Archive for Outubro, 2014

Grandes Vinhos, Grandes Safras: Parte III

16 de Outubro de 2014

Após o primeiro dia em Dijon, fomos almoçar dia seguinte no restaurante Marc Meuneau em Vézelay, local um pouco afastado da cidade. Este duas estrelas no guia Michelin foi o ponto alto entre os restaurantes visitados. Ambiente requintado sem ser pedante, menu bem elaborado e bem executado. Aqui começamos em alto nível provando um Dom Pérignon OEnothèque 1964 com dégorgement (arrolhamento definitivo) em 1999, conforme foto abaixo:

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OEnotèque: lotes especiais para envelhecimento

A cuvée Dom Pérignon (top da Moët et Chandon) tem o dégorgement normalmente em torno de seu oitavo ano.  Algumas safras e lotes especiais podem ser guardados para um dégorgement mais tardio. É o caso deste exemplar Dom Périgon Enotèque 1964, em contato com as leveduras até 1999 quando em então, foi definitivamente arrolhado.  Praticamente um vinho branco, pois as borbulhas eram muito tênues, mas vivo, com bom fresco, e aromas de evolução com notas cítricas, brioche e toques empireumáticos lembrando café. Em seguida o embate de dois gigantes de Montrachet: DRC Montrachet e Domaine Leflaive.

20141003_145040Montrachet DRC: primeira garrafa devolvida

Duelo de gigantes. A primeira garrafa do Montrachet DRC 1988 estava evoluída demais para sua idade. Provavelmente algum problema no armazenamento. Em compensação, a segunda garrafa estava magnífica com o que se espera de um branco deste quilate. Notas de amêndoas tostadas, manteiga, mel, cera de abelha, toques resinosos e empireumáticos. Enfim, um autêntico Le Montrachet.

20141003_144853Montrachet Leflaive: Elegância e personalidade

Este mostrou-se um rival à altura. Embora não tenha a potência do DRC, sua personalidade e extrema elegância, sutileza, fazem deste exemplar, Montrachet Domaine Leflaive, um branco de rara beleza. É a força de boxeador em luvas de cetim. Bravíssimo!

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Aqui não tem vencedores

Como se não bastasse o trio de brancos descritos, uma nova briga de titãs prossegue. Agora entre os tintos, conforme foto acima. O grande La Romanée 1987 ganhou a dianteira pela prontidão de seus aromas e sabores. As notas de rosas, sous-bois, caça, entre outras, estavam presentes, confirmando a bela evolução de um grande Borgonha. Já o Clos de Tart 1996, embora muito agradável, tinha aromas e sabores a resolver. Seus taninos ainda muito presentes polimerizarão com certeza texturas fascinantes. Pode guardar na adega sem sustos. Mais um grande duelo.

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Domaine Huet: a delicadeza da Chenin Blanc

Para passar a régua, que tal um final com um dos brancos do Loire mais emblemáticos, o biodinâmico Domaine Huet. Evidentemente ainda uma criança, pois estes vinhos evoluem por décadas. Com açúcar residual comedido, esbanjou elegância com toques florais, cítricos delicados e uma ponta amendoada. Belo final.

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Esse Bas-Armagnac deixou saudades …

Este foi o final à mesa, mas nos jardins do restaurante, os digestivos entraram em ação. Charutos Cohiba safra 1966 e o ícone Behike acompanhado por cafés e um estonteante Bas-Armagnac safra 1950. Um veludo na boca. Enfim, sobrevivemos.

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Grandes Vinhos, Grandes Safras: Parte II

13 de Outubro de 2014

Grandes Vinhos, Grandes Safras: Parte II.

Grandes Vinhos, Grandes Safras: Parte II

13 de Outubro de 2014

Continuando o relato da França, após uma viagem de vários “sacrifícios”, chegamos à Borgonha, em Dijon. À noite, fomos jantar no restaurante William Frachot, duas estrelas no guia Michelin, do hotel Chapeau Rouge. Evidentemente, bons pratos, mas foi o menos emocionante de viagem. O serviço de sommellerie deficiente, bem abaixo para um padrão estrelado. Contudo, vamos ao que interessa, os vinhos degustados.

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Charme é tudo que esse vinho tem

Começamos com um Chablis sugerido pelo restaurante que não vale a pena comentar, sobretudo quando o seu vinho sucessor é o Domaine Comtes Lafon Meursault-Charmes Premier Cru 2011. Pessoalmente, meu produtor preferido desta apelação mostrando aromas extremamente elegantes e de uma textura singular em boca. Em seguida, o panorama ficou mais sério. Degustação de três Grands Crus de Vosne-Romanée e um super Premier Cru de Nuits Saint Georges.

