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Terroir: Alsace II

7 de Julho de 2011

A comparação dos brancos alsacianos é quase inevitável com seus vizinhos germânicos. Normalmente, o lado francês gera vinhos mais encorpados, mais opulentos e mais potentes em relação ao lado alemão. Como tudo é relativo, a Alsácia é uma região quente para padrões alemães. Por isso,  essas características são refletidas em seus vinhos. Entretanto, as versões Trocken dos atuais vinhos alemães aproximam-se muito do padrão alsaciano, a  ponto de confundirmos estes  exemplares numa degustação às cegas.

Tratando-se de vinhos varietais expressos nos rótulos, vamos detalhar a seguir, as principais uvas:

Riesling

Longe de menosprezar o alto padrão do Riesling alemão, a Alsácia talvez seja a única região fora da Alemanha a elaborar vinhos com esta caprichosa cepa, capazes de confrontar a excelência alemã. Seus aromas são típicos, mostrando com elegância sua trilogia aromática com aspectos florais, minerais e cítricos. A perfeição da mineralidade fica por conta da domaine Trimbach (os espetaculares Cuvée Frederic Emile e Clos Sainte Hune), com vinhos capazes de envelhecer por décadas. Já o lado mais opulento e exuberante está a cargo do produtor Zind-Humbrecht, com vinhos aromaticamente elegantes, macios e expansivos.

Na gastronomia, a Riesling acompanha muito bem pratos defumados, receitas com carne de porco e o clássico alsaciano Choucroute Garnie.

Domaine Trimbach – importadora Zahil – www.zahil.com.br

Zind-Humbrecht – Expand – www.expand.com.br

Pinot Gris e Gewurztraminer, respectivamente

É importante salientar que as uvas acima são rosadas, gerando vinhos de cores mais acentuadas,  tendendo ao dourado, principalmente com o envelhecimento em garrafa. Trata-se sempre de uma vinificação em branco, sem a presença das cascas.

Pinot Gris

Na Itália, Pinot Grigio. Na Áustria ou Alemanha, Ruländer ou Grauer Burgunder. Seja como for, nos vários países onde é cultivada, com vários outros sinônimos, em nenhum outro lugar além da Alsácia, esta uva gera vinhos de tamanha complexidade e sofisticação. Em terroir alsaciano, seus vinhos lembram o lado floral mais discreto da Gewruztraminer com nuances de talco. Gustativamente, apresentam a textura e maciez de um chardonnay de bom corpo. Nas versões adocicadas, costuma ser o parceiro ideal para o autêntico foie gras alsaciano.

Gewurztraminer

Apesar de seus aromas florais intensos, além de lichias e especiarias, não há paralelos mesmo do lado alemão, para o estonteante “Gewurz” da Alsácia. Sua acidez costuma ser deficiente, mas quando não há este inconveniente, são vinhos exóticos e apaixonantes. Parceiro número um para o poderoso queijo local Munster. Culinária indiana com pratos mais aromáticos que picantes é outra pedida certa.

Muscat

As variedades Muscat à petits grains e Muscat Ottonel geram os convidativos moscatéis da Alsace. São vinhos leves, delicados e aromáticos, muito apropriados para aperitivos e pratos vegetarianos, inclusive com aspargos.

Em resumo, se você quer um ótimo moscatel seco, se você quer o melhor riesling além da Alemanha, se você quer os melhores Pinot Gris e Gewurztramminer do mundo, escolha a Alsácia. Terra dividida tantas vezes ao longo da história entre França e Alemanha, soube com maestria tirar proveito deste conflito, praticando de forma singular, um dos mais belos exemplos em vitivinicultura.

Terroir: Alsace I

4 de Julho de 2011

O terroir francês tem suas particularidades, sobretudo quando estamos falando de grandes latitudes norte, onde o frio e umidade são fatores extremamente limitadores ao cultivo da vinha. É o caso da Alsace e Champagne. Notem que ambas têm latitudes muito próximas. Contudo, apresentam fatores de terroir bastante distintos.

A santa proteção dos Vosges

Sabemos que ventos provenientes de todo o litoral francês na sua porção oeste, adentram no sentido leste em seu território, trazendo umidade, frio e muitas vezes chuvas. A situação fica mais dramática à medida que caminhamos para regiões mais setentrionais. Champagne é uma região propícia a estas influências por possuir uma topografia relativamente suave.

No caso da Alsácia, situada no extremo leste francês, fazendo divisa com a Alemanha, a situação muda radicalmente, pois existe um anteparo natural, bloqueando esta influências que vêm do lado Oeste. Este obstáculo é a famosa cadeia de montanhas dos Vosges. Não são extremamente altas (os maiores picos alcançam 1300 metros), mas o suficiente para interromper estas influências, conforme figura acima.

Além de bloquear umidade e chuva, os Vosges propiciam do lado leste uma série de encostas contíguas a exemplo da Côte d´Or (o supra-sumo do terroir borgonhês), situada mais ao sul. Essas encostas fornecem ângulos de insolação extremamente favoráveis, além de uma eficiente drenagem do terreno. Geologicamente, a diversidade de solos é imensa e o número de dias ensolarados é dos mais expressivos para padrões franceses, concentrados na época de maturação das uvas. Nestas condições, temos um clima mais favorável em relação à Champagne, gerando uvas com ótimos níveis de maturação.  Entretanto, essas uvas na sua grande maioria são brancas, pois a região ainda é muito fria para o cultivo adequado de uvas tintas.

De fato, os brancos da Alsácia são fascinantes e na sua imensa maioria, varietais (elaborados com uma única uva), expressando em seus rótulos os nomes das uvas, fato muito pouco usual na legislação francesa. As quatro principais uvas são Riesling, Pinot Gris, Muscat e Gewurztraminer, as quais serão detalhadas no próximo post.