@vinhosemsegredo ganhou mais uma plataforma: uma revista eletrônica, nascida da provocação de um discreto amigo do mundo do vinho que confessou sentir falta de ler artigos com mais fôlego e profundidade. Com o braço técnico do Claude na diagramação e a generosidade dos amigos que emprestaram suas mentes para textos, a publicação ganhou vida.
Será periódica? Não sei. Depende do tempo e, obviamente, do interesse de quemse aventurar por estas páginas. Por que não é paga? Sinceramente, porque se o fundador do Vinho Sem Segredo, Nelson Luiz Pereira, com toda a sua generosidade e vasto conhecimento, manteve um espaço gratuito por anos, quem sou eu para cobrar o que quer que seja? Se o leitor fizer questão de abrir a carteira, que gaste com as assinaturas de John Gilman, Jasper Morris e companhia.
Na edição, degustação de vinhos 2022 de Keller, villages tintos 2021 da Borgonha, os cinco produtores de Gevrey Clos Saint Jacques, as champagnes de David Léclapart, Bruno Giacosa em um 1995 no ápice, Mugnier e Glenn Gould, Vinicius de Moraes e coleções.
Se esta edição for filha única, que fique como o registro de uma bela conversa de mesa. Como ninguém é mais otimista que alguém que tem adega e espera sobreviver às garrafas estocadas, se for a primeira de muitas, que seja um brinde ao inesperado.
Em 1974, em Melgaço, extremo norte de Portugal, um punhado de estacas de madeira cravadas de forma simétrica ao redor de vinhedos em um hectare de terra transformou-se em assunto da população. Para alguns, a novidade se assemelhava a túmulos em um cemitério. Outros zombavam daquela “maluquice” de um funcionário público local chamado João Cerdeira.
Até aquele momento, as videiras na região de Monção e Melgaço ocupavam limites marginais dos campos destinados a outras culturas para alimentar as famílias. A Alvarinho, a uva hoje que se tornou um porto seguro de muitos enófilos que gostam de vinhos brancos com acidez, era um detalhe na paisagem. Inspirado no pioneirismo do Palácio da Brejoeira, no município vizinho de Monção, Cerdeira decidiu experimentar naquele pedaço de terra.
A história da Quinta do Soalheiro, que hoje comercializa mais de um milhão de garrafas entre Portugal e o exterior, nasceu dessa experiência. Em 1981, Cerdeira preparou o seu primeiro ensaio enológico sério em uma pipa de 500 litros. Avisado pela esposa de que a pipa não estava bem vedada, não deu muitos ouvidos à afirmação. Acabou perdendo todo o líquido por um fio de torneira esquecido aberto.
O contratempo não retirou o apetite pelo risco. No ano seguinte, em 1982, desalojou o automóvel Ford da garagem de casa para dar lugar a duas pipas. Nasceu ali a primeira colheita oficial do Soalheiro. As primeiras 300 ou 400 garrafas não foram vendidas. Tinham a função de escambo: serviam para trocar por azeite ou mantimentos na mercearia do vilarejo.
O pulo comercial surgiu de amigos, surpresos com o frescor e a elegância daquele “vinho aromático”. “Por que não rotular as garrafas e vender? Aí meu pai resolveu dar o próximo passo”, relembra Maria João Cerdeira, filha de João. Ela esteve essa semana em São Paulo em razão de eventos do Vinhos de Portugal e da importadora Mistral.
Veterinária por formação, ela conciliou por 25 anos o cuidado com os animais e a gestão da vinícola familiar. Sua entrada na empresa familiar, em 2004, deu-se sob um desafio. Ao ser convidada pelo pai para assumir as rédeas das vinhas, Maria João impôs uma condição que considerava audaciosa para a época: queria autorização para converter pelo menos uma parcela para a agricultura biológica. A resposta de João Cerdeira foi o sinal verde para voos altos. “Não tens uma, tens as vinhas todas.”
Há três décadas, muito antes de as palavras “sustentabilidade” e “biodinâmica” se tornarem jargões obrigatórios em relatórios corporativos, a Soalheiro já mapeava detalhadamente seus solos para reduzir o impacto ambiental. Hoje, após o irmão de Maria João ter vendido sua participação para se dedicar a novos projetos com o filho, cabe a ela gerir a propriedade, especializada em brancos com a uva Alvarinho.
