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Vinhos que curam …

5 de Setembro de 2018

Pelo segundo ano consecutivo, o Hospital Albert Einstein através do AMIGOH, grupo de pessoas ligado ao Hospital sensibilizado pelo combate ao câncer e doenças hematológicas, promoveu um interessante e sofisticado Leilão de Vinhos com a colaboração e presença de Paul Hart e Allan Frishman, principais executivos da Hart Davis Hart, uma das mais prestigiadas Casas de Leilões no cenário internacional.

Não podemos deixar de mencionar o apoio da Américas Amigas, Organização não governamental promotora dos Direitos Humanos. Menção especial também ao casal Ana e João Camargo por todo o envolvimento na capitação e logística de alguns dos mais importantes vinhos presentes nos lotes ofertados.

Além da causa nobre, o evento proporcionou aos participantes a oportunidade da aquisição de vinhos altamente pontuados por lances  de valores competitivos no mercado internacional. Mesmo dentro deste princípio ético, os participantes foram muito generosos na dinâmica do leilão, contribuindo de forma decisiva para os objetivos do evento.

Feitas as devidas considerações, vamos falar de vinhos oferecidos para acompanhar o jantar, além de alguns lotes interessantes que foram arrematados. Nas duas fotos abaixo, alguns caldos que regaram o jantar.

grandes safras em Bordeaux

Embora os dois vinhos da foto acima estejam em tenra idade, vale a experiência para sentir a potência e qualidade das safras 2010 e 2015, super valorizadas no mercado. O Chateau Brane-Cantenac  2010 segue a elegância de Margaux já com alguma evolução, mesmo que timidamente. Com belo potencial de guarda, seus taninos são finos além de um equilíbrio notável. Já o Chateau Pontet-Canet 2015 foi o infanticídio da noite. Um tinto de potência extraordinária no melhor estilo Pauillac. Muita fruta escura lembrando cassis e uma estrutura tânica capaz de vencer longos anos em adega. Apesar de  não estar no pelotão de frente dos grandes Pauillac, é sem dúvida um dos destaques desta bela safra.

destaques em 2014

A safra 2014 não tem o glamour de 2015, mas é bastante equilibrada e de preços menos impactantes. O Chateau Figeac á esquerda, um dos mais destacados na comuna de St Emilion, vizinho do nobre Cheval Blanc, mostra-se já muito agradável, sobretudo após uma boa decantação. Com 94 pontos Parker, tem longevidade prevista pelo menos até 2035, confirmando a boa qualidade da safra.

Quanto ao Montrose 2014, as previsões são ainda mais pretensiosas. Algo como 2050 a 2060 com nota 96 Parker. Um vinho difícil para o momento, tal sua acidez, tanicidade, e austeridade, lembrando um grande Barolo. Dentro do esperado, os grandes da comuna de Saint-Estèphe costumam envelhecer com brilhantismo, revelando sua nobreza com o devido tempo.

img_5065tropa de elite

Falando em Bordeaux, o lote acima foi um dos destaques dos numerosos lotes bordaleses. Um time de respeito unindo várias comunas do Médoc com Chateaux sempre valorizados e muito bem pontuados em suas respectivas comunas. Um lance bem atraente para acirrar a disputa.

safras bem didáticas

O foto acima mostra mais uma dupla bordalesa servida no jantar. Aqui sim, vinhos teoricamente envelhecidos e num bom momento de evolução. Começando pelo Cos d´Estournel 1985, um vinho pronto, plenamente evoluído, com todos os aromas terciários de um grande Bordeaux, couro, tabaco, especiarias, chocolate, entre outros. Já o Léoville Las Cases 1986, apenas um ano mais jovem, completamente diferente. Enquanto a safra 85 mostra vinhos acessíveis, bem resolvidos e sedutores, o ano de 1986 marca vinhos de grande estrutura tânica e lenta evolução em adega. É o caso deste Leoville, uma referência da comuna de Saint-Julien. Um vinho quase perfeito com 98 pontos Parker. Denso, ainda um pouco fechado, mas muito equilibrado e com longa persistência aromática. Até por ser vizinho na divisa de comuna com Pauillac, lembra um mini Latour. Previsão de auge em 2050.

img_5067um raro exemplar

O lote acima mostra uma das garrafas mais raras do Leilão, uma Double Magnum Harlan Estate 2013. Seguramente, Harlan Estate e Screaming Eagle disputam entre os Cult Wines mais caros de Napa Valley. De fato, Harlan Estate molda vinhos de alto padrão, aliando a potência californiana com toda a elegância bordalesa. Um tinto de corte bordalês muito bem delineado safra após safra com muito poder de longevidade. Essa safra 2013 é um dos anos perfeitos com 100 pontos Parker.

