Heterônimos de um viticultor

4 de Julho de 2025

Quando criança, Paulo Nunes adorava passar horas jogando futebol com seus amigos de rua. Detestava quando seu pai e seu avó paravam a brincadeira e o puxavam para que os acompanhasse nas vinhas da família no Douro, norte de Portugal e região reputada pelos tintos e pelo vinho do porto. Jurou que, quando crescesse, faria de tudo na vida, menos trabalhar com vinhos. Fez Engenharia Alimentar. Ingressou um ano no teatro universitário, mas voltou aos caminhos da infância.

“Fracassei redondamente na minha jura”, diz sorrindo. Hoje ele é enólogo há 20 anos da Casa da Passarella, está à frente também no Dão de Quinta da Perdonda e já foi premiado algumas vezes por publicações portuguesas como o melhor produtor de vinhos de Portugal.  “O viticultor tem heterônimos, buscamos produzir em várias regiões e explorar as nuances e nossa vida tem muitos sacrifícios porque estamos a viajar para produzir ou para mostrar o que fazemos”, afirma Nunes, que perdeu os três primeiros aniversários da filha, em razão de viagens. “Tem de pôr a alma no que fazemos.”

Nos últimos anos, essa nova geração tem revolucionado o vinho português. “Antes se colocava carne em um moedor e saía um croquete, hoje um pedaço vira um presunto, outro vai à panela e outro é usado em um molho”, resume Nunes, cujos vinhos no Brasil são importados pela Premium Wines.

Manuel Lobo de Vasconcellos, à frente da Lobo de Vasconcellos Wines no Dão (vinhos também importados no Brasil pela Premium Wines), é de uma família há oito gerações no mundo do vinho, mas representa a primeira que ingressou em Enologia. Cursar a universidade fez com que buscasse uma novidade: escavou a vinícola familiar no Dão para mapear o subsolo, estudar a mineralidade e as variedades mais adaptadas. Nunca na história de 200 anos da propriedade tinha sido feito isso.

“Saber o que se passa vários palmos abaixo do chão e conhecer bem os solos consegue colocar cada casta no lugar certo, sem ter necessidade de fazer determinadas correções à superfície. É bom para o produtor, bom para a vida do solo e, claro, bom para a saúde do consumidor”, diz.

O aquecimento global tem trazido desafios. “As férias de verão estão mais difíceis de serem marcadas, tenho saído com a família em julho, em vez de agosto ou setembro”, afirma Lobo de Vasconcellos. As situações extremas – como chuvas, granizo ou temperaturas acima de 35 graus – têm sido mais frequentes. Isso faz com que se busquem solos que tenham mais capacidade de reter chuva em áreas em que a estiagem é mais prolongada. “Outra opção é plantar uvas em altitudes mais elevadas.”

A receita da nova geração inclui ainda recuperar antigas maneiras de fazer vinhos e trabalhar com uvas menos badaladas.  Depois de rodar 80 mil quilômetros por ano como consultores de vinícolas em diferentes terroirs, Jorge Rosa Santos e Rui Lopes criaram em 2016 a Lés-a-Lés, um projeto com o desejo de recuperar castas antigas, regiões e estilos de vinhos esquecidos do país. Para estampar os rótulos, a escolha foi o desenho de um bilhete de trem, uma homenagem aos deslocamentos da dupla. Com cerca de 20 mil garrafas, a dupla faz brancos e tintos que exploram uvas e terroirs menos badalados.

Um exemplo é o branco Quinta das Marés com as castas Jampal e Vital de vinhedos ao sopé de Montejunto, uma serra calcária na Extremadura. Outro é o Medieval de Ourém, que carrega uma história singular. Séculos atrás, monges da ordem cisterciense transmitiram aos portugueses o método de vinificação aprendido na Borgonha: uvas brancas e tintas eram cofermentadas e depois passavam por barricas. Jorge e Rui resolveram fazer o mesmo dos antepassados. Esses vinhos chegam em breve ao Brasil pela primeira vez por meio da importadora @emiwine, de Emiliana Medauer.

As novidades também chegam do outro lado do Atlântico. O casal carioca Rafael e Juliana Kelman está se aventurando com uma vinícola no Dão desde 2013. Juliana trocou a publicidade pelo mundo do vinho, Rafael ainda concilia o universo da eletricidade no Brasil com algumas idas para Portugal.  A escolha do país não foi aleatória.

