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James Bond e a licença para beber

15 de Junho de 2024

O último filme do agente secreto com licença para matar, o vigésimo quinto da série, com Daniel Craig em sua última aparição como James Bond, teve um final tão impactante que até hoje não consegui rever, mas foi brindado pelo espião, nascido na guerra fria e agora às voltas com terroristas sem pátria, com uma garrafa de Château Angelus, bebida quando ele chega de surpresa à casa de M, que estava preparando o jantar. O mesmo bordeaux tinha sido o escolhido da estreia de Craig no papel, em “Casino Royale”, brindada primeiro com Bollinger, depois com o chateau de Hubert de Boüard. No trem em que o leva a Montenegro, onde irá disputar partidas de pôquer, Bond pede uma garrafa de Château Ângelus 1982 para acompanhar o cordeiro que ele e Vesper comem.

Na hora de gravar “Casino Royale”, os produtores da série ligaram para o proprietário do renomado château, classificado como um premier cru classe B de Saint-Émillion, Hubert de Bouard sugeriu a safra 1990, outra das maiores da história. Agradeceram, mas fizeram um pedido: James Bond tem um apreço especial pela safra 1982, que começa a ganhar maturidade agora. Pedido aceito. Bouard veria as garrafas de Ângelus 1982 subirem de preço depois da aparição, segundo reportagem da inglesa Decanter no fim de 2006, quando “Casino Royale” chegou à telona.

Mas a maior paixão de Bond, além do dry Martini, são os champagnes. Aí sobra diversidade: em “Dr. No” e em “Goldfinger”, Dom Pérignon (LVHM do Brasil) é a eleita, sendo que Bond revela sua preferência pela safra 1953. No início de Goldfinger, quando está na cama com sua primeira loira do filme, ele fica indignado com a temperatura da garrafa. Ameaça levantar da cama, mas ela quer que ele continue. “Há coisas que não se podem fazer na vida, uma delas é beber Dom Pérignon na temperatura errada”, diz Bond, indo para a geladeira, onde em segundos é atingido na cabeça pelo seu mais carismático vilão. Meu Bond e filme preferidos fazem com que a Dom Pérignon 1953 (em condições pristinas) seja o vinho que eu escolheria na última refeição. Estou também na companhia de Marilyn Monroe.

Em “Moscou contra 007”, Bond, no luxuoso vagão restaurante do trem que corta os Bálcãs, pede para acompanhar seu linguado grelhado um Blanc de blancs (uma champagne feita apenas com uvas brancas). Na mesa, vem a Comtes de Taittinger, da Taittinger. Já o acompanhante na mesa pede um chianti. Ao que o garçom atônito retruca: “chianti branco?”. “Não, tinto”. Seria a senha para descobrir que o loiro alto que se fazia passar por amigo no fundo era um espião inimigo.

Outra preferência no mundo dos espumantes é a Bollinger, que até confecciona rótulo e assemblage especiais para um vinho dedicado aos fãs da série e das borbulhas mais preciosas do mundo. Depois de ter sido mantido em solitária, espancado, ficado sem comida no início de “Die another Day”, Bond redobra o fôlego, foge da prisão, cruza o mar e chega a um luxuoso hotel de Hong Kong, onde faz uma série de pedidos ao gerente. No fim, frisa: “e, não se esqueça, uma garrafa de Bollinger 1961, se você tiver uma ainda.”

A conta? Por 25 filmes, foi para a rainha. Agora irá para o rei.

Champagne: Como escolher?

14 de Novembro de 2013

Vai se aproximando o final do ano e as dúvidas sobre champagnes e espumantes voltam à tona. Vamos falar especificamente de Champagne, mas muita coisa vale para os demais espumantes.

As borbulhas mágicas

A observação no rótulo é fundamental para escolhermos o champagne correto para a ocasião e/ou nosso gosto pessoal. Primeiramente, vamos escolher o grau de açúcar residual que desejamos num determinado champagne, conforme tabela abaixo:

  • Brut Nature, Pas Dosé ou Dosage Zéro (de 0 a 3 g/l de açúcar residual)

É um tipo para muitas pessoas difícil de assimilar. É extremamente seco, e muitas vezes com certa adstringência, sobretudo quanda a acidez é elevada, e geralmente é mesmo. Vai muito bem com peixes e frutos do mar in natura, onde o caráter iodado é bastante evidente. Belo acompanhamento para o caviar.

  • Extra-Brut (de 0 a 6 g/l de açúcar residual)

Não chega a ser tão seco como o anterior, mas ainda conserva uma austeridade marcante. É uma boa experiência para certificar-se se é de seu gosto pessoal tentar um Brut Nature. Tem um público fiel para este tipo de champagne.

