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Amigos Especiais

6 de Outubro de 2015

Os encontros enogastronômicos entre amigos deixam sempre boas lembranças, um astral renovado e a expectativa que o próximo não tarde a chegar. Vários vinhos desfilaram, mas o embate Bourgogne x Bordeaux era o mais esperado, conforme relato abaixo.

Ferrari Perle 2006

Ferrari: quase um champagne

Sempre que possível, gosto de testar um Ferrari com amigos e sentir suas reações. Quase sempre muito positivas, e concordando que perante champagnes mais comerciais e de alta produção, Ferrari está  um passo a frente. Além disso, trata-se de um Blanc de Blancs, elaborado somente com Chardonnay. Leve, delicado, elegante, perfeito para iniciar os trabalhos. Este da safra 2006 passou cinco anos sur lies antes do dégorgement.

Ott Romassan 2013

Domaines Ott: referência em rosés na Provence

Os rosés da Provence são encantadores, sobretudo os três do Domaines Ott. Este em especial, Chateau Romassan, provem de vinhedos na região de Bandol, onde a cepa Mourvèdre é protagonista. Apesar de bem estruturado, os toques delicados de frutas, flores, especiarias, garantem a elegância e equilíbrio habituais. A cor salmonada de grande delicadeza tem a ver com o processo de prensagem das uvas que neste caso chama-se pressurage (obtenção de cor com pressão delicada das uvas e um breve tempo de contato). Acompanhou muito bem o típico prato abaixo provençal recheado de legumes chamado Tian.

tian de legumes

Rosé combina com legumes, alho e ervas

dufort-vivens 2000

A safra 2000 confirma sua longevidade

Não é fácil comparar um Bordeaux a um Bourgogne. Chega a ser até uma certa heresia. Contudo, com um pouco de bom senso é possível haver uma aproximação. Por ser da comuna de Margaux e ser um Chateau delicado, achei que um Dufort-Vivens de quinze anos de safra estaria de bom tamanho. Só não contava com a potência da safra 2000, safra realmente de grande longevidade. A cor sem nenhum sinal de evolução, os aromas predominantemente primários e taninos ainda bem presentes. O lado de frutas escuras (cassis) e toques minerais sobressaíram. Boca muito bem equilibrada, taninos finos, mas ainda a resolver. Talvez mais dez anos em adega possa atingir o auge.

sylvain cathiard 2003

Cathiard: uma pérola no santuário de Vosne

Meu amigo Roberto Rockmann, especialista em vinhos borgonheses, é que pinça essas preciosidades. Sylvain Cathiard é um pequeno vigneron com pouco hectares dentro de Vosne-Romanée, entre os quais, o Premier Cru acima, Aux Malconsorts da temida safra de 2003. Um tinto com a elegância e os mistérios da comuna. Os aromas delicados e profundos dos tintos da Côte de Nuits. Toques florais, terrosos, de carne, especiarias e incenso, alternam-se na taça, intrigando-nos do começo ao fim. Taninos de rara textura e um final de boca expansivo. A grande estrela do almoço.

Sylvain Cathiard exporta praticamente tudo que produz de minúscula produção. Estados Unidos e Reino Unido lideram a fila. São parreiras de mais de quarenta anos com rendimentos ínfimos. Este vinho degustado provem de parreiras bem próximas ao majestoso La Tâche DRC (Domaine de La Romanée-Conti), vizinhança ilustre. Seus vinhos passam por pelo menos 70% de madeira nova no amadurecimento. e onde está a madeira? o gato comeu. É a força do terroir!

yquem 1999

O soberano Yquem em qualquer safra

Finalizando os serviços à mesa, um Yquem 1999 aparece. Evidentemente, para a longevidade deste mito encontra-se em tenra idade. Seus aspectos visuais são dourados e bem vivos. Aromas inebriantes e intensos. Boca extremamente macia, sedosa, bem dosada em açúcar e principalmente, com aquela acidez que dignifica os grandes vinhos doces. Não é das grandes safras, mas quem é rei nunca perde a majestade. Grande fecho de refeição.

montecristo 2008

Puros safrados e de edição limitada

Agora, partindo para os cafés, chás e boa música, Puros  e Porto Tawny Quinta da Romaneira embalam noite adentro. Nessa hora, os comentários do encontro, a boa conversa e sobretudo, projetos para os novos encontros. De preferência, bem rápidos. Abraço a todos!

Quatro vinhos e três Amigos.

