Archive for the ‘Austrália’ Category

Cores do vinho: As aparências enganam

31 de Março de 2016

Qual a cor correta de um vinho branco? A princípio, todas. Depende de vários fatores, entre os quais, tipo de uva, vinificação, região, amadurecimento em madeira, idade, estilo do produtor, tipo de vinho, e vai por aí afora. Para ilustrar o assunto, a foto abaixo fala por si.

semillon e laranja

Vinho à esquerda, oito anos mais velho

Evidentemente, temos um exemplo extremo, mas vale a pena elucidar o caso. O vinho à esquerda trata-se de um Sémillon australiano do Hunter Valley, estilo particular e único deste varietal 100% Sémillon. Neste terroir, a chuva chega cedo no período de maturação das uvas. Portanto, as mesmas são colhidas precocemente com acidez bastante elevada, gerando vinhos de baixa alcoolicidade. Para enfatizar esta acidez, a vinificação é feita em aço inox, evitando a fermentação malolática. Porém, o mais interessante, é que este branco fica muito mais atrativo quando envelhece e aí, estou dizendo 10, 15, 20 anos. Neste estágio, seus aromas lembram frutas secas e um tostado sugerindo madeira. Como disse, é um estilo único de Sémillon.

semillon hunter valley

ILR Reserve: Top da vinícola

O vinho acima é um dos ícones da vinícola australiana Brokenwood, o ILR Reserva Sémillon. Por incrível que pareça, com seus treze anos, estava novo, com muito pouca evolução. Prevejo pelo menos, mais dez anos em adega. Ainda tinha muito cítrico no aroma (limão), notas herbáceas, e um exótico e típico aroma de lanolina, algo parecido com shampoo, coisa rara em vinhos. Pela acidez, acompanhou bem o prato de bacalhau. Importadora KMM (www.kmmvinhos.com.br).

vinho laranja

Jakot (Friulano)

A foto acima refere-se ao vinho à direita na foto inicial. Trata-se de um vinho laranja da região do Friuli, nordeste da Itália. Como a influência eslovena é bastante grande, temos o nome Jakot (esloveno) para a uva Friulano (italiana). Esta uva é a antiga Tocai Friulano, onde o nome Tocai não pode ser mais mencionado em razão do grande vinho Tokaji húngaro, mais antigo e detentor deste nome.

Outra explicação, é sobre os vinhos laranjas, tão em moda atualmente. Na verdade, de novidade não tem nada. Esses vinhos são na realidade a origem da vinificação em brancos. Antigamente na Georgia, berço da vitivinicultura mundial, as uvas brancas eram fermentadas junto com as cascas, gerando vinhos rústicos e de certa tanicidade. Modernamente, sabemos que os brancos são vinificados sem o contato das cascas, gerando vinhos mais finos e delicados. Como a moda é cíclica em todos os sentidos, resolveram reinventar esses vinhos antigos com o nome “laranja” devido à sua cor no processo final de vinificação. Evidentemente, são vinhos exóticos para nossa geração, tendo seus méritos e suas indicações enogastronômicas.

bacalhau semana santa

bacalhoada: o prato dos dois brancos

Dadas as explicações, vamos ao exótico Dario Princic Jakot 2011. São vinhas antigas de sessenta anos com um hectare de extensão, gerando apenas duas mil garrafas. A fermentação com as cascas leva 22 dias em toneis de castanheiras. Posteriormente, o vinho estagio em velhos toneis de madeira de dimensões variadas. O resultado é um vinho multifacetado com aromas de frutas secas, damasco, gengibre, notas de chá, cítricos, e vários outros aromas. Evidentemente, tem estrutura de sobra para acompanhar pratos de bacalhau, como foi o caso, e tantos outros pratos onde a maioria dos brancos não tem força suficiente. Importadora Piovino (www.piovino.com.br).

Em suma, um contraste de cores, aromas e sabores, de dois vinhos antagônicos com origem, filosofia e métodos de vinificação totalmente diferentes, mostrando a diversidade no mundo dos vinhos.

semana santa

entrada para o champagne

jacquesson 738

Um champagne a ser batido

O champagne acima foi nosso amuse-bouche que precedeu os dois vinhos brancos comentados. Este champagne é sensacional!. Equilibrado, marcante, cremoso, persistente, e nos atuais dias, com preço bem honesto diante de seus concorrentes. Realmente, um champagne a ser batido.

A cuvée 738 é baseada na safra 2010, complementada com 33% de vinhos de reserva. Um corte com predomínio da Chardonnay (61%), acrescido com Pinot Noir (18%) e Pinot Meunier (21%). Champagne marcado pela elegância da Chardonnay e com longo poder de longevidade. Esta cuvée passa cerca de quatro anos sur-lies e o vinho-base é fermentado em madeira inerte. Existem algumas cuvées D.T. (dégorgement tardive), onde o tempo sur-lies é de nove anos. Vale cada centavo seu preço. Importado pela Franco-Suissa (www.francosuissa.com.br).

