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Restaurantes: Posso levar o vinho?

26 de Março de 2010

 

Esta é uma questão onde o bom senso deve ser imperativo de ambas as partes, restaurante e cliente. A rigor, não existem regras definitivas e absolutas.

Se você possui uma garrafa diferenciada, provavelmente o restaurante não irá tê-la. Isso confirma algumas opiniões que defendem a inexistência do vinho levado, na carta do restaurante. Esta garrafa pode ser de um produtor especial,  uma safra antiga ou de grande prestígio. De qualquer modo, é fundamental que o cliente consulte o restaurante sobre esta questão, pois devemos respeitar os ambientes alheios para evitar constrangimentos. Nestes casos pode haver ou não a permissão, pode haver ou não a taxa chamada de  “rolha”, a qual pode ser fixa ou não. Acordo estabelecido, prepare seu vinho para a ocasião.

Principalmente para as garrafas especiais, é sempre bom lembrar de abrí-las em casa, o que pouca gente faz. Esta lição aprendi com o colunista Jorge Carrara. A razão é muito simples. Qualquer problema com o vinho no restaurante (ele pode estar bouchonné ou oxidado) não há muito  o que fazer, além da frustração. Já em sua adega, as alternativas podem ser bem melhores, além da decepção ser melhor digerida.

Outro fator importante é a decantação. Se houver esta necessidade, faça-a em casa também, principalmente se o vinho apresentar sedimentos. Por maiores que sejam os cuidados nesta pequena viagem, os sedimentos vão se misturar ao vinho. Em casa, com toda a calma, você decanta o vinho, lava convenientemente a garrafa com água mineral e retorna o vinho através de um funil. Pronto, além de facilitar todo o trabalho do sommelier, você estará seguro da potabilidade e da limpidez de sua grande garrafa.

Caso o restaurante tenha feito a gentileza de não cobrar a rolha, o serviço deve ser remunerado, sobretudo quando bem executado. Uma boa maneira de pagamento é você calcular a taxa de 10% sobre o valor que você pagou pela garrafa. Se o valor absoluto for relativamente baixo, fica a seu critério complementá-lo.

Outro detalhe importante. Leve o vinho em uma embalagem discreta, a qual pode ser simples ou em sofisticados estojos de couro. Entregue-a assim que possível ao sommelier, esclarecendo seus procedimentos previamente executados.

Em mesas maiores, onde há necessidade de mais garrafas, você pode consumir algumas do restaurantes e levar outras especiais. O importante é saber remunerar proporcionalmente o serviço e gentileza oferecidos pelo restaurante.

Casos que geram confusões e constrangimentos são aqueles em que os restaurantes não fazem concessões e não oferecem um serviço adequado do vinho. Pelo lado do cliente, a falta de educação em não consultá-los antecipadamente, além de levarem vinhos inexpressivos, simples e comerciais que sequer pagam a taxa de rolha, são comportamentos lamentáveis, principalmente se o restaurante oferecer uma carta de vinhos bem elaborada e de preços honestos. Voltando ao início da conversa, a sempre lembrada falta de bom senso.

 

Temperatura de Serviço

13 de Dezembro de 2009

 

Comodidade, conservação e sofisticação em duas temperaturas diferentes com a grife Eurocave

 

Se você não é muito ligado a todos os detalhes no ritual do vinho, pelo menos um requer  sua atenção: a temperatura de serviço. É claro que não precisamos monitorar cada taça com um termômetro, mas desprezar este item pode prejudicar sensivelmente uma grande garrafa que deve ser cercada de todos os cuidados.

Nenhum vinho deve ser servido a menos de 6ºC e nem acima de 20ºC. Em temperaturas muito baixas nossas papilas gustativas ficam anestesiadas, perdendo a noção exata dos sabores. No outro lado, em temperaturas muito altas o vinho perde seu equilíbrio, principalmente pela volatilização do álcool.

Para calibrarmos as melhores faixas de temperatura de serviço é importante termos a noção exata de como se comporta cada um dos componentes do vinho: acidez, álcool, taninos, açúcar e gás carbônico. Os dois primeiros aparecem em qualquer tipo de vinho, já que álcool está implicíto na definição de vinho e este trata-se de uma bebida quimicamente ácida (pH em torno de 3,5). Os taninos só aparecem em vinhos tintos, o gás carbônico nos espumantes e o açúcar residual destacado, nos vinhos doces ou de sobremesa.

           Acidez                                                                     Álcool

          Taninos                                                    Açúcar residual

          Gás carbônico 

No esquema acima percebemos que os componentes à esquerda ficam sensibilizados quando abaixamos a temperatura. Já os componentes à direita são enaltecidos quando aumentamos a temperatura. Evidentemente, estes componentes não aparecem todos juntos ao mesmo tempo num determinado vinho. Seguem alguns exemplos mais comuns:

  • Vinho branco seco: acidez e álcool
  • Vinhos tinto seco: acidez, álcool e taninos
  • Vinhos doces brancos: acidez, álcool e açúcar residual
  • Vinhos espumantes secos: acidez, álcool e gás carbônico

A seguir, veremos algumas situações específicas onde os erros costumam ser recorrentes:

Grandes champagnes ou espumantes especias

Esquecer esses vinhos no balde de gelo é o fato mais comum. É lógico que a acidez e o gás carbônico ficam mais preservados, mas a temperatura muito baixa esconde aromas maravilhosos dessas cuvées especiais. É bom ter em mente que o mais importante é a qualidade excepcional do vinhobase. Naturalmente, a acidez e a qualidade da espumatização são muito acima da média. Portanto, ao invés de 6 a 8ºC, pule para 8 a 10ºC, e às vezes até 10 a 12ºC. O equilíbrio destes vinhos é fantástico, permitindo que você desfrute sensações aromáticas muitas vezes perdidas.

Grandes vinhos brancos

A explicação é a mesma. Tanto vinhos secos, como doces, a tendência é gelar demais. No caso de secos, o exemplo mais emblemático é a dos grandes brancos da Borgonha. Tudo de alto nível ligado ao nome Montrachet se encaixa neste perfil. Esses vinhos devem ser tomados  na faixa de 10 a 14ºC, dependendo do extrato de cada um. O ideal é gelá-los um pouco abaixo de 10ºC e decantá-los. Este procedimento ajuda tanto na temperatura, como na liberação de aromas. As exceções são ambientes muito quentes, principalmente no verão. Já os grandes brancos doces incluem a elite dos Sauternes, Tokaji, botrytizados da Alsace, Loire e Alemanha. A despeito do alto teor de açúcar residual que esses vinhos possam atingir, o nível de acidez é excepcional, proporcionando um equilíbrio quase natural. Portanto, cuidado com o balde de gelo. Fique também na faixa de 10 a 14ºC.

Vinhos Fortificados

O Porto é o vinho mais típico desta categoria, mas não nos esqueçamos dos Madeiras e dos Jerezes. Aqui o problema se inverte. O álcool é o grande vilão pela própria natureza da fortificação. A maioria desses vinhos apresentam estrutura de taninos discreta, além de muitas vezes estarem totalmente domados. Portanto, vale a pena resfriá-los enfatizando acidez (frescor) e minimizando a ação do álcool. Faixas de temperatura entre 10 e 14ºC são adequadas.

A grande exceção neste grupo é o chamado Porto Vintage, rico em taninos, principalmente quando jovem. Neste caso específico é bom não fugir da faixa entre 16 e 18ºC. A longa decantação neste caso é imprescindível.

Resumindo, existem muitas situações particulares, mas conhecendo bem como se comportam os vários componentes do vinho, o melhor termômetro continua sendo a nossa língua.