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Hermitage e Porto Vintage

18 de Julho de 2013

Há tempos estou para escrever este artigo, sempre prospectando os fatores de terroir. Apesar de serem duas regiões clássicas europeias distantes entre si, vale a pena compará-las e discutir o fator humano que as fizeram elaborar vinhos aparentemente tão diferentes. A montanha de Hemitage em certa fotos assemelha-se bastante com a região do Douro, sobretudo por seu relevo íngreme. Vamos então, citar alguns pontos em comum destes dois grandes terroirs:

  • Relevo íngreme e subsolo granítico
  • Regiões de clima continental
  • Vinhos potentes e de longo envelhecimento
  • Elaboração do vinho a partir de vários vinhedos
  • Tanicidade destacada a ser domada pelo tempo

Colina de Hermitage: semelhança com o Douro

A região do Douro foi escolhida pelos ingleses no século dezessete para suprir o fornecimento de vinhos franceses, devido a várias guerras entre os dois países. Como o transporte deste vinho rústico duriense era extremamente demorado não só pela distância, mas principalmente pela dificuldade do relevo e inexistência de estradas, optou-se pela fortificação, dando mais resistência ao produto. Maiores detalhes, favor verificar neste mesmo blog artigos sobre Vinho do Porto em várias partes.

O importante nesta história é a perspicácia do homem como fator humano do chamado terroir, interferindo num estilo de vinho e marcando-o profundamente através da tradição. Recentemente, os vinhos de mesa do Douro ganharam notoriedade por conta novamente de uma mudança de mentalidade, ou seja, o fator humano mudando os rumos de uma região e trazendo novas opções de consumo.

Cores intensas: Porto (acima) e Hermitage (abaixo)

Já a região de Hermitage (apelação francesa no chamado Rhône do Norte), sempre optou por vinhos de mesa robustos, encorpados e em certa época, misturado aos vinhos de Bordeaux de safras problemáticas para darem mais corpo e estrutura aos tintos bordaleses. Se fosse o caso, este vinho poderia ser perfeitamente fortificado, tornando-se quem sabe, numa das mais autênticas cópias do grande fortificado português. 

Paisagem duriense

Enfim, a semelhança que deve ser observada entre estes dois grandes tintos é a potência e o poder de longevidade dos mesmos. A peculiaridade pouco comum desses dois vinhos partirem de um grupo de vinhedos é também notável. Os melhores Hermitages como Chave e La Chapelle (do produtor Paul Jaboulet) provêm de um maior número de vinhedos ou como os franceses preferem, climats (Méal, Bessards, Greffieux, Baumes, entre outros). Do lado do Porto, os melhores Vintages, os chamados clássicos, provêm também de várias parcelas (quintas) das melhores casas de Porto. Nos dois casos, cada parcela apresenta características distintas onde a mistura ou assemblage das mesmas geram vinhos mais equilibrados e complexos, melhorando o conjunto. Só para citar um exemplo, o belíssimo Porto Taylor´s Vintage provém das quintas de Vargellas, Terra Feita e Junco. Cada qual com características distintas, formando um todo harmonioso.

Outra coincidência relevante é a crescente individualização dos vinhedos. Atualmente, está em voga os chamados Hermitages de vinhedo e também, os chamados Portos de Quinta. A idéia é mostrar certas pecualiridades de terroir que compõem as melhores quintas de cada Casa. A Taylor´s por exemplo, engarrafa o espetacular Quinta de Vargellas, famosa por proporcionar aos vintages o caracteristico aroma de violetas. Mas a grande quinta em toda a região é o mítico Quinta do Noval Nacional, elaborado em certos anos sob rendimentos mínimos com parreiras pré-filoxera. A qualidade é magistral, contudo os preços são proibitivos. Quanto aos Hermitages de vinhedo, a Maison Chapoutier tem um ótimo grupo de vinhos, com destaque especial para o L´Ermite.

Vale do Rhône: Parte III

10 de Maio de 2012

Nesta terceira parte, falaremos do imponente Hermitage. Um vinho poderoso, de grande estrutura e apto a longo envelhecimento. Outrora, reforçou os vinhos bordaleses, chamados de Clarets, fornecendo mais força e vigor. É um dos mais antigos vinhos franceses, mencionado na antiga Roma por Plinio, o Velho.

A majestosa montanha de Hermitage ao longo do Rhône

Passando pelas encostas da Côte-Rôtie, o rio Rhône segue seu curso na direção sul percorrendo aproximadamente 50 quilômetros. Neste ponto, o rio muda de direção a leste, formando um pequeno braço, antes de retornar seu caminho ao sul. Exatamente neste braço (vide foto acima), está a espetacular montanha de Hermitage, com vinhedos escarpados, voltados para a direção sul e protegidos dos fortes ventos. Na verdade, é um grupo de vinhedos contíguos, cada qual com suas pecualiaridades de solo e altitude. Nomes como Le Méal, Les Bessards, Les Gréffieux, às vezes são vinificados e engarrafados separadamente. Contudo, os grandes Hermitages são mesclas dos vários vinhedos onde a somatória das características individuais, enriquece o conjunto. Neste raciocínio, os maiores nomes da apelação ficam por conta de Jean Louis Chave e Paul Jaboulet Aîné com seu espetacular La Chapelle. Estes produtores detêm parcelas num maior número de vinhedos, gerando vinhos mais estruturados e complexos. São importados pela Mistral (www.mistral.com.br). Delas Frères da importadora Grand Cru (www.grandcru.com.br) e Marc Sorrel da importadora Premium (www.premiumwines.com.br) são também belas referências.

Chave: Grandes vinhos em grandes safras

Hermitage

Apelação com pouco mais de 130 hectares em sub-solo granítico e solos variados de xisto, pedras e micaxisto, conforme terroirs específicos, já mencionados acima.

Os tintos são elaborados com Syrah e eventualmente até 15% de Roussanne e Marsanne, brancas locais. Essas mesmas uvas brancas compoêm o Hermitage branco, que pode ser surpreendente. Muitas vezes um vinho meio sem graça na juventude, mas que pode evoluir de forma magnífica por longos anos.

Os rendimentos destes vinhos são bastante baixos, não passando dos 30 hectolitros por hectare. Os Côtie-Rôtie também obedecem este preceito.

Não tenha pressa em abrí-los. Um grande Hermitage pode evoluir por décadas. O La Chapelle 1961 está na caixa do século da Wine Spectator como um dos maiores vinhos de todos os tempos.