A engenharia por trás do Soalheiro, no entanto, vai muito além de seus 15 hectares próprios de terra. Em uma região marcada historicamente pela fragmentação da propriedade, produzir 1,2 milhão de garrafas anuais exige trabalhar de perto com centenas de produtores locais. A vinícola transformou-se no que a própria família define como uma “família de famílias”: o Clube de Produtores do Soalheiro. O preço da uva – o quilo a quase dois euros – é o motor dessa relação.
Essa interdependência ganhou as páginas do livro Manta de Retalhos – Rostos do Alvarinho, lançado pela vinícola em 2023 para registrar em retratos e depoimentos de cada uma das 200 famílias que cuidam de mais de 750 microparcelas de terra cujas uvas fazem os 33 rótulos da vinícola. Essa preocupação em humanizar a cadeia produtiva é tão estratégica que a Soalheiro realiza um monitoramento demográfico e antropológico na região: estudam-se as linhagens e as gerações descendentes dessas 200 famílias parceiras. O objetivo é entender se os filhos e netos manterão o compromisso com a terra e se permanecerão na região, assegurando a continuidade desse quebra-cabeça humano e enológico. “Tudo é o território, é preservá-lo”, diz Maria.
Enquanto expande suas fronteiras técnicas para experimentos de viticultura extrema em altitudes de 1.100 metros, a Soalheiro mantém o foco em suas origens. As vinhas velhas originais, plantadas pelo pai sob os risos dos vizinhos em 1974, foram preservadas e, desde 2006, são usadas a cada ano no rótulo Primeiras Vinhas. Uma safra recente foi eleita o melhor vinho português em uma premiação da revista inglesa Decanter.
No jantar da última segunda-feira de maio, o Quinta da Manoella Branco 2024 foi o primeiro vinho servido. Caso fosse provado às cegas, poderia confundir o degustador que talvez pensasse se ele não seria francês e talvez até da Borgonha. Diante da observação, o enólogo Jorge Serôdio Borges sorriu com uma ponta de resignação e orgulho. “As pessoas ainda não acham que Portugal pode fazer esses vinhos.”
A frase sintetiza a revolução que redesenha o mapa vinícola português nesse século. Há trinta anos, vinho português era sinônimo de tintos e brancos rústicos. Se hoje o retrato mudou, deve-se a um movimento de vanguarda do qual Jorge e sua esposa, Sandra Tavares da Silva, são protagonistas.
A virada do milênio foi o estopim. Ambos integraram a gênese dos Douro Boys, grupo de enólogos que com técnicas modernas provou que o Douro era capaz de entregar vinhos de mesa de nível mundial e não apenas o icônico Vinho do Porto. Apesar do nome, havia mulheres no movimento, como Sandra, e sua amiga, Susana Esteban. A revolução tem outro detalhe histórico: o Marquês de Pombal instituiu o Douro como a primeira região vinícola demarcada e regulamentada do mundo em 1756.
Chegar ao clube do bolinha não foi fácil para Sandra. Antes de se consolidar como uma das enólogas mais influentes de Portugal, Sandra dividiu-se entre o esporte de alto rendimento e a moda. Entre os 10 e os 17 anos, jogou na seleção portuguesa de vôlei. Mais tarde, trabalhou como modelo profissional pela agência Ford Models. A timidez da infância foi vencida sob as luzes das passarelas e a pressão dos ginásios, mas o amor pela terra falou mais alto.
Sandra deixou as passarelas para graduar-se em Agronomia, com especialização em Enologia. A transição para o ambiente rural do Douro impôs barreiras invisíveis. Em um meio tradicionalmente patriarcal, enfrentou o preconceito por ser mulher e por seu histórico na moda.
A cumplicidade profissional com Jorge Serôdio Borges logo se transformou em parceria de vida. Conheceram-se em 1999, na festa que celebrava o fim da colheita da Quinta do Vale Dona Maria, onde ela trabalhava. Casaram-se em 2001 e fundaram a Wine & Soul, que agora completa 25 anos.
A decisão que selou o início da empresa ditou o norte do casal. “Em vez de uma casa, compramos um vinhedo”, recorda-se Jorge, que esteve essa semana em São Paulo em razão de evento do Vinhos de Portugal e da importadora Adega Alentejana. Adquiriram uma parcela de pouco mais de dois hectares em Vale de Mendiz, com videiras de mais de 90 anos e 45 castas misturadas. O trabalho de Jorge e Sandra é trabalhar vinhos com variedades diferentes de uvas em solos diversos. “É como uma orquestra, cada instrumento dá um tom”, afirma.
