Posts Tagged ‘les amoureuses’

Jantar Borgonhês entre Amigos

19 de Novembro de 2014

É sempre bom reunir amigos em torno de uma mesa. Se a mesa for na Roberta Sudbrack e os amigos de bom gosto, tudo fica perfeito. A ideia partiu do aniversariante, o amigo Roberto Rockmann. Entusiasta de borgonhas e mencionado algumas vezes neste blog. O tema central não poderia ser outro, evidentemente, recheado com algumas preciosidades fora da Borgonha, de produtores renomados tais como: Didier Dagueneau (Loire), Krug (Champagne) e Castello di Ama (Chianti Classico).

Pouilly-Fumé de Legenda

Os trabalhos começaram com o branco acima. É difícil descreve-lo. Às vezes, nem parece um Sauvignon Blanc como normalmente conhecemos. Não tem aroma de maracujá, não tem um herbáceo acentuado, mas tem uma mineralidade incrível. Embora com seus dez anos de idade, a acidez é marcante. Os aromas são delicados e presentes sem qualquer interferência  da madeira, apesar de ser fermentado e amadurecido em barricas. Essas características caíram muito bem com os pratos de entrada.

A sublimação da elegância

Na sequência, o primeiro tinto. E que tinto! Nada menos que Les Amoureuses do craque Frédéric Mugnier. Aqui a feminilidade da comuna de Chambolle-Musigny é exacerbada ao extremo. O vinho anterior preparou magnificamente a boca para percebermos toda a delicadeza deste exemplar. Os aromas de rosas, frutas delicadas, especiarias sutis estavam lá. Em boca, a delicadeza era marcante e persistente. A tênue linha que separa a sutileza da falta de personalidade, do insosso, foi de uma execução cirúrgica. Poucos produtores (artistas) conseguem esta proeza.

O Rolls-Royce dos champagnes

Não quer correr riscos? Então sirva Krug. Espetacular, suntuoso, sedutor, e tantos outros adjetivos. Ele tinha que seguir após o Les Amoureuses. É muito marcante, e muito envolvente. Só mesmo o Sílex com aquela sutileza peculiar para não interferir na apreciação do primeiro tinto. Voltando ao Krug, a Grande Cuvée é seu vinho mais emblemático, o retrato fiel da Maison, a regularidade e a fidelidade ao estilo Krug. Dentre os diversos aromas e sabores proporcionados por essas mágicas borbulhas, as notas sutis de gengibre são pessoalmente marcantes. A combinação com o prato abaixo foi sublime. Aliás, poucos pratos não combinam com um Krug.

Sabores autênticos e sofisticados

Neste ponto do jantar chega o divisor de águas. Agora é hora de separar os homens dos meninos. Na mesa, um dos mitos da Borgonha. Le Musigny do purista Mugnier novamente. Num paralelo bordalês, Musigny está para Chambolle assim como Margaux está para a comuna homônima. São terroirs que primam por delicadeza, mas que nestes respectivos exemplares apresentam uma firmeza e força arrebatadoras. Este tinto da Borgonha é um dos poucos capazes de desafiar o mito Romanée-Conti. Seus aromas  parecem  nos certificar que os sabores serão intensos e profundos. A mineralidade (toque terroso dos grandes borgonhas), sua estrutura tânica incomum, e sua expansão em boca, tentam de forma superficial descrever um pouco de sua complexidade. Foi sem dúvida, o ponto alto do jantar.

Delicadeza e força se fundem no inexplicável

Na sequência de tintos, seguiram-se Chambertin Grand Cru 2007 do produtor Bertagna e Domaine Courcel Grand Clos des Épenots Premier Cru, respectivamente. O primeiro, o único infanticídio da noite. Um vinho que promete, muita concentração e elegância. Seus aromas foram desabrochando lentamente nas taças, mostrando que sua evolução é inexorável. Por último, o estupendo Pommard de Courcel, referência nesta apelação. Os aromas de evolução denotando trufas, alcatrão e mineralidade, lembraram os grandes Barolos. Foi o grande parceiros dos queijos que finalizaram a refeição. A safra 1990 dispensa mais comentários.

