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Tesouros da Côte de Nuits

11 de Janeiro de 2013

Domaine de La Romanée-Conti, Clos de Tart, Méo-Camuzet e Armand Rousseau, por exemplo, são nomes conhecidos, reverenciados e dignos de todos os elogios, beirando a perfeição. Ocorre que a magia deste santo pedaço de terra esconde tesouros não tão óbvios como os acima citados. O primeiro comentado neste blog foi uma série sobre Henri Jayer numa degustação comparativa com o todo poderoso Romanée-Conti. Desta feita, por sugestão do amigo João Camargo, falaremos de algumas preciosidades do Domaine Prieuré Roch (www.domaine-prieure-roch.com). Abaixo, a marca registrada de seus rótulos.

Vinhas, Energia e Frutos

Henry-Frédéric Roch, neto do lendário Henry Leroy que fez história no Domaine de la Romanée-Conti, possui onze hectares muito bem posicionados em várias comunas da Côte de Nuits, impecavelmente cultivados de maneira orgânica, em completa harmonia com a natureza. A perfeita maturação da uvas, a vinificação com cachos inteiros, a utilização de leveduras naturais, a longa maceração para extração de cor e taninos e o amadurecimento em barricas novas de carvalho por dezoito meses, sobretudo nos vinhedos Grands Crus, são procedimentos coerentes com os grandes vinhos da Côte de Nuits.

Aubert de Villaine (esquerda) e Henry-Frédéric Roch (direita)

Os homens acima assinam o rótulo abaixo

Dentre seus vinhedos, temos dois Grands Crus: em Chambertin, Clos de Bèze; em Vougeot, Clos de Vougeot. Outras preciosidades vêm de vinhedos exclusivos, aqui chamados “Monopole”. O primeiro da comuna de Nuits-Saint-Georges, denominado Clos des Corvées, é uma propriedade de 5,2 hectares de vinhas antigas com qualidade excepcional. O segundo, a razão de ser de nosso artigo, é o monopole “Le Clos Goillotte”, localizado a apenas cinquenta metros abaixo do mítico vinhedo La Tâche, outro monopólio do famoso Domaine de La Romanée-Conti. Demarcado desde os tempos do príncipe Conti, estas vinhas antigas escondidas no intrincado mosaico bourguignon, produz apenas duas mil garrafas por safra numa área de míseros 0,55 hectare. Suas exclusividade e sutileza são tão marcantes, que a localização do terreno não é precisa em qualquer mapa dos vinhedos de Vosne-Romanée. Muitas vezes, passa despercebido.

Segundo a Ficofi, entidade promotora de grandes eventos envolvendo os principais Grands Crus da França, Le Clos Goillotte é a grande sensação da atualidade. O rendimento desta vinhas de mais de quarenta anos não foge muito dos quinze hectolitros por hectare. Seu caráter é de estilo feminino com perfumes florais bem particulares, lembrando mais um Henri Jayer do que o introspectivo Romanée-Conti. O termo “baroque”, barroco em português, é o adjetivo mais preciso para definí-lo, ou seja, explendor exuberante. Seu consumo desde os tempos do príncipe Conti sempre foi privado para um público local. Após a aquisição pelo Domaine Prieuré Roch, sua comercialização tornou-o mais democrático, embora obviamente seletivo.

No Brasil, quem estiver disposto a experimentar algumas destas maravilhas, os vinhos do domaine são importados pela World Wine com preços evidentemente em quatro dígitos (www.worldwine.com.br).

A busca pela caixa perfeita

30 de Julho de 2012

Todos nós ao longo dos anos, temos oportunidade de provar vinhos únicos, vinhos que se diferenciam dos demais por apresentarem equilíbrio notável, aromas e sabores raros, persistência aromática acima da média, e principalmente por serem provados na hora certa, no lugar certo e com as pessoas certas. São momentos mágicos e frequentemente nos pegam de surpresa. Geralmente, quando criamos espectativas superlativas, esses momentos não acontecem, ao contrário, é quando estamos desprevenidos que os grandes vinhos revelam-se.

Passados pouco mais de vinte e cinco anos em degustações, começo a pensar na caixa perfeita, aquelas doze garrafas que marcaram para sempre a memória gustativa, nomes muitas vezes relevantes que conquistaram respeito e prestígio não por acaso, mas fruto de um terroir diferenciado que é manifestado em vinhos singulares. Evidentemente, não são garrafas vitalícias, insubstituíveis, mas que pelo menos momentaneamente devem ser lembradas e descritas.