Bourgogne em alto nível

Mais alguns mimos servidos no jantar da foto acima. Começando pelo grande branco da Borgonha, Le Montrachet personifica a perfeição em Chardonnay. Nesta garrafa em questão, além da bela safra 2015, estamos diante de uma produção diminuta do Domaine Blain-Gagnard, um dos mais exclusivos deste famoso vinhedo dividido em muitas parcelas. O vinho tem um riqueza extraordinária de frutas, especiarias, flores, tudo bem emoldurado por toques elegantes  de barricas francesas. Delicioso no momento, embora possa ser guardado por anos em adega.

Seu par tinto é da comuna de Chambertin, Côte de Nuits. Domaine Ponsot é um dos produtores  mais sérios e artesanais, atuando sobretudo na comuna de Morey-St-Denis. Neste exemplar de 2014, Chapelle-Chambertin, um dos Grands Crus da comuna homônima, o vinho ainda se mostra em tenra idade. Com toques de cerejas e violetas, os aromas ainda são tímidos. Contudo, sua acidez e estrutura tânica permitem uma longa trajetória de evolução. Mostra-se muito equilibrado e fino. Tinto de alta costura.

img_5069Saint-Emilion Classe “A”

Mais um lote muito interessante (foto acima), retratando a elite de Saint-Emilion, a chamada margem direita de Bordeaux. Com vinhos altamente pontuadas em safras diversas e de grande destaque, três exemplares distintos, porém complexos e de boa guarda em adega. Chateau Valandraud é um dos pioneiros e mais exclusivos “vins de garage”.

Enfim, foram pouco mais de 50 lotes de primeira linha com preços e estilos de vinho variados, contemplando paladares e preferências dos mais diversos. O mais importante foi o sucesso do Leilão como evento raro em nosso país. Os recursos arrecadados certamente terão destinos bem definidos no combate permanente e progressivo contra o câncer.

Mais uma vez, agradecimentos a todos os envolvidos pela causa e a todos os presentes no evento, contribuindo cada qual a ser modo para um bem comum, a cura contra o câncer. Aguardamos ansiosos pelos próximos leilões!

Bordaleses que Animam a Alma

25 de Agosto de 2018

Num agradável almoço no recém-inaugurado restaurante de carnes Ânima Mea (alma minha em latim), mesmos proprietários do Cór em Pinheiros, sob a supervisão do assador Renzo Garibaldi, alguns bordaleses desfilaram à mesa.

harmonização de frescor

Na espera dos confrades, um grande branco da América do Sul, White Stones da bodega Catena (foto acima). Um dos topos de gama da vinícola, este branco é elaborado com Chardonnay em elevada altitude (1500 metros) na região mendocina de Tupungato num vinhedo de apenas 2,5 hectares. Um branco de grande mineralidade e frescor num equilíbrio perfeito com modestos 13° de álcool. Muito harmônico e persistente, a madeira é imperceptível num vinho de grande distinção, apesar de fermentado e amadurecido em barricas. Sua acidez chega a quase 9 gramas por litro, índice de vinho-base em Champagne. A combinação com o prato ao lado; mexerica, molho de pepino e burrata, foi de grande frescor e leveza.

img_4998200 pontos na mesa

Após as preliminares, o ponto alto do almoço, carnes e tintos bordaleses. Comentar estes dois tintos é enaltecer a safra de 82 em terroirs consagrados como Saint-Julien e Pauillac. O Pichon Lalande 82 talvez seja o melhor Pichon já elaborado, tal a concentração e elegância deste vinho. Costuma bater às cegas o Mouton de mesma safra que já é um monumento. Infelizamente, esta garrafa em questão não é das mais gloriosas. Um dos indícios, era o nível do líquido um pouco abaixo do esperado, quase no ombro da garrafa. Mesmo assim, ele foi se abrindo aos poucos com alguma acidez volátil no início da degustação. Seus toques de tabaco e chocolates eram notáveis num vinho com o corpo e presença de um grande Pauillac.

