Posts Tagged ‘roussanne’

Vale do Rhône: Parte VIII

28 de Maio de 2012

Dentre as apelações famosas do Rhône, não poderíamos deixar de lado Tavel, o emblemático rosé da França, além do espumante de Saint-Péray. Conforme mapa abaixo, Tavel localiza-se na margem oposta do Rhône, na altura de Châteauneuf-du-Pape. Com perfil de solo complexo, temos formações com calcário, argila, areia e as famosas pedras arredondadas da região (galets). As uvas que compoêm o corte são lideradas pela Grenache, seguida por outras típicas como Mourvèdre, Syrah, Cinsault, e mais algumas. Trata-se de um rosé encorpado, textura macia e muito gastronômico. Não é um rosé de aperitivo. Lirac, uma apelação vizinha, elabora vinhos brancos, tintos e rosés, com uvas típicas, mas sem grandes atrativos. Inclusive seu rosé é uma pálida sombra do imponente Tavel.

Já Saint-Péray, logo abaixo do famoso Syrah de Cornas, apelação comentada em artigos anteriores, elabora vinhos brancos tranquilos, mas principalmente, espumantes típicos da região. As uvas são Marsanne e Roussanne, a dupla onipresente no Rhône do Norte compoêm o corte em proporções variadas. Os espumantes são elaborados pelo método champenoise (segunda fermentação na própria garrafa). São vinhos difíceis de serem encontrados no Brasil.

 

Apelações pouco conhecidas

Clairette de Die

Esta antiga e curiosa apelação nem está catalogada no site oficial dos vinhos do Rhône (www.rhone-wines.com), o qual serve de balizamento para todos os artigos descritos neste blog como Vale do Rhône em várias partes. Conforme mapa acima, está apelação está localizada no vale do Drôme, afluente do rio Rhône. Trata-se de um espumante curioso elaborado pelo método Dioise Ancestral. A partir das uvas Muscat blanc à petits grains (mínimo de 75%) e Clairette Blanche (máximo 25%), obtem-se um mosto conservado à baixa temperatura. A fermentação dá-se de forma muito lenta, durando de um a dois meses. Neste momento, ainda há açúcar no mosto, e este é então colocado nas garrafas para tomada de espuma sem adição de licor de dosagem. É uma continuação da fermentação, só que agora em garrafa, aprisionando o gás carbônico. Normalmente, o espumante atinge entre 7 e 9º de álcool e contém açúcar residual. As garrafas são esvaziadas e esterilizadas e o espumante é então filtrado à baixa temperatura em tanques isobáricos (mantendo a pressão do espumante). Na última etapa, o espumante é novamente colocado nas garrafas também de forma isobárica.

Harmonização: Atum com Erva Doce

26 de Março de 2012

Revendo algumas revistas da publicação francesa “Cuisine et Vins” da década de 90, vale a pena comentarmos a harmonização sugerida para o prato Thom à la Moutarde (Atum ao molho de Mostarda). Na verdade, o interessante é a marcante presença da erva doce fresca, encontrada com certa facilidade em nossas feiras.

Foram propostos vários tipos de vinhos para críticos especializados, entre eles Jean Lenoir, autor do famoso Le Nez du Vin, com muita diversidade de opiniões, mostrando a pluralidade que envolve as harmonizações entre vinhos e pratos. Os vinhos que mais se destacaram foram o tinto da foto abaixo (Bourgueil de Pierre-Jacques Druet, tinto do Loire com base na Cabernet Franc) e o pouco conhecido Hermitage branco Chante Alouette da maison Chapoutier.

 

Atum: peixe com textura diferenciada

A receita fala em postas frescas e espessas de atum, pimentão vermelho, erva doce fresca, azeite de oliva, creme de leite fresco (crème fleurette, especialidade normanda), mostarda em grãos, cebolinha, aniz estrelado e cogumelos (pode ser o de Paris ou Shitake, este último, mais saboroso). A erva doce é cozida em água com aniz estrelado e o pimentão em azeite. Os cogumelos são preparados com o creme de leite e a mostarda em grãos. Os filés de atum são grelhados e tudo então é misturado para a finalização com a cebolinha fresca finamente picada.

O tinto à base de Cabernet Franc mostra afinidade com o pimentão, a mostarda e os cogumelos, principalmente com alguns anos de garrafa. A erva doce enriquece a harmonização, mantendo um bom frescor final. A textura do atum e do próprio molho combinam com o corpo do vinho. Um Pinot Noir pode dar certo, desde que haja uma calibragem correta da textura do vinho. O problema são os toques herbáceos que não encontrarão eco neste tipo de uva.

Já o Hermitage branco com base nas uvas Marsanne e Roussanne, é uma grata surpresa. A erva doce amplifica os aromas do vinho, num casamento surpreendente. O corpo e textura do vinho adequam-se perfeitamente ao prato, tanto pela cremosidade do molho, como pela textura do atum. Com alguns anos de garrafa, até os cogumelos casam-se com o vinho.

Enfim, um prato exótico e uma experiência enogastronômica interessante com vinhos pouco comuns, tanto o tinto, como o branco. Como sugestão, o Bourgueil da Domaine Yannick Amirault (www.zahil.com.br) e uma das únicas opções de Hermitage branco do competente produtor Paul Jaboulet (www.mistral.com.br).