Juliana foi em busca de seus laços familiares. Viram uma quinta à venda no Dão. Assinaram o cheque. São seis hectares, com vinhas plantadas em 2000 com castas tradicionais, incluindo Touriga Nacional e nesse caso também a touriga brasileira. Os vinhos dos Kelman, cujo enólogo é Antonio Narciso, não chegam ainda ao Brasil, estão em busca de importadora.

Os barolos de Luciano Sandrone

13 de Junho de 2025

Quando a unificação italiana ocorreu na metade do século XIX, promovida pela Casa de Savoia, um vinho ganhou projeção à mesa entre os nobres: o barolo, feito com as uvas Nebbiolo, colhidas no Piemonte, norte do país. Escolhido pela dinastia real italiana, foi batizado como o vinho dos reis ou o rei dos vinhos.

Assim como as dinastias, o mais famoso vinho da Itália tem passado por transformações, seja pela emergência de uma nova geração de produtores, seja com os impactos das mudanças climáticas e dos preços cada vez mais elevados das terras, o que tem despertado a atenção de olhares estrangeiros.

Um dos capítulos da história dos últimos 50 anos de barolo e do vinho italiano é escrito pela família de Luciano Sandrone, cuja filha, Barbara, esteve recentemente em São Paulo, em evento da importadora Clarets. Quando a família Sandrone se mudou para a cidade de Barolo, tornou-se vizinha de Giacomo Borgogno, um dos mais famosos produtores da região. O pai de Luciano era carpinteiro, mas alergia ao pó de madeira e horas vendo o vinho sendo feito no vizinho levaram Luciano à enologia.

Aos 18 anos, bateu à porta do vizinho e conseguiu um emprego na linha de frente da produção de Giacamo Borgogno. Começou a guardar dinheiro e em 1977, aos 30 anos, comprou uma parcela de videiras em Cannubi Boschis, um pedaço de terra reputado pelos barolos ali plantados.

Um ano depois, em 1978, na sua garagem, começou a vinificar 1500 garrafas, mantendo em paralelo seu trabalho de enólogo nas vinícolas de Giacomo Borgogno e Marchesi di Barolo. “Ele precisava de dinheiro e queria fazer seus vinhos, seguir um caminho próprio e isso coincidiu com mudanças no cenário”, recorda-se Barbara.  

O vinho italiano no início dos anos 1980 começou a mudar. Em 1981, foi lançada a primeira Vinitaly, feira realizada na Itália com a intenção de reunir produtores de diferentes regiões do país e compradores de todos os países. Os vinhos de Luciano agradaram a compradores dos Estados Unidos e Suíça.

Em paralelo, a nova geração de viticultores adotava novas técnicas. Na maneira tradicional, os produtores usavam grandes toneis de madeira para envelhecer o barolo buscando obter garrafas que evoluíssem por anos. Já a nova geração buscava vinhos mais acessíveis na juventude e mais precisão na colheita e na adega. Luciano se tornou o que a literatura enológica chama de “barolos boys”, um movimento que chacoalhou a região, buscando incorporar novas tecnologias, tornando até hoje difícil definir a tênue linha entre modernistas e tradicionalistas.

Manteve um pé no moderno e outro na tradição. Barolos eram fermentados por até 30-50 dias, o que gerava vinhos extremamente tânicos e duros na juventude. Sandrone reduziu esse tempo para cerca de 10-12 dias, com controle rigoroso de temperatura, preservando o frescor da fruta e suavizando os taninos.  Entre os toneis dos tradicionalistas e as barricas francesas de 228 litros de modernistas, ficou no meio caminho: com barris de 500 litros para envelhecer seus vinhos.

Em 1990, um de seus vinhos recebeu 100 pontos, a nota máxima dada pelo crítico norte-americano Robert Parker. O reconhecimento fez com que pudesse se concentrar apenas em sua vinícola, que em 1999 deixou a garagem e ganhou espaço próprio.

Luciano morreu em 2023. Antes, em 2017, fez uma alteração histórica no seu rótulo mais famoso: Cannubi Boschis foi batizado de Aleste, a junção dos nomes da terceira geração, Alessia e Stefano, filhos de Barbara. Alessia trabalha na vinificação, Stefano estuda economia agrária. Integram a terceira geração da vinícola familiar, cuja produção é de pouco mais de 140 mil garrafas. “Sempre foi uma preocupação manter a produção familiar”, diz. O ambiente mudou nas últimas décadas.