Já o Gruaud Larose estava perfeito. Depois da mítica safra de 1961 para este tinto, este 82 é seu digno sucessor. Um Bordeaux envelhecido de livro com o cassis, tabaco, ervas finas, e um fundo mineral, tudo muito elegante. Equilíbrio perfeito, taninos de seda, e longa persistência aromática. Desta vez, o Pichon Lalande teve que admitir a derrota. Contudo, confrontando garrafas ideais, este Pauillac acaba mostrando sua força e nobreza.

riqueza de sabores

O Chef Geovane Godoy caprichou neste dois pratos, ricos em sabor. Esse arroz de pato (foto acima) numa versão espanhola, é feito com arroz de Valência à moda de uma paella com os sabores do pato e emulsão de chorizo, dando um toque defumado. A textura é sensacional. Já a metade maior do T-Bone, um dry-aged de 45 dias, é a especialidade da Casa. Este corte que é o contrafilé, combinou muito bem com os tintos, pois tem sabor e suculência para os taninos bordaleses. A concentração de sabores de um dry-aged e a ausência de sangue, embora o corte seja mal passado, deixa o visual e o paladar diferenciados, numa experiência que vale a pena. Você se satisfaz com quantidades menores, tal a riqueza de sabores.

img_5001esta assinatura impõe respeito!

Se você quiser provar um Cult Wine de Napa Valley de alma bordalesa sem pagar um fortuna, Dominus é a única escolha. Não que seja barato, mas comparado com seus concorrentes, os preços são bem atraentes. Prova disso, foi a naturalidade que ele encarou a degustação no meio dos dois bordaleses acima. Sem intimidação, embora ainda muito jovem, exibiu sua classe, presença e equilíbrio notáveis. Seus 98 pontos traduzem bem a equivalência com seus concorrentes franceses. As safras 91 e 94 são notáveis, provando a longevidade deste tinto. Colocado às cegas no meio de bordaleses, pode fazer um estrago e rever conceitos.

img_4999este rótulo é muito chique!

Como ainda estávamos com sede, deu tempo para esta criança acima, Clos de Tart 2001, o maior entre os Grands Crus de Morey-St-Denis. Um tinto de história milenar e um dos mais enigmáticos  da Borgonha. Embora decantado e numa paciente espera, ele não se abriu totalmente. Tanto na cor como nos aromas, ainda muito jovem. Muito aroma primário com toques florais e de cerejas escuras, seu lado terciário ainda muito tímido. E olha que 2001 não é daquelas safras poderosas que precisam de longo envelhecimento. Mas os mitos são assim, temperamentais e surpreendentes. Quem tiver paciência, pode ser inesquecível.

Terminado o almoço, mal sabia que o dia estava apenas começando. Convocado por nosso Maestro, tive que partir para o sacrifício. Alguns Puros exclusivos e algumas garrafas especiais como a da foto abaixo, o monumental Nacional 1963. Se não bastasse este ano mítico, um Quinta do Noval Nacional já é um ponto fora da curva.

O termo “Nacional” refere-se a parreiras pré-filoxera que têm rendimentos baixíssimos e produção inconstante. Este Porto em questão com mais de 50 anos exibe uma juventude extraordinária, confirmando sua imortalidade. É muito delicado em boca, fugindo daqueles Portos muito densos. Contudo tem uma elegância, uma harmonia, e profundidade, que marcam definitivamente a memória. Um verdadeiro Borgonha no mundo dos Portos. É mais ou menos o que o Soldera representa entre os Brunellos. Experiência marcante!

img_5007sobremesa inesperada!

A tarde caindo e os Puros surgindo. Numa seleção impecável da Casa suíça Gérard Père et Fils em caixas deslumbrantes em laca, Romeu & Julieta, H. Upamnn e Partagas, se apresentaram em vários sabores e bitolas. As seleções Reserva e Gran Reserva, partem de tabacos envelhecidos com uma complexidade aromática extra.

Puros com assinatura Gérard Pére et Fils

verdadeiras obras de arte

Como a noite é uma criança, que tal um Cognac para uma prova às cegas. Richard e Louis XIII é o que tem pra hoje (foto abaixo). Marcas topo de gama das Casas Hennessy e Rémy Martin, respectivamente, são verdadeiros objetos de desejo, tal sua exclusividade e singularidade de sabores. São verdadeiras joias que partem de uma seleção rigorosa de eaux-de-vie e longas décadas de envelhecimento em toneis de carvalho.

