Archive for the ‘Diversos’ Category

Sommelier no Brasil: difícil missão

19 de Setembro de 2010

Exercer a sommellerie no Brasil não é tarefa fácil por uma série de motivos. Talvez o âmago da questão esteja na falta de tradição do vinho à mesa. Afinal, somos o país da cerveja.

O Brasil nas últimas décadas progrediu muito neste assunto e continua progredindo em ritmo acelerado. A globalização, intercâmbio de culturas e o aumento do poder aquisitivo de determinadas camadas da população, principalmente nas grandes capitais, contribuem decisivamente para este progresso.

Temos um mercado de vinhos aquecido, bem abastecido por vários perfis de importadoras, a ponto de termos à disposição grandes vinhos dos mais variados estilos, marcas e países.

Do lado nacional, o vinho brasileiro evoluiu e continua evoluindo muito, na medida do possível, embora pessoalmente, ainda muito caro, principalmente em padrões mais sofisticados.

Manoel Beato: referência em sommellerie

As pessoas que frequentam restaurantes, boa parte delas não sabem avaliar o trabalho de um sommelier, a despeito de terem acesso a bons vinhos. Existem os chamados bebedores de rótulos e aqueles que querem mostrar conhecimentos, muitas vezes humilhando o profissional e se preocupando com detalhes tecnicamente pouco significativos. O que vale na prática, é muito mais a simpatia e a facilidade em vender vinhos, do que propriamente o conhecimento técnico do profissional.

Do lado da restauração vemos situação semelhante. Os donos costumam achar que conhecem em detalhes o assunto e passam a dar ordens equivocadas sobre serviço de vinho. O sommelier muitas vezes, é designado pelo dono, gerente ou maître, sem qualquer critério técnico, e muito menos, uma formação profissional adequada. Aliás, esta profissão ainda não é regulamentada no país, e pelo andar da carruagem, não vislumbramos a curto prazo mudanças. Guardada as devidas proporções, é mais ou menos como uma pessoa que não é médico, exercer a medicina. Como no caso da sommellerie, a vida não está em jogo, no máximo, uma grande garrafa de vinho, não há esforço para mudanças.

Do exposto acima, o círculo vicioso está montado. Clientes satisfeitos e ao mesmo tempo despreparados para exigir um serviço mais profissional, donos de restaurantes satisfeitos com a sommellerie sob suas ordens, e sommeliers desmotivados e muitas vezes sem tempo, para buscarem aperfeiçoamento, além de suas chefias frequentemente não colaborarem nem financeiramente, nem em disponibilidade de tempo para tal finalidade.

Evidentemente, nem tudo está perdido. Existem clientes conscientes e conhecedores do assunto, restaurateurs que se preocupam em verdadeiramente melhorar o conhecimento de seus funcionários, e sommeliers que procuram constantemente aprofundar seus conhecimentos, executando um trabalho cada vez mais preciso no salão.

Finalizando, os poucos sommeliers que se destacam em nosso país, conseguem esta façanha quase exclusivamente por esforço próprio, e nesta incessante busca pelo conhecimento, tornam-se cada vez melhores. Salvo raras exceções, os melhores não estão no salão, seu verdadeiro palco, por razões de jornadas maçantes e sálarios insatisfatórios. Neste contexto, não podemos deixar de citar o grande Guilherme Corrêa, consultor da bem administrada importadora Decanter, além de melhor sommelier do Brasil, representando-nos em concursos internacionais.

Meu primeiro grande Bordeaux

21 de Junho de 2010

O primeiro grande Bordeaux a gente nunca esquece! A safra é mítica, uma das melhores de todos os tempos, mas o château em si, nem tanto. Mesmo neste ano, sua nota é pouco expressiva. Contudo, a emoção da primeira vez, o momento certo em abrí-lo, a falta de experiência, o fato de ser surpreendido, além de outros fatores imponderáveis e inerentes aos mistérios do vinho, eternizam este grande momento.

Talvez o fato de na época (lá se vão quase vinte anos) ter lido algo sobre Alexis Lichine, falecido em 1989, e até então, proprietário deste château, tenha contribuído para meu encantamento.

Ele foi uma das maiores personalidades de Bordeaux, difundindo como ninguém os vinhos franceses nos Estados Unidos. Muito bem relacionado, foi durante longa data fornecedor exclusivo dos vinhos presidenciais na Casa Branca. De origem russa, sua família refugiou-se em França no começo do século passado, devido à revolução em seu país de origem. Posteriormente, estudou na América e começou trabalhar na comercialização e importação de vinhos. Anos depois, volta à França com grande prestígio e adquire algumas propriedades entre as quais, Château Prieuré-Lichine e Château Lascombes, ambas em Margaux.

Grande conhecedor de vinhos, publicou duas obras importantes: Wines of France e Enciclopédia de Vinhos e Álcoois. Apesar de bem relacionado e com enorme carisma nos negócios, Lichine teve sua vida pessoal totalmente reservada. Casado por três vezes, adoeceu no ínicio de 1989, isolando-se no Médoc. Russo, francês e americano, este foi Alexis Lichine, cidadão do vinho.

