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Borgonha: Parte II

5 de Março de 2012

Neste post vamos começar a falar do filé mignon da Borgonha, a sub-região chamada Côte d´Or, com vinhos sublimes, polêmicos, caros, apaixonantes, decepcionantes, misteriosos, e tantos outros adjetivos surpreendentes. Vamos ter alguns capítulos só neste pedacinho de terra, pois engloba nomes reverenciados em todo o mundo: Chambertin, Vosne-Romanée, Chambolle-Musigny, Montrachet, Corton-Charlemagne, só para ficar em alguns.

Podemos dizer que neste terreno encontra-se o berço espiritual da Pinot Noir (Côte de Nuits) e da Chardonnay (Côte de Beaune). Dito isto, estão devidamente apresentadas outras duas sub-regiões da Côte d´Or: Côte de Nuis ao norte, e Côte de Beaune ao sul, conforme mapa abaixo:

Todos os Grands Crus estão nesta área

Grand Cru é a classificação máxima nas apelações da Borgonha e todos eles estão concentrados neste trecho de terreno, sendo a única exceção a região de Chablis, comentada em post anterior. Outra observação pelo mapa é que todos os tintos Grand Cru estão na Côte de Nuits e todos os brancos Grand Cru estão na Côte de Beaune. O único tinto Grand Cru da Côte de Beaune é o famoso Corton.

As condições de terroir são perfeitas nesta região quanto ao clima, insolação, altitude e principalmente a composição do solo, fator determinante para o plantio de Chardonnay ou Pinot Noir.

O produtor, a localização do vinhedo, e a filosofia de trabalho em áreas específicas são os principais fatores para separarmos o joio do trigo. Borgonha sobretudo neste trecho, é terra de especialistas, e cada comuna tem seus segredos.

Normalmente, o nome das principais comunas desta área está ligado ao seu vinho mais famoso. Por exemplo; Gevrey-Chambertin, Chambolle-Musigny, Chassagne-Montrachet, Vosne-Romanée e assim por diante. Sempre o segundo nome agregado ao Village é o grande vinho da comuna.

A pirâmide de classificação das apelações da Borgonha e suas respectivas porcentagens em termos de produção encontra-se num post já publicado: A Borgonha em números.

Próximo post, Côte de Nuits e seus grandes tintos.

Enogastronomia: Parte V

20 de Fevereiro de 2012

Dando prosseguimento às técnicas culinárias, vamos agora discorrer sobre os alimentos refogados, ensopados, guisados, muitas vezes de cozimento lento e cheio de sabores.

Refogar e/ou Ensopar

A diferença entre refogar e ensopar está basicamente na quantidade do caldo de cozimento e também no tamanho das partes envolvidas. Refogar envolve menos caldo e a idéia é dourar ou selar o alimento. Já o ensopado, envolver pedaços menores com maior quantidade de líquido, cobrindo praticamente todo o alimento em um cozimento relativamente lento. Muitas vezes, os dois procedimentos são feitos de forma sequencial, ou seja, um prévio refogamento, seguido de um lento cozimento.

Neste processo, tudo vai depender da natureza do alimento (geralmente um tipo de carne) e da natureza do caldo envolvido no cozimento (água, vinho, leite, …). Uma coisa é um Coq au Vin, elaborado com frango caipira (na origem um frango de Bresse) e cozido lentamente em vinho tinto (na origem um bom Côte de Nuits). Outra, é a Bouillabaisse, um guisado de peixes da Provença, cozido em água e/ou vinho branco com ervas e especiarias. O primeiro pede um borgonha tinto de personalidade como um Chambertin, por exemplo. Já o segundo, um autêntico rosé de Provença fará o par perfeito.

Coq au Vin: Sabores realçados pelo vinho

Nesta técnica é importante observarmos que o potencial de sabor do alimento, agregado à natureza do caldo de cozimento, resultará num produto final de sabor proporcinal aos dois fatores mencionados. Se o caldo agregar um componente de gordura importante, é fundamental que o vinho tenha acidez para tal fator. Se for o caso de um tinto, além da acidez, é benvinda uma certa tanicidade. Neste contexto, a deliciosa Rabada pede vinhos como um Brunello di Montalcino, o qual alia acidez e tanicidade, além de vigor para acompanhar o prato.

Um prato clássico da cozinha francesa é Blanquette de Veau, um cozido de vitela em molho de creme de leite e ovos. Neste caso, a delicadeza da vitela, a cremosidade do molho e seu sabor dominante, indica um branco macio e de sabores relativamente marcantes. Um borgonha de Mâcon, com fruta mais pronunciada, Côte Chalonnaise ou um comunal de Meursault, fazem boa parceria. Um branco de Graves (Bordeaux) estruturado, baseado mais na Sémillon, é outra boa alternativa.

Em resumo, os ensopados mais vigorosos pedem vinhos encorpados e de sabores marcantes. A acidez e tanicidade estarão ligadas à gordura e à suculência do molho. Refogados, sobretudo de carnes brancas e peixes, vão melhor com vinhos de corpo médio, sejam tintos ou brancos, e a intensidade vai depender da natureza do caldo e temperos.

Destaque de Nuits-Saint-Georges

11 de Outubro de 2010

Quando falamos de Borgonhas, o primeiro cuidado é não generalizar. Afinal, esta abençoada terra foi destinada a especialistas, ou seja, cada comuna conta com alguns poucos produtores que cultivam alguns poucos hectares, e são verdadeiramente, o que chamamos de nata da Borgonha. Neste contexto, problemas de safras tornam-se secundários, já que produtor e terreno são superlativos. É o caso da domaine abaixo, Henri Gouges, trazida primeira vez pela saudosa importadora VVW na vila Madalena. Agora, recentemente, nas mãos da competente importadora Zahil.

Monopólio de 3,5 hectares em Nuits-St-Georges

Trata-se de um Premier Cru de grande tipicidade e enorme longevidade. A comuna de Nuits-Saint-Georges, a mais meridional da Côte de Nuits, é marcada por tintos potentes e um tanto rústicos para os padrões de borgonhas extremamente elegantes. Por esta razão, não existem Grands Crus nesta comuna. Entretanto, de modo algum, devemos subestimá-la, principalmente, diante de produtores como Henri Gouges.

Este Premier Cru, Clos des Porrets, sintetiza a força destes vinhos, com aromas potentes, e de firme estrutura tânica. Evidentemente, não são talhados para serem tomados jovens. Necessitam de bons anos em adega, para domar seus taninos e desenvolverem aromas terciários de rara complexidade. Pode não ser tão fino como os melhores Chambertins, mas possui personalidade própria, por preços sensivelmente menores que os preferidos de Napoleão (famosa frase do imperador: o mundo fica mais bonito através de uma taça de Chambertin).

Por R$ 385,00 a garrafa (importadora Zahil – www.zahil.com.br), sugiro guardar a safra 2007 por mais cinco anos, antes de desfrutá-la. A despeito dos preços no Brasil, é um bom custo/benefício para um Premier Cru de alto escalão.

Harmonização: Galinha d´angola com creme de champignons. Decantá-lo, uma hora antes do serviço.