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Bordeaux 1982

16 de Agosto de 2016

Logo de cara, um painel com oito Bordeaux 82 parece ser um paraíso, além de um porto seguro. Não foi exatamente o que ocorreu, embora como experiência, sempre prazerosa. Para começar, logo dois tintos bouchonée, um Léoville-las-Cases e um Lafleur. Uma pena, pois são dois belos 82. Outra decepção foi o Mouton 82, um pouco oxidado, cansado, longe do esplendor de uma boa garrafa.

bordeaux 1982

Bordeaux 82: rótulos de respeito

Felizmente, nem tudo é problema. Chega um Cheval Blanc divino, roubando a cena do almoço. Um margem direita delicado, elegante, soberbo, com todas as notas terciarias de um grande Bordeaux. Equilíbrio, taninos ultra finos, numa sinfonia de ervas finas, tabaco, couro, e incenso. Delicioso e talvez no seu melhor momento.

cheval 82

a nobreza de um grande Cheval

Outro que fez bonito foi o altivo Haut-Brion. Sempre elegante, agradavelmente evoluído, mesclando frutas, ervas, especiarias, notas terrosas e o característico toque animal. Bem próximo do grande Cheval. É um grande parceiro para pratos com trufas.

haut brion 82

sempre espetacular

Fechando o trio do almoço, o consistente, o aristocrático, o imponente, Chateau Latour. Personifica com maestria toda a essência de um Pauillac. O cassis impressionante, as notas de couro e tabaco, e uma estrutura de taninos portentosa. E sempre com a marca Latour, quase atingindo seu apogeu. Extremamente prazeroso de ser tomado, mas com uma guarda ainda de pelo menos mais dez anos. Um monumental margem esquerda.

latour 82 (2)

o imponente Latour

Um destaque dentre os pratos do Maní é esta leitoa com abóbora num sabor bem brasileiro. Um prato saboroso pelo assado e os toques adocicados do molho, cebolas e abóbora cambotcham. Ficou muito bem com o grande Cheval, o qual tinha acidez para combater a gordura e não necessitava de taninos na harmonização, e sim delicadeza, o que tinha de sobra.

mani leitoa

Maní: leitoa com abóbora

Para encerrar o almoço, nada menos que um Climens 1990, com seus 27 anos de plena juventude. Que equilíbrio! que delicadeza!. É o grande nome de Barsac, moldando um estilo elegante e menos opulento que os demais Sauternes. O poder de fruta, os toques de botrytis e o ponto certo entre açúcar, acidez e álcool. Agradavelmente macio, intenso, e longo, num final lindo com notas de marron-glacê.

climens 90

a delicadeza em forma de Botrytis

A sobremesa abaixo do restaurante Maní é uma releitura do quindim. Proporcionou um contraste de texturas muito interessante com o Sauternes, além da sintonia de sabores. O vinho com sua delicada untuosidade caiu como uma calda para a sobremesa, valorizando a sensação de ambos, prato e vinho.

mani quindim

Maní: a releitura do quindim

Falando um pouco das decepções, Petrus 82 novamente uma surpresa. É bem verdade, que 82 não foi um grande ano para este enigmático chateau. Normalmente, o rei de Pomerol está sempre aquém de seu apogeu e muitas vezes, irritantemente fechado, não quer conversa. Neste caso não, estava sem graça. Agradável para beber, mas sem a complexidade esperada. Em algum momento, ainde pego ele de jeito.

Quanto aos dois Pichons, um supostamente falso, nenhum agradou em cheio. E olha que Pichon 82 para muitos, é o melhor 82 de todos, o que não é pouca coisa. O mais interessante é que o supostamente falso, estava melhor que o sem grandes predicados verdadeiro. De certo modo tem lógica. Ninguém vai fazer uma falsificação barata com este tipo de vinho. Não tem dúvida que o falsário é um grande degustador.

coche 2013

a grande surpresa do almoço

Terminando pelo início, o vinho acima da Niepoort, notável casa do Douro, reputada pelos seus magníficos Colheitas, mostrou que agora existe o grande branco de Portugal. Ele foi servido às cegas ao lado de um Meursault-Perrières Leroy 1998. Deu um banho de elegância e sutileza, mostrando que as castas brancas do Douro quando bem trabalhadas, são capazes de fazer maravilhas. Fermentado em barricas francesas, essas vinhas entre 60 e 100 anos, geram vinhos profundos e sutis. Esse Dirk Niepoort sabe fazer vinho! E o nome Coche é de uma irreverência ímpar. Parabéns!

