. O vinho amadurece em barricas francesas novas por dezoito meses.

A cor não denota a idade, vislumbrando muita vida pela frente. Os aromas elegantes remetem a frutas maduras, madeira elegante e jamais invasiva, notas balsâmicas, de ervas e especiarias. Boca sedosa com um belo equilíbrio (agradavelmente quente). Vinho expansivo, taninos finos e um prazeroso final. Realmente, um vinho “distinto”. Para aqueles que estão acostumados aos tops argentinos (R$ 320,00 a garrafa), é uma instigante experiência.

Os vinhos são importados pela importadora Grand Cru (www.grandcru.com.br) e apresentam diversas linhas e muitas opções entre varietais e blends.

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Degustações às Cegas: Surpresas e Certezas

31 de Julho de 2014

A famosa frase “Degustar às cegas é um ato de humildade” é sempre recorrente e verdadeira. Num painel de dezenove amostras, participei como jurado entre espumantes, brancos, um rosé e vários tintos. Não havia nenhuma referência de uvas, regiões ou estilos. Os vinhos eram bem variados sem qualquer relação de parâmetros entre os mesmos. Enfim, a tarefa resumia-se em julgar tecnicamente o vinho em si, envolvendo uma pequena dose de gosto pessoal.

Neste painel, tínhamos seis brasileiros, cinco portugueses, dois espanhóis, um argentino e cinco chilenos. Nenhum dos vinhos fazia parte de vinhos especiais, ícones, exceto alguns dos nacionais. Dos cinco chilenos, quatro são bons vinhos e um decepcionante. O único argentino saiu-se razoavelmente bem. Dos cinco portugueses, dois brancos não foram bem. Em compensação, os três tintos são bons sendo um deles, o melhor do painel. Dos dois espanhóis, o único rosé estava abaixo da média e o tinto teve bom desempenho.

Deixei os seis brasileiros por último, por serem consistentes no sentido negativo. Os dois tintos são ruins, sem nenhum atrativo. Desagradáveis de serem bebidos. Dos três espumantes, um é ruim, um rosé abaixo da expectativa pela importância do produtor, e um razoavelmente bem elaborado pelo método tradicional. O melhor dentre os nacionais, é um Chardonnay de Pinto Bandeira. Equilibrado, destacando-se pelo frescor.

Espumante sempre consistente da Serra Gaúcha

Dos vinhos ruins, além dos brasileiros acima citados, tivemos um branco português e um tinto chileno relativamente barato, de marca bastante conhecida. Do exposto acima, ratifico minha convicção. Faço questão de reiterar que trata-se de uma opinião absolutamente pessoal. O Brasil não é efetivamente celeiro de bons vinhos. Apesar de dimensões continentais, estamos praticamente fora dos paralelos ideais. O clima é muito mais propício ao cultivo do café (um dos melhores do mundo) e cana de açúcar (matéria-prima de nossa autêntica cachaça), só para citar dois exemplos. Além disso, a despeito de nossa competência enológica e tecnologia moderna, o ponto crucial de nossa viticultura é ainda trabalhar com rendimentos no vinhedo muito acima dos números pelo menos razoáveis para uma boa concentração de sabor e aroma nas uvas. E como se diz: o bom vinho começa na parreira.

Ficha Técnica

Colheita: As uvas foram colhidas manualmente em caixas de 20 quilos. A colheita do Merlot ocorreu na última semana de fevereiro e a do Cabernet Sauvignon, na segunda semana de março. A produção destes vinhedos foi em média 10.000 kg/ha, sendo 100% cultivados em sistema de espaldeira simples.

A ficha técnica acima é de um grande ícone nacional comercializado em mais de cem reais a garrafa. Trata-se de um bom vinho, bem consistente safra a safra. Reparem que o rendimento mencionado em torno de dez toneladas por hectare reflete bem o problema exposto acima. É muito difícil na serra gaúcha convencer agricultores em trocar quantidade por qualidade. Contudo, é um trabalho árduo e de paciência que deve ser continuado com muita perseverança.

Merlot: Destaques entre os tintos

A cepa acima parece ser a mais indicada para tintos da Serra Gaúcha. Uva de maturação precoce, costuma se dar bem em solos mais argilosos e portanto, mais úmidos. Além disso, o clima cada vez mais seco nos últimos anos na região, contribui para o bom amadurecimento de uvas tintas de uma maneira geral. Inclusive, tenho notado em vários exemplares de espumantes nacionais carência de um certo frescor que outrora foi mais evidente.

Para fechar a equação, os preços de vinhos nacionais são desanimadores. Um bom vinho nacional é muito difícil ser comprado por menos de cinquenta reais. A oferta de nossos vizinhos do Mercosul, Argentina e Chile, colocam em nosso mercado inúmeras alternativas com preços equivalentes. Contudo, não sou contra ao vinho nacional. Devemos ter representatividade no cenário mundial, melhorando cada vez mais nossas deficiências em todos os sentidos, mas sem ufanismos. Podemos elaborar um bom vinho. Afinal, com todos os avanços da ciência, metodologia e tecnologia, praticamente é obrigação os principais países do mundo elaborarem produtos pelo menos decentes. Precisamos ter humildade mais uma vez e reconhecer que obras de arte nesta nobre bebida ainda é tarefa dos tradicionais países vinhateiros europeus. Quem sabe, teremos vez na próxima era geológica!

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