10 de Março de 2015

Era para sermos em quatro, um faltou, mas brindamos por ele. Quatro vinhos belíssimos, originais, surpreendentes e de grande personalidade. O único branco, Château Musar, deve ser o melhor branco do Líbano, evidentemente do vale Bekáa (uma das grafias), a região de referência deste país, brilhou em muitos momentos. As uvas são Oibaideh e Merwah. Traduzindo Chardonnay ou Chasselas e Sémillon, respectivamente. Essas uvas são fermentadas em madeira e tanques de cimento. Posteriormente, o vinho passa nove meses em barricas e mais sete anos em garrafa, antes da comercialização. Difícil defini-lo, mas apresenta a textura e os aromas de mel da Sémillon. Os aromas são bem presentes, densos e o sabor persistente, exigindo uma decantação de pelo menos uma hora. Seus toques de evolução, terciários, acompanhou muito bem uma terrine de pato trufada, e até o monumental queijo português Serra da Estrela. Além do Porto e outros fortificados, poucos vinhos ousam enfrenta-lo. Seguem fotos abaixo.

Tira-se a tampa e serve-se em colheradas

Devida e obrigatoriamente decantado

Para acompanhar as terrines e o Bouef Bourguignon, prato principal, tivemos a companhia deste raro exemplar abaixo, um Vosne-Romanée de Sylvain Cathiard. Mesmo na Borgonha, não é fácil encontra-lo. Sua reduzida produção é praticamente toda exportada para os melhores e exclusivos mercados. Só para se ter uma ideia, este comunal não passa de três mil garrafas por safra. Como todo grande Vosne, sua elegância é notável. Taninos bem moldados e acidez marcante, vislumbrando boa guarda. Combinou muito bem com a Terrine de Campagne, uma harmonização certeira para os tintos da Côte d´Or. Já com o Boeuf Bourguignon, sua classe foi abalada. Ficou meio constrangido, questão de tipologia. Para um prato típico da Borgonha, mas ao mesmo tempo um tanto rústico, o vinho era muito aristocrático. Aqui precisamos de uma comuna com menos pompa. Agora com uma ave nobre, perdiz ou codorna num molho rôti por exemplo, a conversa é outra. O grande vinho deste produtor é o Premier Cru Aux Malconsorts, capaz de abalar os grandes nomes de Vosne-Romanée.

Uma joia escondida na Borgonha

O tinto abaixo deu o que falar. Apesar de seus vinte e seis anos, continua inteiro, a começar pela cor. Pode seguir tranquilamente por mais dez anos. O melhor Reserva Ferreirinha que já provei, passando fácil às cegas por um Barca Velha, seu irmão mais nobre. Criado em 1960 pelo mestre Fernando Nicolau de Almeida, esta safra 1989 marca a entrada na Casa do enólogo Luís Sottomayor, titular atual dos dois ícones, Ferreirinha Reserva e o mítico Barca Velha. Este tinto acompanhou magnificamente o prato principal borgonhês. Este sim, tinha a “rusticidade” elegante que a harmonização exige. Seus aromas balsâmicos e de alcaçuz ficaram realçados neste casamento. Aroma complexo e persistente. Taninos presentes e de rara textura, capazes de suportar ainda bons anos em adega. Além do prato, sua combinação com um chocolate Noir Absolu (99% cacau) foi divina. Sabemos que a combinação de vinhos secos e chocolate é das mais polêmicas e difíceis. Os grandes empecilhos são a textura cremosa e a doçura do produto. Pois bem, neste Absolu o açúcar é zero e a textura é rugosa. Com isso, somos abrigados a salivar para encontrar o equilíbrio em boca. Esta salivação é perfeita para domar os taninos. A falta de açúcar equilibra a secura do vinho, proporcionando uma amplificação dos aromas e sabores de cacau, café, e outros empireumáticos. Enfim, um fecho de refeição notável. Quem estiver ou for à Europa, esta safra justifica os sessenta euros bem pagos.

Criação do mestre Fernando Nicolau de Almeida

Para terminar, o que falar deste Porto Colheita abaixo. Um 83 engarrafado em 2010. Portanto, vinte e sete anos em madeira, bem acima do mínimo exigido para esta categoria (sete anos). A combinação com o Serra da Estrela dispensa comentários. Seus toques de frutas secas, cítricos confitados, caramelo, especiarias  e tantas outras coisas indescritíveis justificam a nobreza desta categoria de Porto. Verdadeiramente, uma referência absoluta em Porto Colheita.

Um Porto Colheita de referência

Após um bom expresso, a conversa na varanda continuou com essa maravilha abaixo, um Double Corona da casa Cohiba. Elegante, marcante e complexo, as primeira baforadas deste Puro foram acompanhadas pelo Porto acima. No último terço, onde os aromas e sabores se intensificam, nada melhor que um Malt Whisky de Islay, o turfoso e estupendo Laphroaig. O que mais pedir da vida além da família, amigos e vinhos.

Double Corona: Formato elegante da Casa Cohiba

Meus sinceros agradecimentos ao impecável anfitrião doutor Cesar Pigati, ao profundo conhecedor da Borgonha e grande amigo, Roberto Rockmann, e a lamentar a ausência de outro grande amigo, doutor Sylvio Gandra. Que venham outros encontros brevemente!


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