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Champagne: Vins de Base

13 de Dezembro de 2010

No longo processo de elaboração dos champagnes, tudo começa no chamado vinho-base. Na verdade, são muitos vinhos-bases que darão origem à cuvée da maison, conforme artigo recente sobre assemblage. Pois bem, estes vinhos-bases podem ser obtidos por fermentação em tanques de aço inox, tonéis ou barricas de madeira. Faz parte do estilo de cada maison.


Aço inox ou Madeira?

Em linhas gerais, a fermentação em aço inox é o caminho natural das maisons de grande produção. O custo menor, o controle mais automatizado e a produção em maior escala são alguns dos fortes argumentos. Além disso, o champagne básico de cada casa passa um tempo relativamente curto sur lies (sobre as leveduras), visando uma comercialização mais rápida. O tempo de permanência sur lies mínimo para os champagnes não safrados é de quinze meses, embora os bons produtores deixem de dois a três anos em média.

Este período em contato com as leveduras deve tecnicamente ser muito bem dimensionado. Na medida em que se prolonga este tempo, o champagne adquire maior complexidade e maciez. Contudo, um período de tempo excessivo pode desenvolver aromas um tanto desagradáveis, pois o meio é fortemente redutivo.

Após o término da fermentação do vinho-base em barricas, se esta for a opção, as leveduras degradam-se num processo chamado de autólise. Como consequência, temos duas importantes contribuições para o vinho: complexidade aromática, além de uma textura mais macia, e proteção oxidativa, ou seja, as células de leveduras mortas reagirão diretamente com o ácido gálico proveniente da barrica, protegendo o vinho da oxidação mais agressiva. Para a eficiência desta ação, é necessária a prática chamada bâtonnage, movimentação periódica de uma haste, parecendo um remo, que mistura as leveduras mortas decantadas no fundo da barrica, com a massa vínica. Após alguns meses, esses vinhos são transferidos para tanques inertes (aço inox), preservando todo o frescor e devidamente estruturados para a segunda fermentação em garrafa, com longo tempo sur lies, conforme os critérios de cada maison.

O famoso Bollinger RD segue este exemplo. O vinho fica em contato de oito a dez anos com as leveduras, antes do dégorgement. É fundamental que esta cuvée especial parta de vinhos-bases de grande estrutura, capazes de suportar todo este contato extremamente prolongado. Um dos trunfos é fermentar os vinhos-bases em madeira, mas não madeira nova. São barricas já usadas, cuja função principal é provocar uma micro-oxigenação no vinho, tornando-o mais resistente.

Em tese, os vinhos de reserva tornarão-se mais longevos e as cuvées elaboradas para a espumatização, mais estruturadas e aptas a um período sur lies prolongado. Neste raciocínio, as pequenas maisons, as mais artesanais, e as cuvées mais exclusivas e de baixíssima produção, buscam essas diferenciações na fermentação de seus vinhos-bases em madeira.

As contribuições da madeira usada para aqueles que buscam preservar a pureza de seus champagnes são em primeiro lugar, não passar aromas advindos das barrricas para seus vinhos-bases. Portanto, trata-se de madeira inerte. Em segundo lugar, a idade e os vários usos das barricas fecham mais seus poros, deixando ainda mais sutil a tão benvinda micro-oxigenação. E por último, o próprio fato de seu uso prolongado, torna naturalmente a barrica menos agressiva ao vinho-base em termos de oxidação. O cuidado maior, é sempre higienizá-las corretamente, nas várias partidas de vinho a que serão submetidas.

Autólise das leveduras fornece complexidade ao champagne

Além das tradicionais casas como Krug, Bollinger e Louis Roederer, outras belas maisons utilizam este procedimento em toda a linha de champagnes, ou parcialmente: De Sousa, Jacques Selosse e Duval-Leroy, das importadoras Decanter, World Wine e Grand Cru, respectivamente).

Por fim, alguns poucos produtores utilizam altas porcentagens de barrica nova em seus vinhos-bases, às vezes 100%. É sempre uma atitude ousada e arriscada, onde a tipicidade fica em jogo. Os aromas da barrica podem eventualmente, prejudicar ou mascarar a mineralidade, bem como, os aromas advindos do contato prolongado das leveduras. Produtores como Vilmart e Pierre Paillard se arriscam por este caminho.

Este post foi desenvolvido por sugestão do meu amigo Roberto Rockmann. Dê também sua sugestão  na página deste blog, Sugira um tema!

 

Champagne: A arte do Assemblage

20 de Novembro de 2010

Com o final do ano se aproximando, a procura e o interesse pelos espumantes aumentam, especialmente o champagne. O mais sofisticado entre os espumantes vem de uma região demarcada a nordeste de Paris, com clima e solo únicos, além de um preciso método de elaboração. Um dos mais importantes itens em todo este processo é sem dúvida nenhuma o assemblage (mistura dos vários vinhos-bases), para criar uma cuvée que será espumatizada.

Nariz de perfumista buscando a perfeição

O assemblage na região de Champagne talvez seja o mais complexo no mundo dos vinhos. Os vinhedos são muito fragmentados (mais de 240.000 parcelas para 19.000 proprietários, entre alguns grandes e muitos pequenos).

Cada parcela em champagne é vinificada separadamente, dando origem a vários vinhos-bases de diferentes uvas, idade de vinhas, terroirs diversos (313 villages), a cada safra. Portanto, uma determinada Maison terá a seguinte tarefa pela frente a cada ano:

  • vinhos-bases varietais com Chardonnay, Pinot Noir e Pinot Meunier de acordo com o número de parcelas da Maison (vinhedos próprios e vinhedos terceirizados).
  • vinhos de reserva que foram guardados de outros anos, obedecendo o mesmo critério acima  a cada safra. Em Champagne é necessário guardar vinhos nas grandes safras para compensar os anos não tão bons. A média dos grandes anos é de dois ou três a cada década.

 Em média, uma Maison trabalha com 40 a 60 amostras de vinhos-bases a cada ano para montar a cuvée brut da casa, que deve obedecer o  gosto e o estilo da mesma. Começamos então a entender, a complexidade e o tamanho do problema.

Os profissionais desta nobre arte podem não saber degustar outros vinhos, mas com certeza champagne eles degustam como ninguém, procurando defeitos e pequenos detalhes que só um perfumista detectaria.

Várias simulações são propostas, sendo todas cuidadosamente anotadas, medidas proporcionalmente em provetas e devidamente, analisadas e degustadas.

Baseados no estoque de vins de réserve da cada Maison, na quantidade e qualidade da safra do ano em questão, eles precisam proporcionar os vários vinhos-bases separados por uvas, vinhedos e safras, que são normalmente muito desagradáveis. Lembrem-se que para um bom espumante é preciso de um vinho-base muito ácido e pouco alcoólico.

O pulo do gato é a sensibilidade da equipe de degustadores em encontrar a  mistura adequada deste vinhos brutos que depois de espumatizados, depois de passarem um tempo relativamente longo sur lies (a autólise das leveduras proporciona novos aromas ao champagne), ao serem abertos e degustados pelos consumidores, eles possam dizer: este é um Krug, este é um Bollinger, este é um Pol Roger, e assim por diante.

Portanto, na hora de comprar seu champagne, pense nisso. Apesar do preço, e no Brasil é realmente abusivo, existem terroir, sofisticação e arte nesta garrafa, como em nenhum outro tipo de vinho. Champagne é indiscutivelmente, o rei dos espumantes!