Caixa do Século: Wine Spectator

Este tema já foi explicitado recentemente com a famosa caixa do século XX da Wine Spectator. São vinhos e escolhas respeitáveis, mas muitos deles, não tive oportunidade de degustar, sobretudo as safras específicas. Dentro deste contexto, cada qual pode montar sua caixa, levando em conta experiência e gosto pessoais. Sendo assim, aqui vai a minha até o presente momento. Numa escala de pontuação pessoal, são todos vinhos entre 96 e 100 pontos, intervalo próximo à perfeição. Vide artigo neste blog: Critérios de Pontuação.

  1. Angelo Gaja dos seus três magníficos vinhedos (Costa Russi, Sori Tildin e Sori San Lorenzo). Qualquer um dos três em inúmeras safras são vinhos irrepreensíveis. Lembro-me da frase um grande degustador francófico: “Esses vinhos são tão bons, que nem parecem italianos”.
  2. Etienne Guigal Côte Rôtie de um de seus três vinhedos mágicos (La Landonne, La Moline e La Turque). São vinhos que conquistaram inúmeras vezes os cem pontos de Parker. Apesar de mais de quarenta meses em carvalho, o equilíbrio e finesse são notáveis.
  3. Chateau Mouton-Rothschild 1982. Já provei vários 82 de peso, mas este é para beber de joelhos. Como ainda não provei o 1945, fico com esta safra que alia potência e finesse no mais alto nível.
  4. Chateau Margaux 1983. Safra particularmente especial para a comuna, suplantando inclusive a própria safra de 82. Soberbo, misterioso e com muita vida pela frente.
  5. Porto Taylor´s Vintage 1994. Em todas as oportunidades, um completo infantícidio. Contudo, não estarei vivo para ver seu esplendor. Quem sabe, amparado por uma bengala.
  6. Domaine Trimbach Riesling Clos Sainte-Hune. A perfeição em Riesling no estilo seco, absolutamente mineral. Tenha paciência em guardá-lo e estará diante de uma obra-prima.
  7. Champagne Salon ou Krug Clos de Mesnil. Aqui existe um empate técnico. No fotochart, Salon por uma cabeça. Para quem gosta do estilo Blanc de Blancs, não há nada perto dessas maravillhas.
  8. Vega-Sicilia Unico safra 1970. Degustado com consistência em duas oportunidades e épocas bem distintas. Continua uma maravilha, fazendo deste mito o maior tinto da Espanha.
  9. Williams Selyem Russian River Pinot Noir. Enfim, um representante do Novo Mundo. Não é o melhor Pinot Noir do mundo, mas engana qualquer aficionado pela Borgonha no mais alto nível.
  10. Henri Jayer Cros Parantoux 1988. Degustado recentemente, conseguiu aliar delicadeza e personalidade sem que o tempo suplantesse seu frescor. Uma maravilha!
  11. Hermitage Paul Jaboulet Aîné La Chapelle 1990. Com todo respeito a Jean-Louis Chave, ainda não provei um Hermitage com a grandiosidade de La Chapelle. Um vinho monumental, com uma estrutura tânica invejável e extremamente longevo.
  12. Domaine Huet Vouvray Le Clos du Bourg Première Trie. Aqui está a delicadeza levada ao extremo. Chenin Blanc de rara pureza, aparentemente frágil, mas com uma estrutura e longevidade inacreditáveis. Além de Le Clos du Bourg, seus outros dois vinhedos são impecáveis: Le Haut-Lieu e Le Mont.

Revelados os personagens, inúmeras injustiças, faltas, esquecimentos e principalmente, dúvidas. Certamente, não é a caixa perfeita, mas são vinhos jamais indiferentes, que passam desapercebidos. São vinhos que tocam, mesmos os mais insensíveis.