  • Brut (máximo de 12 g/l de açúcar residual)

Este é o tipo amplamente consumido mundo a fora. Apesar de seco, costuma agradar a maioria das pessoas. Como a faixa de açúcar residual é mais extensa, podemos perceber as diferenças com mais clareza, dependendo da Maison escolhida.

  • Extra-Dry (de 12 a 17 g/l de açúcar residual)

Para aqueles que precisam sentir uma pontinha de açúcar  no sabor, este é o champagne ideal. Vai bem com comidas levemente agridoces ou com uma textura delicadamente macia.

  • Sec ou Dry (de 17 a 32 g/l de açúcar residual)

Aqui o açúcar é bem mais perceptível, sem chegar a ser totalmente doce. É muito indicado para comidas agridoces e algumas sobremesas que não abusem do açúcar. Comida chinesa costuma harmonizar bem com este tipo de champagne.

  • Demi-sec (de 32 a 50 g/l de açúcar residual)

Este atualmente é considerado o champagne doce, já que o termo Doux (acima de 50 g/l de açúcar residual) está em desuso. Contudo, nem por isso devemos harmonizá-lo com qualquer sobremesa. É bom prestar atenção no açúcar do prato, pois deve ser moderadamente doce. Uma torta de frutas frescas (morango, framboesa, kiwi ou pêssegos) é o ideal. O próprio bolo de casamento é o parceiro mais indicado com este tipo de champagne.

Brut, blanc de Noirs e safra: expressos no rótulo

Segundo passo, o estilo de champagne que mais nos agrada, principalmente levando em conta as porcentagens das três grandes uvas da região (Pinot Noir, Pinot Meunier e Chardonnay) na cuvée. Quando não há menção no rótulo de alguns dos termos abaixo, supõem-se que a cuvée tem duas ou mais uvas proporcionadas de acordo com o estilo da Maison.

  • Blanc de Blancs (100% Chardonnay)

O mais delicado dos champagnes, pois a Chardonnay dá elegância e graciosidade ao conjunto. Ideal para abrir um jantar, pratos leves á base de peixes, frutos do mar, e canapés dos mais variados. Alguns especiais, normalmente com indicação de safra, podem envelhecer maravilhosamente.

  • Blanc de Noirs (somente uvas tintas, geralmente 100% Pinot Noir)

Ao contrário do anterior, costuma ter corpo e estrutura, características intrínsecas à Pinot Noir. Apesar de tintas, as uvas são vinificadas sem a casta, mantendo a cor palha, porém sempre com tendência ao dourado, enquanto no caso acima (Blanc de Blancs) temos um palha com reflexos verdeais. 

champagne expedition 2012Dê um zoom e veja a supremacia do tipo non millésimé

Terceiro passo, non millésimé ou millésimé, ou seja, champagne com safra ou sem safra. Os champagnes de safra costumam ser mais caros, de melhor qualidade e de boa longevidade (capacidade de guarda). Os motivos principais são: anos especiais, onde o amadurecimento das uvas é ideal, os vinhedos são mais categorizados (geralmente os Grands Crus) e portanto vinhos-base muito bem  selecionados e de produção reduzida. Os non millésimés, sem safra, são a maciça maioria dos champagnes, geralmente na versão Brut.

No quadro acima, vemos um panorama mundial, europeu e do restante do mundo. Não há diferenças significativas entre os quadros. O que realmente é patente, é a supremacia do tipo brut non millésimé, é o carro-chefe das grandes maisons de champagne. Vejam que mesmo os rosés, têm produção bem reduzida, diminuindo ainda mais na produção das cuvées de luxo e os millésimés. O tipo demi-sec também está quase sumindo. A concorrência com o Asti Spumante é cruel, sobretudo em termos de preço.

Uma das melhores cuvées de luxo no gênero

Por fim, as cuvées de luxo, spéciale, de prestige, que podem ser millésimés ou não. Geralmente o são, embora uma das grandes exceções é o champagne Krug Grande Cuvée, espetacular e altamente confiável. Essas menções não constam nos rótulos, pois dispensam apresentações. Alguns nomes de grande prestígio, e sonho do consumo para os produtos de luxo: Dom Pérignon, Cristal, La Grande Dame,  Celebris, Salon, Bollinger RD (James Bond), entre outras. Aqui é para quem não se preocupa com preços, champagnes sutis, complexos, raros e que podem envelhecer por anos a fio. Aliás, o alto preço é uma das maiores dicas dessas maravilhas.