Um hectare de terra em Barolo custa milhões de euros e atrai o olhar de empresários do mundo todo em um ambiente que tradicionalmente estava nas mãos de agricultores. “Por enquanto a região tem conseguido manter suas raízes, mas há muitos empresários que cobiçam a região para fazer vinhos”, diz Barbara.

Não é a única ameaça. O aquecimento global tem mudado não apenas a data das férias da família, mas também trazido outras preocupações: redes de proteção têm sido colocadas para evitar que a irradiação solar provoque manchas nas videiras e traga doenças. Ainda não é possível avaliar a nova técnica. “Nos últimos três anos, foi uma sucessão de eventos, um ano teve muita chuva, em outro, muito sol, em outro granizo”, afirma. A data de colheita em um ano pode ser em outubro, em outro, em novembro.

Com grande potencial de envelhecimento, os barolos são vinhos que ganham com anos ou décadas de adega. A nova geração tem paciência? “Sim, mas temos visto que muitos nos Estados Unidos, depois da pandemia, passaram a dar menos atenção à enogastronomia. O vinho italiano ganha muito com a comida. Já os asiáticos estão cada vez mais atentos a combinar sua culinária com nossos vinhos”, diz Barbara, que depois do Brasil tem viagem marcada para o Japão. A garagem da família Sandrone ganhou o mundo.

Clássicas mesas numa São Paulo gourmetizada

13 de Junho de 2025

(original publicado em https://www.cartacapital.com.br/blogs/pantagruel/)

Cerca de 60% das empresas não sobrevivem após cinco anos no Brasil, segundo dados do IBGE. No setor gastronômico, a mortalidade empresarial é ainda mais alta: sete em cada dez negócios fecham as portas antes de completar o quinto aniversário. Depois da pandemia, a matemática se tornou ainda mais problemática. Quem sobrevive décadas na cidade de São Paulo tem uma legião de assíduos frequentadores ou tem buscado se readaptar.

Fundado em 1970, na rua Treze de Maio, no bairro do Bixiga, região central de São Paulo, o Mexilhão (@mexilhaorestaurante) nasceu com uma proposta inusitada para uma área conhecida pela quantidade de cantinas italianas: oferecer frutos do mar e pratos tradicionais. Aqui não se esperem espumas ou outras acrobacias, muito menos design e arquitetura. As mesas e a decoração não mudaram desde o começo. No Mexilhão, oferecem-se pratos que sumiram de muitos outros endereços, como o camarão à grega, e abundância, um substantivo cada vez mais escasso. “Aqui não tem miséria”, como disse um amigo em recente almoço de meio de semana lá, em que se comeu uma paella para dois e ainda se levou a sobra para o almoço e janta do dia seguintes.

O frango de televisão de cachorro foi gourmetizado há tempos em São Paulo, mas ainda vive no Brazeiro (obrazeiro), na Vila Mariana, zona sul de São Paulo, onde se pode comer um frango assado e polenta frita em um ambiente que se mantém simples e despojado desde sua fundação em 1969. O sucesso da casa, cujo frango assado para duas pessoas custa 66 reais, levou à abertura de uma filial no Morumbi.

Nos Jardins, o Z-Deli (@zdelirestaurante) nasceu em 1981 oferecendo comida judaica. Fechou em 2023 para reforma e reabriu no fim do ano passado, com uma proposta diferente: pratos judaicos continuam no cardápio, totalmente reformulado sob o conceito de um bistrô sem frescura com comida da Europa Oriental, com preços e comida de ótima qualidade preço para uma cidade cada vez mais cara. Isso quer dizer o quê? Kibe cru de atum, alcachofras empanadas cobertas de queijo pecorino e aioli, latkes (panquecas de batata), peixe do dia com batatas fritas, hambúrguer. As caçarolas estão sob o comando do ótimo chef Benê Souza, que antes estava no Virado, no Largo do Arouche. Problema aqui são as longas filas. Nesse caso, a ideia é chegar ao meio dia ou reservar ou então se buscar uma mesa no meio da tarde.

No início de 1994, quando o Brasil vivia ainda os primeiros meses do plano Real, Giuseppe Rosa, aos 52 anos, abriu o Vecchio Torino (@vecchiotorinooficial). Pensou inicialmente em fazer um restaurante somente com pratos de sua cidade natal, Turim. Terminou optando por um cardápio mais abrangente, mas com foco no Norte da Itália. Arregimentou fãs ardorosos e também críticos contumazes. Uns se locupletam nos sabores familiares e emocionais, outros criticam o ambiente kitsch, os preços, as idiossincrasias, a preferência pelos clientes antigos que são assíduos e seriam privilegiados. Aos 31 anos, o Vecchio Torino mantém um gnocchi delicado e saboroso.