O batismo do Pintas teve ares da vanguarda de que participavam. Em vez de colocar o nome da quinta que compraram, decidiram nomear o vinho em homenagem ao cachorro pointer inglês do casal. Nasceu o Pintas, vinho que posicionou a Wine & Soul na elite do setor.
Após a consolidação do Pintas, o casal expandiu as operações ao assumir, entre 2008 e 2009, a gestão total da Quinta da Manoella, propriedade histórica fundada em 1838 e ligada à família de Jorge há cinco gerações. O nome é um tributo à primeira gestora daquelas terras. “Reinvestimos na ampliação dos terroirs nossos.”
De uma das parcelas centenárias nasceu o Quinta da Manoella Vinhas Velhas, um tinto de perfil tão fluido e elegante que surpreendeu o Angelo Gaja, um dos produtores preferidos de Mino Carta. Ao provar o vinho, o lendário viticultor piemontês não identificou a assinatura típica do Douro, marcada historicamente pela opulência. Intrigado com o frescor do rótulo, Gaja viajou a Portugal para conhecer a propriedade de perto e conhecer o casal por trás do vinho.
A ligação de Manoella com o mercado externo seguiu caminhos próprios. Numa vinda anterior ao Brasil, Jorge foi abordado por um casal. O marido apontou para a barriga da esposa e anunciou que a filha se chamaria Manuela. Comprou 18 garrafas Magnum (tamanho dobro do normal encontrado) do Quinta da Manoella Vinhas Velhas. Pediu que fossem assinadas pelo enólogo. Criou-se um ritual: a cada aniversário da menina, Jorge recebe uma foto da garrafa aberta, celebrando o crescimento da Manuela brasileira em paralelo com a evolução do vinho.
Para além das videiras, a mente de Jorge Serôdio Borges opera sob a lógica da alta performance e das pistas. O enólogo nutre uma paixão antiga pelo automobilismo. Nas pistas portuguesas, competiu profissionalmente e conquistou dois campeonatos nacionais de velocidade, correndo em troféus como o Fiat Punto e com modelos da Alfa Romeo. Questionado se a esposa teme o flerte constante com a velocidade, Jorge sorri: “Agora ela começou a se preocupar”, confessa. Nesse momento, está à espera do novo carro que está passando para ajustes, para ele participar de novas provas.
A obsessão pela velocidade o acompanha em suas viagens. Em novembro do ano passado, ao desembarcar em São Paulo a trabalho, sua agenda coincidiu com o Grande Prêmio de Fórmula 1 em Interlagos. Por meio de contatos locais, conseguiu um ingresso de última hora e assistiu, sob a forte chuva paulistana, à vitória de Max Verstappen.
Seu interesse também se volta para os clássicos. Em uma viagem recente à Suíça ao lado de um dos filhos, fotografou em detalhes um Aston Martin vintage, idêntico ao modelo de James Bond no cinema. Atualmente, seu projeto mais obstinado no asfalto é afetivo: localizar o modelo de automóvel que sua avó utilizava quando comandava a vinícola da família. A ideia é que se torne um dos veículos da propriedade, que também tem uma caminhonete reformada usada décadas antes.
Era quase a hora do almoço quando Michel Rolland chegou a uma pequena propriedade vinícola em Bordeaux, mais precisamente em Pomerol, em que nascem alguns dos mais prestigiados vinhos do planeta. Tinha visitado outras seis propriedades pela manhã e tinha mais outras três pelo resto da tarde.
Viajava no carro do jornalista John Carlin, da publicação inglesa Observer. Estavam sentados no banco de trás da Mercedez, dirigida por um motorista, algo inusual para um consultor de vinhos. Mas havia uma razão prática: em cada parada, Rolland provava seis, sete vinhos. “Provo em média cem vinhos por dia”, disse, acrescentando que tinha se tornado um mestre no ato de cuspir. A quantidade de paradas era grande: a carteira de clientes somava dezenas de vinícolas. Primeiro na França, depois fora.