Tributo à Maison Bollinger

7 de Novembro de 2013

No final de ano fica quase impossível não falar de champagne, o vinho mágico, das festas, das celebrações e por que não, da alta gastronomia. Existem maisons maravilhosas neste mundo de contemplação e luxo, mas se eu tivesse que escolher entre os cinco grandes champagnes, não hesitaria em colocar em um dos dedos da mão a Maison Bollinger. Champagne sobretudo da refinada gastronomia, com profundidade e muita personalidade, conforme este belo vídeo abaixo:

http://youtu.be/NX3_RvaPaRc

Quando bebemos um Bollinger não devemos esperar apenas um bom champagne, mas algo de extremo refinamento, próximo à perfeição. Para isso, existem alguns detalhes imprescindíveis ao longo de sua elaboração, como veremos a seguir. Primeiramente, a Maison possui vinhedos próprios, perto de 164 hectares de vinhas, fato absolutamente atípico na região. Outra premissa importante é que praticamente seus vinhedos são todos Grands Crus e Premiers Crus (80 a 90%) a cada colheita. Somado a estes fatores, há um bom arsenal de vinhas antigas, as quais transmitem com precisão a essência de seu terroir.

Quanto ao estilo, Bollinger é um champagne encorpado, gastronômico, com mais de dois terços da cuvée com as tintas Pinot Meunier e Pinot Noir sobretudo, uva que fornece estrutura ao champagne. Mesmo em sua cuvée básica, non millésimé, o que é quase um sacrilégio chamá-la de básica, mais de oitenta por cento, são vinhedos grand cru e premier cru. Quando entramos em suas cuvées de luxo, Grande Année, Bollinger RD e Vieilles Vignes Françaises, estamos falando somente das uvas Pinot Noir (predominante) e Chardonnay com vinhedos Grands Crus e Premiers Crus, exclusivamente.

James não deixava por menos

A foto acima exemplifica uma vinificação exclusiva e severa nos seus mínimos detalhes, a famosa Bollinger RD, preferida de Bond. A propósito, RD significa Récemment Degorgé (recentemente degolado), ou seja, champagne com grande contato sur lies (sobre as leveduras mortas). Na média, por volta de dez anos. Este tempo só é possível para champagnes de grande estrutura, fornecendo aromas e textura únicos. Para termos esta destacada estrutura, precisamos partir de vinhos-base especiais, outro detalhe importante desta Maison. A vinificação e amadurecimento de seus vinhos é feito em barricas de carvalho, promovendo uma micro-oxigenação  adequada para um envelhecimento futuro de extrema longevidade. São três mil barricas de carvalho usadas (não novas, pois a ideia não é passar aromas da madeira ao vinho) que garantem este procedimento.

Outro procedimento exclusivo desta Maison é a cada ano escolher os melhores vinhos da colheita para serem guardados em seiscentas mil garrafas Magnum, separando cada vinhedo, cada parcela, em lotes específicos. Este procedimento garante com grande eficiência o contato quase nulo com o oxigênio, preservando estas reservas para serem utilizadas quando solicitadas.

Quanto ao açúcar residual dado pelo licor de expedição, as doses são as mínimas possíveis, sem camuflagens de possíveis defeitos de qualidade do produto final, permitindo sentir o alto padrão de seus vinhos-base. Essas doses não passam de sete a nove gramas por litro de açúcar residual.

A novidade mais recente é reprodução da garrafa de 750 ml no formato Magnum, ou seja, o gargalo mais afunilado e a base mais larga. Além do aspecto estético, este novo formato é o ideal para concentrar o mínimo de ar dentro da garrafa, entre o líquido e a rolha definitiva, preservando ainda mais a oxigenação nociva ao vinho, conforme foto abaixo:

Nova garrafa: Petit Magnum

Por fim, a homenagem abaixo a Lily Bollinger, figura marcante do século passado, que exprimiu como ninguém o verdadeiro savoir-vivre em apreciar um bom champagne: “Bebo champagne quando estou feliz, ás vezes bebo também triste. Eu o bebo quando estou sozinha, mas considero obrigatório quando estou acompanhada. Aprecio quando estou sem fome, mas com a comida não o dispenso. De outra maneira não o toco, a menos que esteja com sede”.

  Je le bois lorsque je suis joyeuse et lorsque je suis triste. Parfois, je le prends quand je suis seule. Je le considère obligatoire lorsque j’ai de la compagnie. Je joue avec quand je n’ai pas d’appétit, et j’en bois lorsque j’ai faim. Sinon, je n’y touche jamais, à moins que je n’aie soif .

Quase todas as considerações acima citadas valem também para seu grande rival, o excepcional champagne Krug, também de origem alemã. Qual o melhor? Acho que até no par ou ímpar é capaz de dar empate técnico.