Informações extraídas de um dos muitos livros do grande médico, historiador e enófilo Sérgio de Paula Santos, também falecido recentemente. Que do outro lado, a imortal Pensão Humaíta o acolha!

 

Ristorante La Cucina Piemontese

9 de Junho de 2010

Enogastronomia nos arredores de Alphaville

Não costumo aceitar desafios puramente comerciais  onde o lucro e a ganância disfarçam a imagem de uma grande cozinha e serviços competentes. Este pequeno empreendimento dos sócios proprietários Luciano Ricci e Rógerio Saad reflete o empenho em proporcionar um local aconchegante, bonito sem ser ostensivo, e que pratique uma cozinha de terroir acompanhada por uma concisa e honesta carta de vinhos.

O tema é Piemonte, com pratos típicos como Vitello Tonnato, Brasato, Risotto alla Piemontese, Baccalá alla Torinese, além de sorvetes artesanais como o de Pistacchio di Bronte.

O local é sossegado, longe da agitação central de Alphaville. Muito verde ao redor, numa sucessão de colinas que permeia a zona rural de Santana do Parnaíba. Além evidentemente dos alphavillianos, os paulistanos podem aventurar-se neste porto seguro, fugindo da habitual rotina gastronômica.

A casa é adepta da linha slow food mantendo diariamente um Menu della Tradizione (uma entrada, dois pratos e sobremesa), além do menu aberto com variadas opções. Os vinhos selecionados por este que vos escreve estarão sempre climatizados, muito próximos da temperatura de serviço. Cuidarei pessoalmente da sommellerie, aguardando uma visita a qualquer momento.

Acesso pela rodovia Castelo Branco na saída 23A em Alphaville, seguindo as indicações dos residenciais Alpha 11 e 12, próximo ao Alphaville Burle Max. Nada que um bom GPS, uma bússola aferida e um sinalizador do exército não resolvam.

Ristorante La Cucina Piemontese

Quarta a sábado, somente jantar. Almoço aos domingos.

www.lacucinapiemontese.com.br (vide informações e mapa anexo)

Dicas de vinhos

1 de Abril de 2010

Tenho recebido algumas opiniões que neste blog não há muitas dicas de vinhos. Tanto é verdade, que mudei a seção de Vinho da semana para Vinho em destaque. Realmente, não sou a pessoa mais indicada para oferecer inúmeras dicas, as quais inundam vários sites e blogs. Depois de uma certa vivência na área, começamos a perceber que a maioria das dicas tem um caráter muito mais comercial do que qualquer outro propósito. Afinal, é preciso vender, lei da sobrevivência. Contudo, podem estar certos de uma coisa: quando eu mencionar algum vinho, sinceramente na minha irrestrita opinião, é que este vinho vale a pena, quer seja pela sua qualidade diferenciada, quer seja pelo preço muito abaixo de seus predicados. Porém, não vou deixá-los sem respostas.

Penso que a melhor dica  é algo que vá de encontro com as afinidades  de cada um. Neste sentido, o mundo do vinho tem opções para todos os gostos e todos os bolsos.

Algumas importadores no Brasil oferecem vinhos específicos de determinados países, fruto de um longo trabalho e absolutamente fiéis a seus propósitos. Seguem abaixo alguns exemplos:

  • Importadora KMM (www.australiacom.net). Especializada há anos nos melhores vinhos australianos. Procurem pela proprietária Marli e você terá belas dicas.
  • Importadora Península (www.peninsula1.com). Especializada em grandes vinhos espanhóis. Procurem pelo proprietário Juan. Extremamente simpático e um entusiasta da Espanha.
  • Adega Alentejana (www.alentejana.com.br). Especializada em vinhos portugueses, notadamente do Alentejo. Seu proprietário, Manuel Chical possui todas as informações técnicas que você necessitar.
  • Importadora Premium (www.premiumwines.com.br). Especializada em vinhos neozelandeses. Rodrigo, um dos proprietários, tem capacidade de sobra para orientá-lo. Está cursando e buscando o dificílimo título Master of Wine.
  • Importadora Cellar (www.cellar-af.com.br). Se você procura grandes vinhos franceses e italianos a preços justos, fale com o proprietário Amaury de Faria, um dos maiores conhecedores de vinhos do Brasil.

Das grandes importadoras como Mistral, Vinci, Grand Cru, World Wine, Decanter e Zahil, confesso que é preciso certo conhecimento para garimpar suas garrafas preferidas. A despeito de trazerem grandes produtores, seus catálogos são relativamente extensos para a maioria dos consumidores, principalmente aqueles que estão iniciando no mundo do vinho.

Às demais importadoras não mencionadas neste post peço desculpas, mesmo porque, sempre haverá esquecimento de uma ou outra. Entretanto, não faltarão oportunidades de mencioná-las em momentos adequados, inclusive de  forma individualizada.

Está muito em voga a frase: o melhor vinho é aquele que você gosta. Como diria Dr. Sérgio de Paula Santos: gosto não se discute, mas educa-se. Portanto, ainda prefiro a legenda discretamente mencionada em Vinho sem Segredo da autoria do  grande enólogo Emile Peynaud.

Voltando às dicas, no decorrer da elaboração deste post, apareceu um belo vinho em minhas degustações que segue em detalhes logo abaixo.