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Um autêntico Nuits St Georges

Começando pelo Premier Cru acima, do produtor Prieuré-Roch, o monopólio Clos des Corvées 2008 é vinificado sem desengaço das uvas perfazendo somente três mil garrafas. Vinho de força, personalidade, mas surpreendentemente acessível neste momento. Textura de taninos excelente com bom potencial de guarda.

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Grand Cru ao lado de Vougeot e Musigny

Aqui entramos nos vinhos do Domaine mais famoso, DRC Grands Échézeaux 2002. Grande safra com grande potencial. Degustar vinhos DRC nesta tenra idade (12 anos) é como provar um assado ainda cru. Aromas ainda tímidos, boca fechada com taninos preguiçosos para uma devida polimerização. Sabemos que será grande, mas só o tempo irá comprovar. Quem o tiver na adega, não pense nele por pelo menos dez anos.

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Jardim com menos de um hectare

Este Grand Cru La Romanée Monopole 2006 tem vizinhos ilustres ao seu redor: Romanée-Conti e Richeburg. Para sua idade, safra 2006, apresentou-se surpreendentemente abordável. Aromas finos com toques florais e sous-bois, taninos de ótima textura e acidez refrescante. Evidentemente, vislumbra bons anos de adega. Minha grande dúvida é se sua longevidade é páreo para o próximo vinho, o enigmático e temperamental Romanée-Conti.

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Personalidade multifacetada

Toda vez que degusto este vinho me pergunto: Será que não tenho capacidade para entende-lo?. Os realmente espetaculares, fazendo jus a todo seu glamour foram as duas grandes safras com mais de vinte anos, 85 e 90. Este por exemplo, DRC Romanée-Conti 2006, é um completo infanticídio a tal ponto, que perdeu para seus dois concorrentes. Aroma fechado, boca extremamente equilibrada, taninos bem moldados, mas sem a expansão que faz dele um mito. Com certeza daqui a pelo menos quinze anos, estaremos falando de outro vinho. E assim, perpetua-se a lenda.

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O vinho botrytisado da Borgonha

Para encerrar a brincadeira, provamos o mais famoso e talvez único produtor da Borgonha a fazer um branco doce a partir da uva Chardonnay, Domaine Thévenet. Este vinho de apelação Mãcon Villages, Domaine de La Bongran Cuvée Botrytis 2001,  valeu pela curiosidade, mas não faz frente aos botryitsados clássicos franceses de Sauternes, Vale do Loire (Quart de Chaume e Bonnezeaux) e Alsace (Sélection des Grains Nobles).

Com isso, encerramos nosso primeiro jantar na Borgonha, após um dia cansativo. Amanhã tem mais. Almoço no Marc Meuneau. Ufá!

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Grandes Vinhos, Grandes Safras: Parte I

9 de Outubro de 2014

Depois de um hiato na rotina de nossas publicações, começa aqui o relato de algumas degustações de alto nível com amigos na França. O nome desta série tenta reproduzir as sensações e o glamour de alguns mitos da enologia, sobretudo francesa. A primeira degustação começa já no avião com toda a energia e expectativa do grupo, conforme relato abaixo.

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Neste primeiro grupo de vinhos degustados, podemos começar pelo Vieux Chateau Certan 1990, um dos tintos entre os melhores do seleto grupo de Pomerol, embora não haja ainda uma classificação oficial para esta apelação. Um vinho muito bem pontuado, mas que não estava em sua melhor forma. De qualquer modo, muito agradável, apesar de haver garrafas melhores. Aliás, um ditado que vai ser recorrente neste artigo é: ¨Em vinhos antigos, não existem grandes safras. Existem grandes garrafas¨.

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Em seguida, fomos para Pauillac com o belo Chateau Latour 1982. Um dos grandes desta safra e muita estrutura em boca. Nariz ainda um pouco fechado e taninos abundantes. Vai evoluir por algumas décadas e mesmo em seu apogeu, permanecerá por longo tempo.

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Os dois tintos foram precedidos pelo Champagne Cristal 2002 e pelo trio de ferro dos brancos de Beaune: Corton Charlemagne Coche-Dury, Ramonet Bienvenue Batart Montrachet e DomaineMichel Niellon Chevalier Montrachet, todos Grand Crus.

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Produtor excepcional

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Vinho raro do Ramonet

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Muita vida pela frente

O champagne Cristal dispensa comentários, sobretudo numa safra relevante como 2002. Bienvenue do Ramonet é um vinho raro e neste exemplar mostrou um toque cítrico sensacional. Já o Corton Coche Dury estava aberto e extremamente cativante enquanto o Chevalier de Michel Niellon mostrava-se introspectivo. Só após algum tempo, seus aromas e sabores desabrocharam.

Enfim, para um início de viagem, nada mal. No próximo artigo, chegada à Borgonha, Dijon, Côte de Nuits.

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