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Edelkeur: A nobre doçura da África do Sul

12 de Julho de 2012

Degustações históricas promoveram vinhos mundo afora, revelando rótulos como o australiano Grange Hermitage, o neozelandês Cloudy Bay, o supertoscano Sassicaia, e tantos outros. Entretanto, um vinho pouco lembrado é o sul-africano Edelkeur, lançado em 1969 pelo famoso enólogo alemão Günter Brözer da vinícola Nederburg. Em 1972, este vinho venceu um concurso em Budapeste concorrendo com grandes vinhos doces, incluindo Sauternes e Tokaji. Günter, um apaixonado pelos grandes Trockenbeerenauslese alemães, desenvolveu com competência vinhedos propícios ao ataque da Botrytis Cinerea com a casta Chenin Blanc na região de Paarl.

Rótulo original que deu origem à saga
Ao longo do tempo, Edelkeur abriu caminho para outros vinhos doces com outros castas, além da Chenin Blanc, na própria vinícola Nederburg, a qual batizou suas seleções como Winemaster´s Reserve Special Late Harvest e Winemaster´s Reserve Noble Late Harvest. A primeira envolvendo uvas como Chenin Blanc, Riesling, Muscat de Frontignan e Gewürztraminer. Já a segunda, com grande proporção de Chenin Blanc, complementada por Muscat de Frontignan, uvas estas botrytisadas.
Nova roupagem para o Edelkeur
Em 2001, o bastão é passado para o competente enólogo romeno Razvan Macici, após 33 anos sob a batuta de Günter Brözel. O rótulo mais atual acrescenta a expressão Private Bin, conforme foto abaixo. São vinhos de baixíssima produção, nem mencionados no próprio site da vinícola, www.nederburg.com.
 
Última versão na rotulagem
Tecnicamente, é um vinho muito bem equilibrado no tripé básico dos grandes vinhos de sobremesa, ou seja, álcool, acidez e açúcar. O grau alcoólico, geralmente baixo, gira em torno de 10 graus. A acidez total, frequentemente atinge 10 gramas por litro, e o açúcar residual às vezes passa de 200 gramas por litro. Além de ser elaborado totalmente com Chenin Blanc, aproxima-se de belos vinhos do Loire, principalmente das apelações Bonnezeaux e Quarts de Chaume. Um vinho delicado e de grande personalidade. Ótimo com tortas levemente cremosas com frutas frescas (pêssegos, por exemplo).
A safra 2005, uma das melhores dos últimos tempos, apresenta 9,75% de álcool, incríveis 12,49 gramas por litro de acidez total, e 240,50 gramas por litro de açúcar residual absolutamente balanceados, num final muito equilibrado e expansivo.
Os vinhos de Nederburg são trazidos pela importadora Casa Flora (www.casaflora.com.br).

Champagne em destaque: Cuvée William Deutz 1998

12 de Dezembro de 2011

Nesta última degustação na ABS-SP sobre champagnes de luxo, o rótulo abaixo brilhou entre feras já citadas e comentadas em post anterior. Resolvi destacá-lo em artigo específico por se tratar de um champagne envelhecido, de uma bela safra, e em grande forma.

A maison Deutz de origem alemã goza de grande reputação entre os melhores champagnes. Adquirida pela maison Roederer também de origem germânica, responsável pelo mítico champagne Cristal, os champagnes Deutz primam por sua elegância, equilíbrio e personalidade.

Um dos melhores rótulos no mercado

Como a maison Krug, as cuvées da Deutz fazem questão de incluir a uva Pinot Meunier em seu corte, além das nobres castas Chardonnay e Pinot Noir. Na cuvée acima, temos a seguinte proporção de uvas: 55% Pinot Moir, 35% Chardonnay e 10% Pinot Meunier.

Os vinhedos localizam-se em Aÿ, sede da maison, e também na Côte des Blancs, onde pelo menos 80% são da categoria Grand Cru e Premier Cru. Os champagnes não costumam ser encorpados, mas possuem estrutura e caráter para envelhecer. Para esta cuvée, o vinho permanece pelo menos cinco anos sur lies antes do dégorgement.

