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Os caminhos da Grenache

22 de Setembro de 2016

Grenache ou Garnacha são os nomes familiares para uma das uvas tintas mais plantadas no mundo. França e Espanha lideram sua profusão em regiões especificas de cada país. A lista de sinônimos é imensa, sendo por exemplo a Cannonau seu nome na Sardenha, ilha do sul da Itália. Quanto à sua origem, as informações convergem para o território de Aragon, zona nordeste da Espanha.

Geneticamente, a Grenache gera vinhos de baixa acidez, moderada tanicidade, e alto teor alcoólico. Destes fatores, os vinhos costumam ser macios, quentes, e quando mal vinificados, um tanto pesados. Aromaticamente, são verdadeiras bombas de frutas bem maduras em compota, geleias, lembrando morangos, ameixas, framboesas, entre outras. Os aromas de especiarias, ervas e toques empireumáticos como chocolate ou cacau, costuma aparecer com o envelhecimento.

grenache-noir

características da Grenache

Seus vinhos prestam-se tanto a cortes, bem como no estilo varietal. O famoso corte GSM (Grenache, Syrah e Mourvèdre) é amplamente difundido no Rhône Sul e na Austrália, por exemplo. Um dos fortificados mais famosos, talvez o mais famoso da França, vem desta uva na região fronteiriça da Espanha chamado Banyuls, o vinho do chocolate, uma harmonização clássica.

O amadurecimento desta uva é tardio, necessitando portanto de regiões quentes, sobretudo na Europa. Qualquer fator de terroir que beneficie a amplitude térmica é capaz de gerar vinhos diferenciados que promovam o equilíbrio gustativo tanto esperado. Não convém trata-la em cantina com excesso de madeira por dois motivos básicos. Primeiro, que o vinho já é rico aromaticamente, não necessitando de mais aporte de aromas. Segundo, não há necessidade de domar seus taninos, naturalmente dóceis. E mais ainda, o aporte da micro-oxigenação não é bem-vindo para vinhos que se oxidam com facilidade.

Existe um dia no calendário para sua comemoração, Grenache Day, toda terceira sexta-feira do mês de setembro. Recentemente, o crítico de vinhos Robert Parker, deu um empurrão, um incentivo para o consumo de seus vinhos, promovendo uma famosa degustação em território espanhol, quando todos pensavam que ele optaria por vinhos com a onipresente tinta da Espanha, Tempranillo.

No Brasil, além de França e Espanha, temos bons exemplares desta uva em vinhos australianos. Só para citar dois exemplos, um vem de Clare Valley e outro de MacLaren Vale, dois terroirs de destacada amplitude térmica, ou seja, a tão bem-vinda preservação da acidez no vinho.

Clare Valley é uma região de altitude a norte de Barossa Valley. Um dos destaques da região é o cultivo de Rieslings muito interessantes, uva difícil fora de seu terroir original. O próprio Shiraz da região tem um frescor notável se comparado aos potentes Shiraz de Barossa. Neste sentido, o vinho abaixo, Kilikanoon Prodigal Grenache 2012, importado pela Decanter (www.decanter.com.br), parte de vinhas antigas com 60 anos de idade. O resultado é um típico Grenache com tudo no lugar. Bela expressão de fruta, especiarias e ervas, além de um equilíbrio gustativo muito destacado. Frescor e taninos na medida certa e uma dose de madeira bem adequada ao vinho, jamais sobrepujando a fruta. Um final agradavelmente quente.

kilikanoon-grenache-2012

Grenache bem moldado

clarendon-grenache-2009

australiano diferenciado

McLaren Vale apesar da proximidade de Barossa Valley goza de um certo frescor no clima, sobretudo as brisas que sopram do mar à tarde. Some-se a isso, parreiras antigas e um produtor de respeito como Clarendon Hills. Roman Bratasiuk, proprietário da vinícola, é amante e conhecedor de grandes vinhos mundo afora. Por isso, sabe exigir de seus vinhos o quanto eles podem oferecer. E não deixa por menos, classifica os mesmos como Borgonhas: Grand Cru, Premier Cru e Cru. Evidentemente, não é nada oficial, mas a exigência pessoal fala mais forte. Esse Clarendon Grenache 2009, apenas um Cru,  mostra principalmente, como um bom australiano pode envelhecer ganhando complexidade. A cor ainda é bem conservada, viva, e brilhante. Seus aromas são fascinantes com fruta bem focada, toques de ervas e especiarias lembrando louro, casca de laranja, e um toque carnoso muito interessante. Em boca, seu equilíbrio é invejável. Acidez refrescante, taninos bem polidos e álcool cumprindo bem sua função de maciez. Persistente, profundo e harmônico. Importado pela Vinissimo (www.vinissimostore.com.br).

rayas-90

vinhas antigas 100% Grenache

O vinho acima é para aqueles que podem alçar voos mais altos, Chateau Rayas de uma bela safra como 1990. Este é um Chateauneuf-du-Pape de extrema tradição elaborado somente com Grenache de parreiras muito antigas. Seus rendimentos são baixíssimos (em torno de 15 a 20 hectolitros/hectare) e o amadurecimento das uvas extremo. O terroir é muito peculiar. Fica ao norte da apelação com vinhedos próximos a um bosque. Esse fato faz com que as noites sejam frias, provocando grande amplitude térmica e prolongando ao máximo o amadurecimento lento das uvas. Como resultado, o vinho ganha frescor, complexidade aromática e estrutura tânica para longo envelhecimento em garrafa. Importadora Mistral (www.mistral.com.br).

Como recomendação de serviço, evite decantar vinhos com esta uva com a finalidade de aeração ou oxigenação. Ao contrário da Syrah, uva extremamente redutiva, vinhos calcados na casta Grenache tendem a oxidar-se facilmente. Portanto, nada de demora se o vinho for realmente decantado. Seus aromas mostram-se com muita facilidade.


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