Fizemos uma prova às cegas com tira-teima para eleger Louis XIII como melhor, mas a escolha é difícil e não conclusiva, tal o nível de complexidade destas bebidas. Na dúvida, fique com os dois. Aqui você entende exatamente o significado da expressão “Spirits”.

img_5008garrafas suntuosas!

Grappe de alto nível!

O sonho ainda não acabou. Agora entramos na especialidade do Maestro, o mundo das Grappe. Na verdade este da esquerda, é um destilado de vinho, o equivalente ao Cognac, segundo o conceituado produtor Jacopo Poli. Trata -se de um vinho Trebbiano di Soave de alta acidez que por sua vez é destilado e posteriormente afinado em madeira da Eslavônia, Limousin (França) e Allier (França). Sua qualidade é tal que bateu às cegas o Marc de Bourgogne Domaine Dujac de produção exclusiva. Deve ser servida entre 18 e 20°C em pequenas taças tipo tulipa.

Agora sim, uma Grappa in pureza do excelente produtor Nonino. É elaborado com uma uva rara do Friuli chamada Picolit, a qual faz um excelente vinho de sobremesa. Atinge 50º de álcool natural, graduação ideal para expressar as grandes Grappe. Aroma delicado lembrando Poire. Em boca é sutil e de grande profundidade. Deve ser servida segundo o produtor, a 12°C em pequenas taças tipo tulipa. 

Bem, já é quase meia-noite e carruagem vai virar abóbora. Agradecimentos aos confrades pelo belo almoço que já ficou distante, e em especial ao Maestro de grandes conversas e generosidade sem fim. Esperando novos encontros com muitos brindes. Saúde a todos!

Encontro de Premiers

18 de Agosto de 2018

Num almoço memorável onde se reuniram vários Premiers, não Chefes de Estado, mas sim os mais reputados Premiers Grands Crus Classés da classificação bordalesa de 1855. Latour, Mouton, Lafite, Margaux e Haut Brion, todos presentes em grandes safras. Aqui não cabe comparações, apenas apreciar e enaltecer a tipicidade e a força do terroir de cada um deles em suas respetivas comunas. O cenário não poderia ser melhor …

hoje é dia de maldade!

Os confrontos sempre em duplas, foram dos mais interessantes, mesclando chateaux e safras. Tudo compatível com a idade de cada um e de semelhança de estilos. Antes porém, espaço paro o champagne e alguns brancos, na prazerosa espera até a chegada de todos os confrades.

aguçando as papilas

O grande mérito deste Dom Perignon 2006 é sua prontidão e acessibilidade. Um champagne redondo, fresco, e de textura muito agradável, abriu bem os trabalhos com queijos e frios servidos. O vinho da direita (foto acima) é um dos pilares na região bordalesa de Graves, mais especificamente em Pessac-Léognan, como referência em vinhos brancos. Até 2008, seu nome permaneceu como Laville Haut-Brion, eterno rival e vizinho do grande Haut-Brion branco. Daí pra frente, o rótulo assume o nome La Mission Haut-Brion Blanc. Esta garrafa em questão com seus 20 anos de idade, estava um pouco cansada. Mesmo assim, foi possível perceber a força deste vinho, mesclando com maestria as cepas Sémillon e Sauvignon Blanc. Uma textura densa, remetendo aos melhores Borgonhas. Seus aromas já evoluídos tinham notas de frutas secas, mel, ervas, e um fundo de carambola. Uma bela experiência!

iniciando o almoço

Antes da sequência de tintos, um prato de entrada de extrema delicadeza, Ravioli de Lagostins com Creme de Foie Gras, executado pelo talentoso Chef Marcelo Magaldi. Os sabores elegantes combinaram bem com o Chassagne-Montrachet Premier Cru de Maison Leroy 2013. Um vinho de muito frescor com a densidade exata para a textura delicada do creme de foie gras. Belo Início! 

img_4977o tempo engarrafado!

Um das prerrogativas dos grandes vinhos é a capacidade dos mesmos resistirem ao tempo. Prova disto, são os exemplares da foto acima. Dois bons velhinhos da década de 60, sem nenhum sinal de decadência. É bem verdade que o Lafite 69 desenvolveu todo seu esplendor e nada justifica mais espera em adega. No entanto, é de uma delicadeza impar com notas de chá, adega úmida, especiarias, quase um incenso. De corpo médio e muito bem equilibrado. Um vinho para ser apreciado sozinho, sem comida.