Cros Parantoux Henri Jayer: Parte III

18 de Junho de 2012

Deixei para este último artigo, as temidas comparações taça a taça entre Cros Parantoux e Romanée-Conti. Aqui, mais que as diferenças de solo, altitude e pequenos fatores climáticos, está em jogo a filosofia de vinificação  que cada um destes monumentais vinhos incorporam. Antes de explorarmos este ponto, vejam o vídeo abaixo do mestre Henri Jayer.

http://youtu.be/-NpyCd8dqQM

Henri Jayer tinha com lema extrair de suas uvas os aromas e sabores mais delicados. Quando ainda ninguém pensava nisso, Jayer já praticava a maceração pré-fermentativa em baixa temperatura, buscando a delicadeza dos frutos e seus aromas mais sutis. Um dos pontos fundamentais de sua filosofia era vinificar totalmente sem engaço. Os taninos segundo Jayer, deveriam ser extraídos suavemente apenas das cascas delicadas da Pinot Noir. Quaisquer taninos provenientes do engaço incomodavam e irritavam-o, quer pelos aromas vegetais, quer pela textura de certa aspereza.

Pessoalmente, acho que este é ponto crucial da comparação. Em todas as safras, existia um vinho claramente feminino, sedoso e sedutor, enquanto o respectivo par apresentava-se mais sisudo, mais misterioso e com taninos mais marcantes. É claro que Romanée-Conti é sempre soberbo, não importando a safra, com seus aromas minerais marcantes, terrosos, lembrando adegas úmidas. E sempre aparece aquele ponto de interrogação. É misterioso e parece nunca estar pronto. Para aqueles que possuem uma garrafa deste mito, favor não abrí-la antes de sua maioridade, pelo menos vinte e um anos. Em suma, os vinhos sempre acabam refletindo a personalidade de seus mentores.

De todo modo, fica a lição. Henri Jayer utilizou com incrível sabedoria o poder do homem sobre o terroir. Evidentemente, os mestres sempre dizem não fazer nada na elaboração de um grande vinho, basta deixar a natureza agir por conta própria. Entretanto, não nos esqueçamos de outra frase: “o homem faz o terroir ou o desfaz”. Oxalá, Henri Jayer tenha sucessores à altura de seu talento!

Cros Parantoux Henri Jayer: Parte II

14 de Junho de 2012

Alguém já disse: “A comparação é cruel”. Esta frase resume bem o embate entre algumas safras do lendário Cros Parantoux de Henri Jayer e o mítico Romanée-Conti do sóbrio Aubert de Villaine. Terroir é um conceito mais que apropriado para este artigo, é absolutamente obrigatório. Um de seus pilares faz menção ao homem, além do solo, clima e uvas (no caso somente Pinot Noir). E este homem, Henri Jayer, faz toda a diferença.

Provar qualquer um destes vinhos isoladamente é sempre um momento de contemplação. Qualquer um beberia algumas taças com enorme prazer. São verdadeiras obras de arte. Entretanto, ponderei muito antes de escrever este artigo, mas a realidade obriga-me a dizer algumas frases quase insensatas. Pela primeira vez, algo que jamais imaginei, senti algumas taças de Romanée-Conti incomodadas, constrangidas e até num grau de insensatez maior, humilhadas, frente à sublime delicadeza do Premier Cru Cros Parantoux, o qual Jayer nunca se importou com a classificação. A simples menção de seu nome bastava.

Como tratava-se de safras antigas (85, 86, 87, 88, 90, 91, 93 e 95), não existem grandes safras e sim, grandes garrafas. Neste contexto, a garrafa de Cros Parantoux 1988 estava incrivelmente espetacular. Todos os descritores aromáticos de um grande borgonha estavam alí, principalmente sous-bois, rosas e caça. A delicadeza, a personalidade e  força deste terroir fundiam-se maravilhosamente com taninos de rara textura. Como algo tão delicado, aparentemente frágil, pode resistir por 24 anos. E não estou falando em final de linha, pelo contrário, mostra-se num platô seguro, com bons anos pela frente. É a magia dos grandes vinhos!

De um modo geral, todos os vinhos estavam bem conservados, exceto Cros Parantoux 1985. Um pouco cansado, reforçado pelo baixo nível de líquido na garrafa. As safras de 91, 93 e 95 foram um conpleto infanticídio. Vinhos ainda fechados, com taninos muito presentes, faltando a perfeita integração entre seus componentes que só o tempo é capaz de proporcionar. As safras de 85 e 90 confirmaram sua superioridade, chegando próximas à perfeição. A menos emocionante foi a safra de 86 com vinhos elegantes, mas não tão expansivos. Já 1987 é uma safra hedonista, com vinhos maduros, bem acabados e num bom momento para serem apreciados. Um ano polêmico como 1988, surpreendeu favoravelmente, com taninos evoluindo muito bem e proporcionando a devida estrutura para uma boa longevidade. Qualidade muito próxima à granda safra de 1990.