Archive for the ‘aves’ Category

Harmonização: Confit de Canard

24 de Junho de 2010

Preciosidade advinda de antiga técnica de conservação

Em tempos inimagináveis, quando não existia geladeira, a conservação de alimentos em gordura era uma das técnicas utilizadas na preservação de alimentos, para garantir comida na mesa nos rigorosos invernos europeus. Assim surgiu o saborosíssimo Confit de Canard (coxa e sobrecoxa de pato conservadas na própria gordura). Pode ser guanecido com uma simples salada ou algo mais contemporâneo como risoto, por exemplo.

De qualquer modo, é um prato de resistência. A carne cozinhada lentamente na própria gordura, tem um tom mais escurecido e sua proximidade ao osso, acentua sobremaneira o sabor. Não é à toa que na região do sudoeste francês, tintos vigorosos como Cahors e Madiran, com as uvas Malbec e Tannat respectivamente, sejam seus parceiros ideais. Além do intenso sabor, a gordura principalmente da pele dissolve-se, penetrando por toda a carne. Este tipo de gordura dissolvida casa-se perfeitamente com os taninos intensos e rústicos dos vinhos acima citados, tornando-os surpreendentemente macios. Portanto, nada de vinhos leves, a despeito de apresentarem acidez suficiente para o prato, mas sem a intensidade de sabor que o mesmo exige.

Uma das sugestões autênticas, é provar o belo Madiran de Alain Brumont, Château Montus, importado pela Decanter. Moderno, típico e bem equilibrado (www.decanter.com.br).

Se você gosta dos potentes tintos do Novo Mundo baseados em Cabernet Sauvignon, Shiraz, Tannat, Malbec, entre outros, inclusive com destacada passagem por madeira, esta é a hora deles também. Aromas intensos, bom teor alcoólico, taninos jovens e presentes serão benvindos neste momento. Normalmente, pode faltar um pouco de frescor, mas nada que comprometa de forma decisiva a harmonização. A tentativa de harmonização com Pinot Noir, principalmente os borgonhas, não é das mais felizes. O vinho é muito delicado e elegante para o prato. Embora não haja conflitos, esta não é a ave certa para tintos de tal sutileza.

Um branco de personalidade pode ser uma boa parceria para o confit frio que sobrou do dia anterior.  Ele pode ser desfiado, fazendo parte de uma salada de folhas com molho levemente agridoce. Neste caso, um bom e jovem Pinot Gris da Alsace é uma ótima opção. Sabores marcantes, acidez suficiente, juventude e bastante fruta, casam-se perfeitamente com esta vigorosa entrada. Quanto mais intenso for o sabor da carne, acompanhado de uma tendência doce mais acentuada do molho, mais intensos devem ser os brancos, inclusive os Vendange Tardive alsacianos. Além do pato, a carne de ganso enquadra-se perfeitamente neste contexto.

A citação destas aves, de forma alguma insinua um protesto à escalação do Dunga em nossa seleção, mas que eles fazem falta, fazem!

Harmonização: Magret de Canard

14 de Junho de 2010

Um clássico francês com diversas opções

O famoso peito de pato com a característica capa de gordura lembra visualmente um pouco a nossa tradicional picanha fatiada. Podemos até chamá-lo intimamente de picanha de pena.

Apesar de ser uma ave, que na maioria da vezes combina tão bem com os borgonhas, o pato é um caso à parte. Este corte em particular, deve ser apreciado mal passado. Tanto a textura mais rígida da carne, como o sabor mais pronunciado, faz-nos optar por tintos mais estruturados, como os bordeaux, por exemplo. Eles têm a força necessária, sem perder a habitual elegância. Mas isso não é o bastante. É fundamental, sabermos o tipo de molho que geralmente acompanha o magret e até eventualmente uma guarnição que fuja da típica neutralidade.

Molhos à base de frutas escuras incorporados a caldo de carne, pedirão tintos com mais fruta e juventude, equilibrando melhor o fator agridoce do molho. Dentre os bordeaux, podemos optar pelos vinhos de Pomerol relativamente novos, seguidos de perto pelos de Saint Emilion, todos da margem direita. As escolhas do Novo Mundo com varietais como Merlot, Syrah ou Malbec costumam ter fruta e força suficientes, porém sempre com o risco de sobrepujar o prato. Normalmente, esses vinhos são muito potentes.