Do outro lado para muitos, o melhor Haut-Brion da história na lendária safra de 1961. Um monstro engarrafado com uma força extraordinária. Essa é a diferença das grandes safras. Embora, oito anos mais velho que seu par na dupla acima, tem um potencial de guarda muito maior. Um Haut-Brion de corpo, taninos finos e abundantes, e uma persistência sem fim. Notas terrosas, animais, de ervas, e chocolate, permearam a taça todo o tempo.

img_4978aqui precisa ajoelhar

Para manter o nível do primeiro flight, só mesmo a dupla acima. Lafite e Mouton da gloriosa safra 82. O Lafite em Magnum estava sensacional, numa garrafa muito bem conservada. Embora Parker não lhe dê 100 pontos em todas as provas, nas melhores ele afirma que este vinho chega bem até 2070, nada mau. O fato é que Lafite tem um estilo totalmente diferente de seu parente Mouton. Ele esbanja elegância, o diferenciando de tudo que existe em Pauillac. Lembra sobretudo no envelhecimento, as sutilezas de um Borgonha. Já o exuberante Mouton, quando pega uma safra como 82, 86, 45, é uma explosão de sabores. Toda a força de Pauillac reunida em uma garrarfa com equilíbrio e persistência extremos. Flight sensacional!

img_4975molho com cogumelos morilles

Entremeando a sequência de tintos, alguns pratos como este acima, barriga de porco assada com polenta crocante e molho morilles. Pratos que respeitaram a sutileza e complexidade dos Premiers de Bordeaux. Obrigado Chef!

img_4979a perfeição existe!

Façam suas apostas, 200 pontos na mesa. Os dois tintos acima são 100 pontos consistentemente atribuídos por Parker em várias provas. O Haut-Brion 89 sem sombra de dúvidas, será o sucessor do Haut-Brion 61 provado acima. O vinho tem uma força e densidade em boca impressionantes. Uma longa cadeia de taninos a serem polimerizados ao longo do tempo com textura impecável. Equilíbrio e profusão de aromas difíceis de serem descritos. Um Bordeaux de livro!

Já seu parceiro de foto, é um pouco mais discreto. Com toda a elegância deste chateaux, Margaux 1990 é uma daquelas safras de um Bordeaux clássico, apto a longo envelhecimento. Um tinto que vai se mostrando aos poucos na taça. Por isso, é imperativo decanta-lo por pelo menos duas horas. Seus delicados aromas florais, cassis, e sous-bois, vão sem mostrando sem pressa num harmonia divina. Um vinho que nos faz pensar e sonhar.

img_4980o infanticídio do dia!

Embora muito jovens ainda, é sempre bom avaliar a potência e longevidade dos tintos de Latour. O flight acima foi extremamente didático no sentido de percebemos a consistência e regularidade deste chateaux diante de safras tão distintas e igualmente problemáticas. 2002 foi um ano frio com problemas de maturação nas uvas. Mesmo assim, Latour conseguiu fazer o melhor Bordeaux desta safra com rendimentos baixíssimos e 96 pontos Parker. De fato, o vinho tem muito equilíbrio, aromas bem definidos, taninos abundantes e finos. Bela capacidade de envelhecimento em adega. Já 2003, uma safra de muito calor onde a maturação excessiva e consequentemente alta graduação alcoólica foram problemas recorrentes. No entanto, Latour fez uma vinificação perfeita com um vinho de 100 pontos inconteste. Este tinto provado tem uma pujança fabulosa com muita riqueza de taninos e aromas em profusão. Nos dois casos, são tintos para amadurecerem sem pressa na virada deste século.

ainda deu tempo para um Echezeaux!

No apagar das luzes, eis que surge um DRC Echezeaux 2001 já num ponto ótimo de evolução, rompendo o protocolo bordalês. Quase na maioridade, seus aromas tinham um lado terroso, mineral, e de griottes (cerejas). Como já estávamos nos Puros, este H. Upamann Magnum 50 fez companhia ao vinho com seus aromas canforados em seu primeiro terço. 

a finalização de um grande almoço!

Dando sequências aos bordaleses, já fora da mesa, um pouco de fumaça azul. Cohibas, cafés, Portos, destilados, e uma boa conversa, brindaram a noite que já se anunciava. Cada qual a seu tempo e gosto pessoal, Porto 30 anos e Grappa Poli envelhecida fizeram companhia aos Puros degustados para deleite dos mais resistentes.