Agradecendo a companhia de todos presentes e lamentando a ausência de alguns, espero ve-los em breve para novos desafios e o bom papo de sempre. Abraço a todos!

Vinhos da Arca de Noé: Parte I

5 de Março de 2016

Numa das passagens bíblicas, fala-se sobre o grande diluvio onde Noé é o protagonista da cena. Com muita paciência e critério, Noé colocou em sua grande arca diversos pares de espécies existentes na terra com o intuito da preservação da vida, após a catástrofe anunciada cumprir seu papel na terra.  Pois bem, este blog não tem nenhum cunho religioso, mas de certa forma, encontramos nosso Noé para a celebração da vida entre amigos. Explico melhor, nosso protagonista separou pares preciosos  de sua vasta e seletiva adega para nos brindar em doze flights os mais renomados châteaux e domaines. O desfile foi todo a francesa entre Bordeaux, Bourgogne e uma pitada de Rhône.

Esta sequência foi acompanhada de um longo e bem elaborado menu do chef Daniel Redondo, estrela máxima do Mani, um dos mais renomados restaurantes de São Paulo.

cristal 99

Cristal 99 dando o tom do evento

A recepção dos convivas apresentou um dos champagnes preferidos do anfitrião, o irrepreensível Cristal da Maison Louis Roederer. A safra 99 já madura, traz toda a maciez deste champagne e seu inconfundível aroma de praline.

almoço marcos arede

mesa e taças impecáveis

Nesta primeira parte do artigo, vamos falar dos brancos deste almoço com vinhos e safras espetaculares, acompanhando os primeiros pratos servidos.

haut-brion 05 e 09

Haut-Brion em duas grandes safras

Haut-Brion, talvez meu château preferido entre os bordaleses, elaborando brancos e tintos impecáveis. O par acima é prova disto. 2009, mais fresco, mais tenso, porém com grande equilíbrio. 2005, já denota certa evolução, mostrando maciez, profundidade, e final prolongado. Em suma, a perfeição do característico corte bordalês (Sémillon/Sauvignon Blanc). É bom frisar, que esta complexidade e maciez são consequências de um criterioso trabalho de bâtonnage, ou seja, o revolvimento periódico das leveduras mortas no fundo da barrica.

lagostim mani

lagostim para começar

ermitage chapoutier

Cuvée especial da Maison Chapoutier

bacalhau mani

o lado delicado do bacalhau

Aqui talvez, ocorreu a maior disparidade entre os pares. A safra 91 é superior ao ano 92. Além disso, o 92 estava prejudicado e com toques claros de oxidação. Provavelmente, problema de garrafa. De todo modo, o 91 é um vinho exótico com notas de mel, resinoso, erva doce ou anis. Macio, bem estruturado, acompanhou bem o bacalhau, um dos pratos servidos. Só para termos uma ideia da exclusividade deste exemplar, este varietal é 100% Marsanne com vinhas entre 60 e 70 anos de uma parcela particular chamada Murets. Vinificação cuidadosa com amadurecimento em tonéis usados, apenas para uma micro-oxigenação, sem aromas de madeira.

montrachet lafon

Lafon: Textura única em Montrachet

tutano mani

tutano e palmito: apresentação genial

Agora, começa a ficar sério. Estamos falando do Montrachet de Lafon, uma parcela ínfima de 0,32 hectares (três mil metros quadrados) situada na parte de Chassagne-Montrachet. O que chama atenção nos vinhos de Lafon é a maciez, a sublime textura que apresentam. O 2005 é mais prazeroso agora com seus dez anos de idade. Contudo, o 2009 é espetacular, prometendo muitos prazeres em seu longo amadurecimento.

corton coche-dury

Coche-Dury: exclusividade ao extremo

Para ombrear-se ao par de Montrachets só mesmo um par de Corton-Charlemagne Coche-Dury. Parcela muito pequena desta apelação com as mesmas dimensões do Montrachet acima. Além de vinhos complexos, Coche-Dury imprime uma tensão em seus vinhos muito bem balanceada, estimulando o paladar. Os dois espetaculares, mas o 2004 promete muito. Estrutura monumental com muitos anos pela frente.

Nesta altura, a conversa fluía leve e solta com as papilas devidamente preparadas para uma sequência inexorável. O pelotão de brancos terminara, mas havia um longo caminho ainda a percorrer. Fica para o próximo bloco. Ufa!