Castello di Ama: Propriedade irretocável

Fechando com chave de ouro, o Vinsanto Castello di Ama. Vinícola irretocável na região do Chianti Classico (Gaiole in Chianti). Foi um dos Vinsantos mais delicados já provados com comedidos treze graus de álcool (normalmente, espera-se entre 15 e 16 graus alcoólicos). Os aromas nobremente oxidados tinham como linha mestra notas de figos em compota. Portou-se muito  bem não só com os queijos, como as sobremesas delicadas.

Realmente, um jantar memorável. Esses momentos é que fazem verdadeiramente a vida ter sentido. Que venham outros nesta mesma emoção!

A satisfação do aniversariante anfitrião

Lembrete: Vinho Sem Segredo na Radio Bandeirantes às terças e quintas-feiras. Pela manhã, no programa Manhã Bandeirantes e à tarde, no Jornal em Três Tempos.

Chambolle-Musigny pelo maestro Mugnier

21 de Agosto de 2014

Mais uma aula de Borgonha inspirada pelo amigo e aficionado no assunto, Roberto Rockmann. Juntamente com Lucas Gavião e o onipresente doutor Cesar Pigati, formamos o quarteto para a orquestração. Tema: Chambolle-Musigny. Maestros: Mugnier e Roumier. Safra: a abordável 2009. Degustação às cegas, sem partituras.

mugnier 2009

Mugnier: A essência de Chambolle-Musigny

Finalmente, a degustação fez-me entender o que é um Mugnier. Embora fosse um vinho comunal, pude vislumbrar seus tintos de maior quilate como Les Amoureuses ou o enigmático Musigny Grand Cru. Este exemplar é o típico vinho didático, de sala de aula. Expressa com perfeição o que é a delicadeza e feminilidade de um autêntico Chambolle-Musigny. A boca é fresca, sedosa, toda em sutileza. Os aromas florais, de frutas vermelhas delicadas e um bouquet garni de especiarias doces, formam um triunvirato em perfeita harmonia. Muito cuidado na harmonização para não destoar nenhuma nota.

roumier 2009

Roumier: Tipicidade confusa

Já o meu favorito a priori, antes da degustação começar, perdeu-se um pouco em sua tipicidade. A despeito de ser um belo vinho, mostrou-se como uma mulher muito austera, fria, tentando sustentar uma seriedade que não possui. Faltou feminilidade. De fato, de início, um pouco fechado e misterioso, tanto em boca, como nos aromas. Seus taninos, bem presentes, pareciam por demais extraídos, não tendo sustentação com os demais componentes. Faltou algo mais sedutor e sua tipicidade ficou em xeque.

chambolle na taça

Mugnier: cor tênue na taça A

As considerações no que diz respeito à interpretação do terroir são importantes para entendermos a degustação. Frédéric Mugnier utiliza parte das uvas de um de seus vinhedos classificado como Premier Cru, mas ele resolveu vinifica-las como Village, o que confere mais personalidade ao conjunto. Outro ponto importante é o desengaço total das uvas para posterior vinificação. A extração de taninos é a mais suave possível e a madeira procura ter um mínimo de interferência. Já Roumier, imprime uma extração mais potente e pratica um desengaço parcial das uvas. A própria diferença de cores entre as duas taças evidencia estas observações.

louis carillon puligny

A elegância de Puligny-Montrachet

Para complementar e enriquecer a harmonização do jantar, tínhamos também um  belo branco de Puligny-Montrachet, do produtor Louis-Carillon. Trata-se de um Premier Cru 2006 Les Perrières. Este vinhedo confunde-se na comuna de Meursault, proporcionando diferenças sutis. No lado de Puligny, predominam a elegância e sutileza. Já os Meursaults, a intensidade e potência tornam-se mais presentes. Cometemos um pequeno infanticídio, pois o vinho tem muita vida pela frente.

Lembrete: Vinho Sem Segredo na Radio Bandeirantes (FM 90,9) às terças e quintas-feiras. Pela manhã, no programa Manhã Bandeirantes e à tarde, no Jornal em Três Tempos.