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Harmonização: Salada de Bacalhau

31 de Janeiro de 2011

Aos poucos, bacalhau está voltando a ser um alimento relativamente barato, quase como nos anos 60 (início da Bossa Nova). Frente a outros tipos de carne, vale a pena optar pelo produto, rico em ômega 3.

Uma das inúmeras opções de salada para o bacalhau

A nossa salada tem como ingredientes além de um bom bacalhau frio em lascas, já dessalagado e cozido; radicchio rosso, rúcula, tomate cereja, batata, vagem, azeitonas, tangerina em gomos, manjericão, molho vinagrete, sal e pimenta a gosto. Apesar de não ser um blog sobre receitas, é sempre importante numa harmonização, sabermos os ingredientes participantes.

O ideal é que o vinho seja branco, embora haja alternativas para o tinto ou rosé. Como estamos no verão e se trata de uma salada que pode ser inclusive uma entrada, vamos nos fixar num branco.

As batatas e o bacalhau são elementos que vão dar corpo e textura ao prato. Portanto, precisamos de um branco com certa personalidade. As verduras com toques amargos e o tomate pedirão vinhos com poder de fruta. O molho vinagrete, as azeitonas e a tangerina, fornecerão componentes de acidez ao prato.

Neste cenário, um bom Sauvignon Blanc moderno e jovem da Nova Zelândia ou do Chile, tem corpo adequado, fruta e acidez suficientes, além dos toques herbáceos combinarem bem com as verduras, principalmente o manjericão.

Um opção mais original seria um belo Alvarinho (Portugal) ou Albariño (Espanha). A versão sem madeira de Anselmo Mendes da importadora Decanter é um escolha segura para um dos melhores Alvarinhos da atualidade (www.decanter.com.br). Do lado espanhol, o Albariño Martín Códax da importadora Peninsula elabora brancos bastante frescos e de muito caráter. Outra bela opção da mesma importadora é o Cava Juvé y Camps Reserva Vintage Brut. Espumante de grande personalidade para enfrentar os sabores do bacalhau. Procure pelo simpático Juan (www.peninsula1.com).

Enfim, as variações de uma salada de bacalhau são inúmeras. Contudo, sempre precisaremos de vinhos marcantes, pois o sabor do bacalhau exige este pré-requisito.

 

Terroir Chileno

12 de Setembro de 2010

Já foi o tempo em que o Chile resumia-se em vinhos do Vale Central, entre tintos e brancos. Principalmente nas últimas duas décadas, o terroir chileno está sendo devidamente estudado, com exploração de vários outros vales, como mostra o mapa abaixo. Casablanca, por exemplo, promoveu grande impacto nos vinhos brancos com as castas Chardonnay e Sauvignon Blanc, descoberto na década de oitenta por Pablo Morandé. Atualmente, Limarí, Elqui, Bio Bio e Malleco, são a bola da vez, com vinhos curiosos e surpreendentes.

corrente de Humboldt → ventos marítimos gelados

Observando o mapa acima, podemos perceber algumas variáveis importantes para definir o terroir chileno. O Chile é um país comprido, tendo grandes variações de latitude. Portanto, quanto mais ao norte, mais quente, culminando no deserto de Atacama. Quanto mais ao sul, mais frio, chegando à Patagônia chilena.

Outra variável importante é o relevo chileno. Olhando para o mapa, do lado direito temos o paredão da Cordilheira dos Andes. Do lado esquerdo, em determinadas faixas de latitude, principalmente no vale central, temos a chamada cordilheira da Costa, que barra o ar gelado vindo do pacífico, gerado pela corrente marítima de Humboldt, a qual é a terceira grande variável. Portanto, é uma questão de calibrarmos a latitude com o nível de influência da corrente de Humboldt. Mesmo em vales bem ao norte como Limarí, a ausência da cordilheira da costa, permite notável amplitude térmica (diferença de temperatura entre o dia e a noite), gerando belos vinhos brancos, como o Chardonnay De Martino Single Vineyard Quebrada Seca, importado pela Decanter (www.decanter.com.br).

Para quem gosta de Cabernet Sauvignon chileno, o Alto Maipo, com vinhedos próximos à capital chilena Santiago, é um dos melhores terroirs do mundo para esta uva. No mesmo nível de Bolgheri (Toscana), Napa Valley (Califórnia) e Coonawarra (Austrália). Evidentemente, o Médoc na região bordalesa, é a inspiração de todos eles.

No Alto Maipo, temos dias ensolarados sem a influência do pacífico, protegido pela cordilheira costeira. As noites são frias pelo ar gelado que desce da cordilheira dos Andes. O solo é pedregoso e de excelente drenagem. Todos esses fatores fazem a Cabernet Sauvignon amadurecer lentamente, com riqueza de aromas e taninos bem desenvolvidos. Vinhos como Don Melchor, Almaviva, Casa Real e Chadwick, confirmam esta teoria, com altas pontuações em inúmeras safras.

Uvas como Carmenère e Merlot parecem ter encontrado seus respectivos terroirs nos Vales Cachapoal e Conchagua. Apesar de muito próximos e de fato vizinhos, esses vales apresentam características distintas na maturação das uvas acima citadas, que por sinal, foram confundidas durante muito tempo, até a devida separação das vinhas de cepa Merlot, das de cepa Carmenère.

O Vale Cachapoal fica praticamente atrás do Vale Conchagua, que de certa forma o protege da influência marítima. Esta particularidade torna Cachapoal suficientemente quente para amadurecer de forma adequada a tardia Carmenère, a qual deve ser colhida muitas vezes, no mês de maio. Já o Vale Conchagua, recebendo maior influência oceânica, torna-se uma vale mais frio, devidamente ajustado à maturação precoce da uva Merlot. É evidente que outras questões como solo, relevo e microclima, têm seu peso no balanço final.

O assunto é vasto e mereceria vários posts para um detalhamento maior. O fato é que hoje no Chile, as vinícolas comprometidas com a qualidade e a expressão correta de cada varietal, investem em pesquisas detalhadas para buscarem terroirs cada vez mais adequados, elaborando vinhos de personalidade e distinção. Os inúmeros vales de norte a sul levarão ainda um bom tempo para serem devidamente estudados.