Resta-nos agradecer a presença e o alto astral de todos os confrades e em especial, à imensa generosidade e simpatia do anfitrião, não medindo esforços para que tudo corresse com perfeição e harmonia. Que Bacco nos possa conceder outras orgias! Saúde a todos!

Gorgonzola, o queijo do inverno

15 de Agosto de 2018

Atendendo solicitações, mais um artigo sobre o queijo Gorgonzola, um dos itens mais consultados em Vinho Sem Segredo. Desta feita, três receitas variadas, aproveitando este friozinho do que resta do inverno. Na falta do legitimo italiano, os tipos Gorgonzolas disponíveis no mercado podem satisfazer, sobretudo quando incorporados às receitas.

risoto aspargos e gorgonzola

Risoto de Aspargos e Gorgonzola

Principalmente para aqueles que deixaram a carne de lado, é uma receita reconfortante para o inverno com sabores bem particulares. O arroz italiano é elaborado com caldo de legumes e no meio do processo, adicionado o gorgonzola diluído no próprio caldo. São adicionados os aspargos previamente cozidos al dente e um pouquinho de páprica doce. Depois de servido, decore com as pontas de aspargos cozidas e um pouco de pistache grosseiramente  quebrado para dar crocância e sabor ao prato.

Aspargos são sempre componentes difíceis para harmonizar com vinhos. No entanto, neste caso ele faz parte do prato com certa cremosidade, além do sabor do gorgonzola. Um Torrontés argentino de Salta pode ser um vinho surpreendente com muita personalidade e frescor. Outra pedida incomum é um jovem Condrieu com a casta Viognier. Quando jovem conserva um bom frescor e agrega sabores exóticos ao prato. Por fim, é um prato decididamente para brancos. Os tintos não encontram eco nos sabores do aspargo. Uma solução mais comum é um fresco Chardonnay frutado, quase sem madeira. Um belo Pouilly-Fuissé da Borgonha, por exemplo.

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Nhoque ao molho de Gorgonzola

Acima uma bela massa com esse delicioso molho cremoso. O Gorgonzola neste caso é diluído à base de creme de leite fresco. Os temperos e ervas ficam por conta do freguês. O importante é ter o sabor delicado, mas presente do queijo, além da cremosidade adequada, nem muito aguado, nem muito espesso. A pimenta do moinho pode ser grosseiramente moída na finalização. Outro prato vegetariano, digamos assim.

É lógico que um Chardonnay bem intenso de fruta e com pouca madeira, se for o caso, cai muito bem. O Novo Mundo está cheio de opções. Como alternativas, um branco Antão Vaz do Alentejo vai no mesmo caminho. Rioja branco Reserva com a medida exata que costuma dar na madeira, proporcionam vinhos aromáticos e bem equilibrados. Se a opção for por tintos, os do sul da Italia com bastante fruta e taninos moderados caem bem. Nero d´Avola da Sicilia ou um tinto da Puglia sem ser muito concentrado.

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Filé ao molho Gorgonzola

Trata-se praticamente do mesmo molho do prato de massa. Neste caso, podemos acrescentar um pouco de mostarda e deixar a espessura do molho mais cremosa. Como se trata de carne vermelha em corte alto ao ponto, os tintos são absolutos nesta harmonização. Só devemos tomar cuidado com os taninos. Embora o sabor e intensidade do queijo esteja diluídos no molho, o choque (sal x taninos) deve ser considerado para evitar amargor. Aqui podemos pensar em vinhos de certa potência como alguns Amarones, Shiraz da Australia, e alguns Prioratos. São vinhos de grande intensidade e taninos moderados. Todos eles na medida certa para o inverno. A guarnição deste prato pode ser batatas ao forno ou um risoto de açafrão. 

Para aqueles que preferem o queijo puro, sozinho, ou acompanhando somente de pão italiano, os Sauternes da região francesa de Bordeaux, bem como os clássicos Portos, são pedidas certeiras. Como alternativa mais original ao Porto, podemos pensar no Recioto della Valpolicella, a versão doce do Amarone.

De resto, é só por a imaginação para funcionar. Gorgonzola vai bem com figos, com brócolis, alho-poró, nozes, abóbora, entre outros ingredientes. Bom apetite!