Molhos de redução que envolvam caldo de carne, deglassagens, incorporação de foie gras e/ou cogumelos, não transmitindo portanto esse caráter agridoce, pedem vinhos mais sofisticados, complexos e de certa evolução, com aromas terciários. Nestes casos, podemos pensar em bordeaux envelhecidos de margem esquerda, com taninos presentes e bem resolvidos. Côte-Rôtie, um Syrah do Rhône mais delicado que o Hermitage, também é uma ótima pedida. Tintos de alta gama do Novo Mundo com certo envelhecimento podem ter sucesso, desde que não sejam os chamados blockbusters.

Por último, o clássico molho de laranja, muda todo o panorama. O lado cítrico, além do caráter agridoce com acidez mais acentuada, aniquila praticamente todos os tintos. Portanto, a melhor alternativa é um branco com sabores marcantes, alguma tendência doce e aromas sintonizados com a laranja. Um alsaciano de estirpe com a uva Gewürztraminer (um excelente produtor como Zind-Humbrecht) é uma harmonização surpreendente. O corpo do vinho é compátivel com o prato, seu caráter agridoce é perfeito, e seus toques florais e de  especiarias complementam sob medida os sabores do prato. Procure fazer fatias não muito espessas de magret para uma sintonia precisa de texturas entre a carne e o vinho.

Outros clássicos como Confit de Canard, ficam para um futuro post. O pato de um modo geral, é muito difundido e apreciado no sul da França, mais especificamente no sudoeste francês. Portanto, vinhos regionais nos dão uma bela dica de harmonização e abrem caminho para prospectarmos outras opções compatíveis.

Harmonização: Frango Xadrez e Vinho

21 de Abril de 2010

A qualquer hora, um dos campeões do Delivery!

Atire a primeira pedra quem já não discou para os chineses. Mesmo que não seja seu prato favorito, é uma bela solução numa hora de apuros. E até mesmo nestas horas, uma prosaica garrafa de vinho pode e deve tornar o momento agradável e muito mais interessante sensorialmente.

As variações da receita são inúmeras, mas vamos dividí-las com legumes ou com amendoim. Os ingredientes onipresentes são frango em cubos, pimentões, cebola e shoyu. Os legumes podem incluir cenouras, brócolis, acelga, entre outros. O amendoim é uma questão de gosto, pode ser acrescentado ou não.

O prato tem peso médio (normalmente peito de frango)  e é relativamente simples. Portanto, nada de vinhos sofisticados. Lembre-se que temos pimentões que costumam ofuscar sutilezas de grandes vinhos. Um ponto importante é a textura do molho, bastante aveludada quando o prato é bem executado. A crocância dos ingredientes é também uma marca registrada da culinária chinesa.

Uma das melhores opções é um bom espumante, inclusive os nacionais de leve a médio corpo. A acidez e efervescência destes vinhos animam o prato, limpando agradavelmente o paladar da delicada textura oleosa do molho. Se sua opção for pelos legumes, opte por um espumante do método Charmat, onde os sabores frutados e florais vão de encontro ao sabor do prato. Proseccos de boa procedência no estilo Extra-Dry (não tão secos como o Brut) são benvindos.

Se a opção for com amendoim, os espumantes pelo método Champenoise (método Tradicional ou Clássico são sinônimos) apresentam melhor sintonia. Os aromas advindos do contato relativamente prolongado com as  leveduras, além de uma eventual mineralidade, casam melhor com o perfil de frutas secas dado pelo amendoim. Um Cava (espumante espanhol elaborado obrigatoriamente pelo método Clássico) relativamente simples é uma ótima pedida. Não desperdiçe um Cava sofisticado, nem tão pouco um Champagne com amendoins. Não estamos falando de avelãs, amêndoas, nem nozes, e sim de uma semente tupiniquim.

Além dos espumantes, vinhos brancos relativamente leves, frescos e frutados caem bem. Evite vinhos de aromas austeros e minerais como um Chablis por exemplo. O mesmo vale para os tintos. Um Sancerre (Pinot Noir do Loire), um Dolcetto, um Tempranillo Joven ou nacionais sem passagem por madeira são alternativas interessantes.

Por fim, a culinária chinesa é extremamente rica e vai muito além do nosso frango xadrez. Em linhas gerais, os brancos alemães combinam muito bem, principalmente com molhos agridoces e receitas com carne suína. Oportunamente, falaremos sobre o assunto.