Na degustação,  apresentou-se com cor palha claro dourado de média intensidade e muito brilho. Os aromas finos denotam frutas secas e cítricas cristalizadas bem mescladas, lembrando um pouco os doces mineiros. Toques tostados, de gengibre e brioche também fazem parte do conjunto. No boca, mostrou-se medianamente encorpado, com uma acidez viva e revigorante de início, caminhando paulatinamente a uma maciez própria dos grandes champagnes, moldada por uma mousse delicada, mas de grande presença. Nas sensações finais, o equilíbrio é notável, além de todos os sabores fundirem-se harmoniosamente. Final fresco, elegante e marcante. É incrível sua vivacidade após treze anos de safra.

Importado pela Casa Flora (www.casaflora.com.br)

Vinho Madeira: Parte V

3 de Novembro de 2011

Neste último post, as perpectivas para o Vinho Madeira não são nada animadoras. A população da ilha está envelhecida, a demanda por bananas na Europa é maior que o próprio vinho, e os melhores terrenos para as castas nobres são muito acidentados. Com tudo isso, fica cada vez mais inviável perpetuar condições ideais para elaboração dos grandes Madeiras.

Infelizmente, a casta Tinta Negra está dominando a ilha, pois tem uma produtividade mais competitiva, aceita cultivo em terrenos menos acidentados e gera vinhos com uma rotatividade maior. As videiras mais antigas que restam das chamadas castas nobres estão sendo arrancadas pouco a pouco, e sendo substituídas por bananeiras ou pela competitiva casta Tinta Negra.

Terrenos acidentados e vinhas em terraços

De fato, se pensarmos friamente nos baixos rendimentos de videiras mais antigas, o enorme trabalho braçal para cultivá-las, o tempo de estocagem para os grandes vinhos chegarem ao mercado, veremos que os Madeiras são vinhos relativamente baratos. Portanto, aqueles que podem ainda desfrutá-los, não percam tempo, sob pena de num curto espaço de tempo, aparecerem mais fantasmas, além do grande Madeira Terrantez.

estatistica por casta

Madeiras disponíveis em nosso mercado (importadoras):

Vinho Madeira: Parte I

20 de Outubro de 2011

Após artigos específicos sobre Porto e Jerez, Vinho Sem Segredo não poderia deixar em segundo plano, um dos fortificados mais longevos e sofisticados, formando a Santíssima Trindade da península ibérica, o Vinho Madeira.

É impressionante o relato do grande sommelier Enrico Bernardo (melhor do mundo em 2004) quando degustou um Madeira Barbeito, semelhante à foto abaixo, da safra de 1834. Em sua descrição, além de ser um vinho imortal, ele diz: deve ser decantado imperativamente por três meses. Há duas grandes razões para isto. Primeiramente, é um vinho que passou por um processo oxidativo extremo na sua própria elaboração. Em segundo lugar, o fato de permanecer por décadas aprisionado numa garrafa, propiciou um ambiente extremamente redutor, exigindo portanto, um tempo de aeração igualmente proporcional. É de fato, um dos maiores vinhos de todos os tempos, mas injustamente esquecido. Às vezes, lembrado como vinho de cozinha para elaboração do molho homônimo.

Enrico Bernardo provou a safra de 1834

Esta série de artigos baseia-se no site oficial do IVBAM (Instituto do Vinho, do Bordado e do Artesanato da Madeira) que fundiu as três expressões artísticas da ilha (www.vinhomadeira.pt). A ilha da Madeira de origem vulcânica, localiza-se a 1.100 km da costa portuguesa e a 600 km da costa africana. O relevo é montanhoso e os melhores vinhedos plantados em socalcos, disputando espaços com as bananeiras, outra fonte de riqueza da ilha.

Terrantez: O fantasma da ilha

A casta dominante na ilha é a Tinta Negra Mole ou simplesmente Tinta Negra, a qual gera vinhos sem grandes atrativos, embora a idéia seja aprimorá-la, trabalhando com baixos rendimentos. As quatro castas nobres que são Sercial, Verdelho, Boal e Malvasia, serão abordadas num próximo post. A extinta Terrantez  que gera vinhos de grande complexidade e sutileza parece ter desaparecido da ilha. Entretanto, vez por outra, nos deparamos com uma garrafa de Terrantez fazendo jus ao célebre ditado espanhol: “Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay”.

O rótulo acima é importado pela Casa Flora (www.casaflora.com.br) e o Terrantez da Blandy´s é importado pela Mistral (www.mistral.com.br).