Ao chegar à sala em que os vinhos eram feitos, o dono da propriedade em Pomerol estava nervoso, transferindo o peso do corpo de um pé para o outro. Rolland caminhou até as barricas, provou o primeiro vinho, inclinou a cabeça ligeiramente para o lado e cuspiu. Disse que o vinho talvez fosse sério demais. Bebeu outra amostra. “Bom”. No terceiro, também elogiou o resultado. O dono dos vinhedos parou de se mexer. Deixou um sorriso envergonhado cruzar o rosto. O jornalista John Carlin, que acompanhava a ronda naquele novembro de 2004, o comparou a um pai orgulhoso com um filho recém-nascido.
Naquele mesmo mês, o documentário Mondovino (disponível na Apple TV), de Jonathan Nossiter, chegava aos cinemas do mundo para discutir como os vinhos tinham mudado e se havia uma mundialização do gosto. Um dos personagens principais do filme era Rolland.
Uma cena virou polêmica: o consultor ria alto no banco traseiro de uma Mercedes preta, charuto entre os dedos, telefone no ouvido, prescrevendo micro oxigenação para qualquer produtor disposto a pagar pelos seus honorários — que, segundo o The New York Times, começavam em 30 mil dólares anuais. O jornal francês Libération o descreveu como mefistofélico. Para Aimé Guibert, produtor em Languedoc que Nossiter tratou como um dos heróis da resistência, o diagnóstico era ainda mais definitivo: “O vinho está morto. Sejamos claros: o vinho está morto.” Para alguns, o culpado tinha nome.
Rolland morreu na madrugada desta sexta-feira, 20 de março, em Bordeaux, de infarto. Tinha 78 anos. A imprensa especializada registrou o fim de uma era. Depois do Mondovino ter ganho repercussão, em 2006 o The New York Times fez um artigo sobre Rolland cujo título era contundente: “Satanás ou Salvador: Estabelecendo o Padrão da Uvas”.
Toda história tem duas versões. Em uma, Rolland é o agente da padronização global do gosto, o enólogo que percorreu dezenas de propriedades em cinco continentes, da Índia à Argentina, da Bulgária à Califórnia, levando na mala uma receita: esperar as uvas amadurecerem mais, reduzir a produção, trocar as barricas velhas por carvalho novo, buscar aquela textura aveludada que o crítico Robert Parker aprendeu a amar e pontuar e fazer o mercado vender.
Na outra versão, Rolland é o desbravador que fez vinhos em vários lugares do mundo e tinha talento para ser enólogo. Depois do lançamento do documentário, em 2005, a crítica de vinhos Jancis Robinson, que escreve há décadas no Financial Times, fez um perfil de Rolland. O enólogo acordava cedo. Começava a trabalhar às 7h30 e a última reunião terminava às 19h. Experimentava amostras e amostras de vinhos. Cuspia. Não titubeava em dar sua palavra final sobre o melhor. Foi descrito como “especialista em tintos extremamente maduros, concentrados, aveludados e, frequentemente, marcados pelo carvalho”.
A jornalista destacava que o trabalho de Rolland consistia em seguir as instruções de seus clientes para produzir vinhos tecnicamente superiores e de fácil aceitação. “Em segundo lugar, sua competência é manifesta. Ele pode ter produzido vinhos desastrosos em sua longa carreira, mas, até onde se sabe, nenhum chegou ao meu conhecimento”, escreveu Robinson, destacando que o trabalho dele melhorou a qualidade de vinhos em países como Argentina (o Clos de los Siete é um exemplo), Chile e Índia.
O mundo em que Rolland fez sucesso, nos anos 1990 e 2000, reunia novos hábitos e a chegada de uma nova geração sem espaço e paciência para aguardar décadas de evolução de um vinho em uma adega. As classes médias americanas, os emergentes sul-americanos e asiáticos descobriram a bebida sem a memória afetiva das gerações anteriores. A técnica central que usava não era misteriosa. Ao estudar várias safras de diversas regiões, encontrou um denominador comum: sol abundante, produção baixa, uvas colhidas no ponto de maturação plena.
Sua influência foi sentida por décadas, embora a partir da década de 2010 tenha sido declinante. Uma nova geração passou a buscar vinhos naturais, com mais acidez, o conceito de terroir se reforçou entre degustadores e a ideia de uma consultoria foi perdendo ímpeto. Ele continuou a assessorar, viajar e voar. Primeiro enólogo verdadeiramente global, seu legado será discutido por muito tempo ainda.