O que é um clássico? Na literatura, o escritor Italo Calvino sentenciou que é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer. Nos restaurantes, podem ser os endereços que trazem recordações, como as madeleines do escritor francês Marcel Proust.

Grazie, Giuseppe!

1 de Março de 2025

Cerca de 60% das empresas não sobrevivem após cinco anos no Brasil, segundo dados do IBGE. No setor gastronômico, a mortalidade empresarial é ainda mais alta: sete em cada dez negócios fecham as portas antes de completar o quinto aniversário. Quem sobrevive mais de três décadas então merece atenção especial, ainda mais quando sua história é recheada de mitos. Nossa, aquele restaurante? Mas é caro, não? É démodé, né? Não perdeu a mão?

No início de 1994, quando o Brasil vivia ainda os primeiros meses do plano Real, Giuseppe Rosa, aos 52 anos, abriu o Vecchio Torino. Pensou inicialmente em fazer um restaurante somente com pratos de sua cidade, Turim. Terminou optando por um cardápio mais abrangente, composto basicamente de pratos do Norte da Itália.

Arregimentou fãs ardorosos e também críticos contumazes. Uns se locupletam nos sabores familiares e emocionais, outros criticam o ambiente kitsch, os preços, as idiossincrasias, a preferência pelos clientes antigos que são assíduos e seriam privilegiados. “Faz tempo que não vai?”. “Lembra a minha infância, mas faz década”. “Tá na hora de voltar, não?” “Quando fui lá, eu era estagiário.” “Cada gnocchi eram dez reais.”

Quatro amigos resolveram tirar a teima numa sexta-feira do verão paulistano, ao redor de vinhos italianos e a comida de Giuseppe Rosa. O ambiente nesses anos mudou pouco: tem um quê dos anos pré-Real (a proteção de pano das cadeiras) com o kitsch que combina reproduções de quadros e uma cozinha simples, sem rococós.

O couvert vem à mesa: antepastos italianos e pão fresco com manteiga. “Fazia tempo mesmo que eu não via aqui, a gente chegava no meio da tarde de um domingo e eu perdia o domingo aqui.”

Finalmente, chega o último amigo. Emidio Pepe e seu trebbiano abruzzo 2015. “Eu sou mais Valentini, mas queria trazer esse aqui.” Servem-se as taças. “É um branco com alma de tinto, abrirá com o tempo, aqui tem tudo e um pouco mais.”

E o que comeremos? Gnocchi de entrada? Sim, sempre. “Talvez queira de entrada e de prato principal.” Pensa-se na arquitetura da refeição. Pede-se para abrir o rosso di Montalcino 2020 de Poggio di Sotto.

Chegam os pratos de gnocchi. Sente-se o aroma do molho fresco de tomates. Leva-se a massa à boca. “Nossa, isso tem o mesmo gosto da infância!” Come-se. Aprecia-se. Rememora-se. “Isso aí é um elogio forte, hein. A volta à infância.” “Tem Proust aí na versão italiana da nonna.”

Branco ou tinto? “Prefiro o gnocchi com o trebbiano”, diz um. Outro aquiesce. “Mas o tinto tem uma acidez aqui, não sei, não”, afirma outro.

Tempo de pedir para abrir a terceira garrafa: poderi alto conterno, Cicala 2001, um monforte d´alba há anos adegado, pronto para ser aberto em um momento diferenciado. Uns pedem o brasato, outros a codorna com risoto de trufas negras.

O vinho ainda jovem, com a elegância de uma Nebbiolo bem cultivada, o prato? “Não preciso aproximar do rosto para sentir a trufa.” “Isso aqui tá muito bom, hein, cacete.” Terminam-se os pratos. “Porra, podíamos vir aqui todo o mês hein!”

Aos 31 anos, o Vecchio Torino mantém uma cozinha de alto nível, com um gnocchi emocional e pratos muito equilibrados. É caro? Assim como vários outros da cidade, mas aqui há detalhes e diferenças que não se encontram nos outros. Quando vem a conta, não se sente, ou melhor, se faz uma pergunta: quando voltaremos?

Quando você fala isso em SP?

Grazie, Giuseppe!