Austrália: Parte VII

21 de Fevereiro de 2013

Apesar da Austrália Ocidental ser um grande estado, a produção vinícola fica próxima de cinco porcento do total de vinhos australianos concentrada numa pequena região mais ao sul e próxima ao litoral da cidade de Perth. Não há dúvida que Margaret River é a região mais famosa, chamada também de “bordeaux australiana” com as devidas considerações. Estudos nos anos 60 revelaram semelhanças de clima e solo com os padrões bordaleses. Portanto, o cultivo de cepas como Cabernet Sauvignon, Merlot, Cabernet Franc, Petit Verdot, Sauvignon Blanc e Sémillon foi natural e bastanta convincente. Vinícolas como Vasse Félix e Cape Mentelle (pertencente ao grupo  francês LVMH) estão entre as mais destacadas. Vale destacar o cultivo da Sémillon na elaboração de varietais ou o tradicional corte bordalês com a Sauvignon Blanc. Como varietal, tem um sabor mais tropical e arredondado que o Hunter Valley. Já nas misturas, temos vinhos elegantes e equilibrados. Outras regiões, veja o mapa abaixo:

Margaret River: o modelo bordalês

Outras regiões como Swan a norte de Perth, é berço da viticultura deste estado, produzindo vinhos fortificados desde o final do século dezenove. No atual momento, em regiões mais altas e frias são cultivadas cepas como Verdelho e Chenin Blanc. Outra área encostada à Margaret River é Geographe. De solo mais arenoso, não tem o mesmo terroir de Margaret River. Há bons vinhos baseados em Chardonnay, Shiraz e Merlot. Vinhos relativamente encorpados.

Caminhando mais ao sul, saindo do oceano índico e entrando no oceano do sul, temos as áreas de Pemberton, Manjimup e Great Southern. Mamjimup, mais quente do que Pemberton, demonstra potencial para as uvas Chardonnay, Pinot Noir e Shiraz. Já Pemberton, pende mais para vinhos à base de Chardonnay e Pinot Noir, embora sem muita consistência ainda.

Na maior região da Austrália Ocidental, Great Southern é dividida em cinco regiões, cada qual com suas cepas características. Região ainda incipiente cultivando Riesling, Chardonnay, Cabernet Sauvignon, Pinot Noir, Shiraz. Os tintos são cheios e o Chardonnay generosos.

Terminando nosso ciclo sobre Austrália, vão aí alguns números expressivos deste país. Em 2011, foram pouco mais de 10,7 milhões de hectolitros produzidos com leve predominância de tintos (53%). As exportações neste mesmo ano são expressivas com sete milhões de hectolitros exportados. A Austrália é o quarto maior exportador mundial e o primeiro dentre os países do chamado Novo Mundo.

Austrália: Parte VI

18 de Fevereiro de 2013

Prosseguindo nas principais regiões vinícolas deste país continental, veremos agora a famosa região de Victoria. É a mais meridional do continente com clima relativamente frio, conforme mapa abaixo. Dentre as várias sub-regiões, Yarra Valley é a mais importante e famosa. O estado de Victoria sofreu grande atraso no início do século passado devido a infestação da filoxera. Até hoje, são tomados cuidados extremos para controlar a praga e assim, o progresso de sua viticultura está garantido. Normalmente, as regiões mais ao norte costumam ser mais quentes, enquanto as regiões ao sul devido a presença do oceano frio próximo à Tasmânia, são mais frias. Veremos a seguir, algumas destas regiões, conforme mapa abaixo.

Victoria: fontes de bons vinhos Pinot Noir

Começando pelo nordeste de Victoria em torno de dos vales King e Alpinos, esta região é fonte de vinhos em massa, de grande produção, graças à irrigação do rio Murray. Já nos vales acima citados, a altitude faz a diferença (em torno de oitocentos metros). King Valley fornece Chardonnay e Pinot Noir agradáveis e equilibrados, enquando nos Vales Alpinos temos um Shiraz mais apimentado ou condimentado.

A região dos Pirineus (Pyrenees) também apresenta este estilo de Shiraz mais apimentado, além do cultivo de Cabernet Sauvignon. As regiões de Bendigo e Heathcote fornecem vinhos vigorosos à base de Cabernet Sauvignon, Shiraz e Chardonnay. A região de Goulburn Valley prestigia as castas do Rhône com cultivo da Shiraz, Viognier, Marsanne, Roussanne e Mourvèdre. Principalmente os tintos, apresentam forte caráter mineral com traços terrosos.

Passemos agora à produtiva região do noroeste de Victoria com vinhos intensos entre brancos e tintos. Novamente, a irrigação do rio Murray está por trás deste cenário. Shiraz, Cabernet Sauvignon e a exótica Durif (a Petite Shiraz californiana) moldam vinhos densos e encorpados. Outra especialidade local são os vinhos intensamente doces elaborados com Muscat Blanc à Petits Grains e Tokay (a Muscadelle bordalesa). São vinhos fortificados que podem envelhecer bem e muitas vezes elaborados pelo método solera (típico de Jerez). Definitivamente, são um dos ícones australianos em tipicidade e autenticidade.

