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Jerez: Parte II

26 de Setembro de 2010

 

Tradicional sistema Solera

Continuando a detalhar os segredos de Jerez, vemos acima o sistema de amadurecimento ou de educação dos vinhos (em espanhol, crianza), chamado Solera. Esta é a principal razão pela quase totalidade dos vinhos de Jerez não terem safra. Neste sistema contínuo de entradas e saídas, o vinho é sempre rejuvenescido com safras mais recentes, eliminando progressivamente o vinho mais antigo da solera.

O sistema tende a ser mais dinâmico de acordo com o tipo de Jerez de cada solera. Para os finos, é essencial a manutenção da flor. Portanto, o sistema deve ser constantemente monitorado e ativo, como sacas sucessivas entre as criadeiras, de cima para baixo, até a soleira propriamente dita. Como é o tipo mais consumido, esta dinamização segue a ordem natural de consumo.

Para os Amontillados, a manutenção da flor é parcial, ou seja, depois de um certo tempo, a flor morre, seguindo o processo de crianza oxidativa. O amontillado pode ser elaborado pelo desenvolvimento natural da flor, a qual será menos vigorosa que a do tipo fino, que com o tempo morre naturalmente. A outra maneira, é provocar a morte da flor de um Jerez fino, não revigorando a solera. De todo o modo, as características de um amontillado são intermediárias entre os finos e os olorosos.

Por fim, os Olorosos. São vinhos que desde a fortificação, não desenvolveram a flor. Portanto, todo processo de solera se dará com crianza oxidativa. Evidentemente, suas cores são as mais escuras, intensificadas pela idade da solera.

Um último dado sobre a formação da flor. Antigamente, o fato de existir ou não flor em uma determinada bota de Jerez era algo misterioso e totalmente legado às condições naturais do ambiente e época do ano. Com o avanço da ciência e domínio de todos os processos de vinificação, atualmente cabe ao homem decidir ou não por sua formação. Através de um controle perfeito de temperatura, umidade e inoculação da levedura Saccharomyces Beticus, os vários tipos de Jerez são elaborados e dimensionados.

 

Venenciador: habilidade para o Circo de Soleil

Este profissional maneja como ninguém seu instrumento de trabalho, a venencia (faz a vez da pipeta para retirar um pouco de vinho da barrica). Eles são capazes de servir dez ou doze copitas (taças de boca estreita, lembrando uma flûte mais curta), sem cair uma gota fora, de qualquer uma delas.

O mundo Jerez continua no próximo post.

Jerez: Parte I

22 de Setembro de 2010

 

Logotipo do Conselho Regulador de Jerez

Toda vez que faço um artigo sobre os vinhos de Jerez, tenho absoluta certeza de que ainda é muito pouco para aliviar a injustiça, sobre um dos vinhos mais esquecidos dos consumidores. Sei que é difícil alguém gostar de Jerez pela primeira vez. É um vinho tão exótico, que pode causar a impressão de algum defeito, pela ignorância de quem o provar. Por isso, a melhor maneira de gostar de Jerez à primeira vista, é apresentá-lo acompanhando azeitonas, alice, ou comida japonesa (Afinal, o Jerez fino é o vinho que mais se aproxima do saquê). Esses ingredientes costumam aniquilar a maioria dos vinhos.

O logo acima mostra as três grafias deste grande vinho espanhol: Jerez (espanhol), Sherry (inglês) e Xérès (francês). Na verdade, a Andaluzia o produz, e a Inglaterra o divulgou mais que qualquer outra nação.

No mapa abaixo, podemos perceber o clima quente da região (extremo sul da Espanha), sobretudo no verão, já praticamente fazendo fronteira com o norte da África (Marrocos). Além do clima, a região formando um triângulo, tendo como vértices as cidades de Sanlúcar de Barrameda, Jerez de La Frontera e Puerto de Santa Maria, exibe um solo único, com marcante predomínio da albariza (solo branco esponjoso com alto teor de calcário). Este solo de excelente drenagem é importantíssimo para armazenar em camadas profundas, água da chuva no inverno, suficiente para as vinhas suportarem o cálido verão andaluz. A uva branca local Palomino completa o cenário, juntamente com a perspicácia do homem, solidificando os pilares deste terroir único.

Região quente da Andaluzia

A vinificação em Jerez ocorre também de maneira peculiar, gerando vinhos de vários tipos: finos, amontillados, olorosos e palo cortado. É fundamental salientar que o verdadeiro Jerez, de alta qualidade, é sempre seco. Os estilos doces são invenções inglesas para satisfazer certos nichos de mercado.

A figura abaixo mostra uma barrica (localmente chamada de bota jerezana) com a formação da flor (levedura típica da região que age sobre o vinho). A presença ou não da flor vai influenciar sobremaneira nas características organolépticas dos vários tipos de Jerez. Portanto, para os Finos e Manzanillas, a presença da flor é fundamental, dando origem à chamada crianza biológica, protegendo o vinho da ação oxidativa. Já para os Amontillados e Palos Cortados, temos a presença parcial da flor no processo de crianza. Finalmente, os Olorosos são criados na ausência total da flor, dando origem à chamada crianza oxidativa.

A importante proteção oxidativa da flor

A formação ou não da flor (Saccharomyces Beticus) envolve uma série de características específicas como clima, temperatura, umidade, entre outras, além do chamado imponderável. A flor se alimenta de nutrientes do vinho, principalmente o glicerol, o ácido lático, o açúcar residual e  o álcool. Para sua manutenção e vigor é importante uma boa oxigenação (preenchimento parcial das botas), e também, um rejuvenescimento com lotes de vinhos novos. É importante salientar que a flor só age depois do mosto normalmente fermentado entre 11 e 12º de álcool.

A fortificação em Jerez é sempre feita após a fermentação total do mosto. Daí a razão dos grandes Jerezes serem sempre secos. Para a formação e manutenção da flor, é importante que a fortificação não ultrapasse o teor de 15,5º de álcool. Portanto, os finos são fortificados em torno de 17º de álcool somente antes do engarrafamento, eliminando qualquer possibilidade da flor se desenvolver dentro da garrafa. Já os Amontillados e principalmente os Olorosos, são fortificados em 17º de álcool, para desenvolverem um processo exclusivamente oxidativo, sem a possibilidade da formação da flor. Portanto, a flor é muito sensível ao teor alcoólico da fortificação (encabezamiento em espanhol). Aqui vale o ditado: a diferença entre o remédio e o veneno é a dose.

No próximo post, detalharemos outros aspectos do mais famoso fortificado espanhol, fazendo jus à notável vocação da península ibérica, na elaboração deste tipo de vinho.