Caminhando agora para a porção mais ao sul de Victoria, encontramos Gippsland. Aqui encontramos boa fonte de Pinot Noir e Chardonnay de clima frio, além de Cabernet Sauvignon e Shiraz em torno de Moe com clima mais quente e seco. Geelong, a oeste de Gippsland, será sempre lembrada como porta de entrada da filoxera no estado. Em áreas mais quentes cultiva-se Shiraz, enquanto nas mais frias predominam Chardonnay e Pinot Noir.

Finalmente, chegamos às regiões de Yarra Valley e Península de Mornington. Mornington recebe toda a influência fria do litoral através do estreito de Bass, separando o continente da Tasmânia. Nesta fria região temos Pinot Noir e Chardonnay de classe internacional sendo um dos melhores de toda a Austrália. Regiões mais ao norte de Yarra Valley tendem a ser mais quente com bom cultivo de Cabernet Sauvignon e Shiraz elegante. Já nas área mais frias, Pinot Noir e Chardonnay roubam o cenário. A região também é referência em espumantes de qualidade.

Embora a Tasmânia esteja fora do continente, costuma ser englobada com o estado de Victoria. É desafiador cultivar vinhas nesta gélida região. O risco de geadas e ventos fortes é constante. Daí o cultivo de cepas brancas como Chardonnay, Riesling e Pinot Gris. A Pinot Noir é a única exceção tinta. A fama de brancos aromáticos e belos espumantes é crescente.

Após Victoria, nossa próxima parada é Austrália Ocidental com Margaret River.

Australia: Parte V

13 de Fevereiro de 2013

New South Wales ou Nova Gales do Sul é o berço da viticultura australiana. Localizada no extremo sudeste do território australiano, compete em produção com o estado de South Australia. Das diversas regiões vinícolas em Nova Gales do Sul, Hunter Valley é a mais famosa e de maior prestígio. Seu Shiraz de estilo inconfundível, seu Sémillon singular e seus belos Chardonnays mostram vinhos de personalidade atrelados a um  terroir diferenciado.

Hunter Valley a norte de Sydney

Hunter Valley não tem nenhum problema em amadurecer seus frutos. O grande inconveniente é o perigo das chuvas na colheita. Seu Shiraz bem diferente do habitual padrão australiano, apresenta-se menos encorpado, mais equilibrado e com um traço mineral terroso característico, muito provavelmente, de seu solo de basalto (origem vulcânica). O Sémillon colhido precocemente, apresenta baixa alcoolicidade e alta acidez. Quando novo, mostra-se pouco atrativo. Contudo, após alguns anos em garrafa, revela-se com aromas encantadores, lembrando algo tostado, apesar de ser vinificado longe da madeira. É um estilo praticamente único no mundo. Os Chardonnays, estes sim, geralmente amadurecidos em barricas, são aromáticos, cheios e podem envelhecer muito bem. As grandes referências dos estilos acima mencionados são McWilliam´s Sémillon Elisabeth e Tyrrel´s Chardonnay Vat 47, respectivamente. O rótulo abaixo é importado pela KMM, especialista em vinhos australianos no Brasil (www.kmmvinhos.com.br).

Semillon do Hunter: Estilo único

Um desmembramento do Hunter ocorrido na década de setenta é o chamado Alto Hunter ou Upper Hunter. Na verdade, foi um acréscimo da região, buscando terras mais ao norte, livre das chuvas, mas com necessidade de irrigação. A vinícola Rosemount, uma das pioneiras, elabora um dos mais emblemáticos Chardonnays denominado Show Reserve, além do topo de gama chamado Roxburgh. Ambos trazidos pela importadora Vinci (www.vinci.com.br).

Outras regiões de Nova Gales do Sul a oeste e a sul de Hunter Valley como Mudgee, Orange, Cowra, Hilltops, Canberra District, Shoalhaven Coast, Southern Highlands, Gundagai e Tumbarumba, ainda não ganharam vida própria. Muitas delas, quer pela altitude, quer pela proximidade do úmido litoral do mar da Tasmânia, são regiões relativamente frias com cultivo da Chardonnay, Pinot Noir e Sémillon, principalmente.

Por outro lado, regiões como Riverina, parte de Murray Darling e Swan Hill, fornecem vinhos em grande volume, fomentadas por uma irrigação eficiente do rio Murray, a exemplo de Riverland em South Australia, comentada em artigos anteriores. São vinhos relativamente simples, francos, frutados, macios, bem ao gosto do mercado internacional. Em particular, a região de Riverina irrigada pelo rio Murrumbidgee, fornece vinhos densos com as uvas Durif (a mesma Petite Syrah da Califórnia) e Sémillon. Aliás, o grande Sémillon de Riverina não é de estilo seco, e sim um intenso vinho dourado à base de Botrytis, muito comum em áreas específicas da região todos os anos. A vinícola Elderton tem um belo exemplar.