Archive for Novembro, 2023

Clos de Tart, monopole histórico

10 de Novembro de 2023

Qual o vinho que fez você se apaixonar pela Bourgogne? No meu caso, foi um Clos de Tart 1998, bebido em 2008. Com dez anos de vida, mostrava aromas florais, animais, minerais, de trufas. Na boca, era interminável, tão longo que logo se apontava um defeito: aquele vinho devia ser feito em garrafas Magnum ou double Magnum, assim haveria mais e mais para beber.

Mapa do “assemblage” da safra 16

Qual o melhor vinho jovem bebido? Também no meu caso foi outro Clos de Tart, dessa vez 2005, bebido com menos de três anos de vida, um infanticídio consentido por um amigo de um vinho soberbo, com taninos de seda envolto em um corpo possante, aromas de violeta com trufas e uma fruta que não terminava. Também vinha com o mesmo defeito: a garrafa tinha apenas 750 mililitros e era compartilhada em cinco.

Ambos foram feitos por Sylvain Pitiot, que assumiu o comando do Domaine em 1996, tendo aí feito sua primeira safra. Estudioso da região, com livros e mapas publicados, dividiu os 7,5 hectares do terroir, o maior grand cru em monopólio da Bourgogne, em seis parcelas, com cada uma propiciando um lado para o grande vinho. Depois da “assemblage” das seis parcelas, o Tart é vinificado em 100% de madeira nova por 18 meses até ser comercializado.

O comando do Domaine mudou há dois anos: Sylvain Pitiot se aposentou e agora trabalha de consultor em alguns projetos sociais pelo mundo, tem viajado para o Tibet. Jacques Devauges, que fazia os vinhos do Domaine Clos de l´Arlot (cujo branco em Nuits Saint Georges despertou a vontade de Frédéric Mugnier de criar o Maréchale branco) assumiu a vinificação (deixou o comando do Clos de Tart em 2021 para assumir o vizinho Clos de Lambrays).

Desvauges não fez grandes mudanças, nem alterando a degustação que é feita com exclusivas meia garrafas. Nos tempos de Pitiot, se fazia uma piada dizendo que o Tart era Clos de Tard, se referindo à preferência de Pitiot por colher as uvas mais tarde do que seus vizinhos, em alguns casos uma semana depois do vizinho Clos de Lambraÿs. Agora a data de colheita está igual aos outros. “Não se pode fazer mais essa brincadeira”, sorri Devauges.

A degustação da safra 2016, em barril, é didática. Começa com a parcela que fica perto da RN 74 ao lado do Bonnes Mares de Bruno Clair. Passa pela parcela mais ao norte em que o Clos fica próxima do solo vermelho de Bonnes Mares, um outro vinho, e vai até o outro lado do muro em que o vizinho é o Lambrays. Daria para fazer seis vinhos diferentes, tais as nuances do terroir. “Seria estupidez, juntos eles criam um vinho único”, destaca. Para um amigo, o Tart é o custo benefício quando o bolso não é fundo o suficiente para se comprar um Romanée-Conti. Alia a potência de um Chambertin com a elegância de um Musigny. Vizinho do Lambraÿs, ele é mais incisivo, mais profundo e mais complexo que o rival de mureta. Nos anos menos solares, como 1998, 2001, 2008, produz vinhos de se perder o fôlego.

O 2016 esbanja fruta, um fim longo e taninos suaves, enquanto o 2015 mostra como é primário, com uma fruta interminável e um leve toque de chocolate. O Domaine, que mantém em repouso por 30 anos até a comercialização, seu Marc de Bourgogne, começou a partir de 2011 a produzir um Fine de Bourgogne, que será vendido apenas em 2041. As quantidades são ínfimas. Encontrá-lo é uma tarefa difícil, o lugar mais apropriado na Bourgogne é na Athaeneum, em Beaune.

Vendido no fim de outubro de 2018 por 250 milhões de euros para François Pinaud, dono do Château Latour e do Domaine Eugénie (ex-René Engel, em Vosne Romanée), o Tart tem tudo para continuar no seleto grupo dos grandes vinhos da Bourgogne. Só falta ganhar na mega sena para comprar apenas garrafas magnums.

Domaine Fourrier: a regra Soldera

10 de Novembro de 2023

Gianfranco Soldera faz um dos mais famosos vinhos da Itália. Os críticos gostam de dizer que, mais do que um brunello, ele faz um brunello de assinatura Soldera. Há uma regra aos que o visitam:  não se cospe o que se bebe ali. Porque Soldera diz que só se cospe vinho ruim. Quem quiser cuspir o faça em outro lugar e não o faça perder tempo. Na Bourgogne, não se aplica a regra da Toscana, mas não pude deixar de pensar nisso, ao sair, às 11 horas da manhã de uma terça-feira de outubro da degustação de mais de 20 rótulos do Domaine Fourrier e de seu braço de negociantes. Bebi todos.

Jean Marie Fourrier assumiu o comando do Domaine em 1995, depois de um estágio de três anos no fim da década de 1980 com a lenda Henri Jayer, do qual se lembra mais dos esporros levados do que dos ensinamentos recebidos. Ao contrário de Jayer, não usa 100% de madeira nova, Fourrier busca usar 20% no máximo em cada um de seus vinhos, sejam eles apelações village, sejam grands crus.


Pouco conhecido nos restaurantes e nos cavistas da França, fora do radar dos guias franceses, ele tem seus vinhos disputados no mundo inteiro. Agora a tarefa de comprá-los tornou-se mais fácil: em 2011, ele adicionou um braço negociante, com foco em comprar uvas de terroirs em Chambolle-Musigny, Vosne-Romaneé e ampliar sua coleção de grands crus. Assim Fourrier hoje produz no lado negociante alguns reputados vinhos: faz Amoureuses, Chambertin, Charmes-Chambertin, Latricières. Os vinhos estão um pequeno degrau abaixo dos do Domaine, mas daqui uns anos talvez estejam no mesmo patamar.
Na didática e extensa degustação da safra 2016, em barril, algumas estrelas se destacam. O Gevrey Chambertin Vielles Vignes, de vinhedos plantados entre 1928 e 1955, é um dos melhores villages de toda a Bourgogne, refinado, profundo, gastronômico e o mais fácil de ser encontrado no mercado (o Domaine tem vinhos vendidos desde o fim de 2020 no Brasil pela clarets.com.br).


O Aux Échezeaux proporciona um vinho mais fácil, mais redondo. O Vougeot Petits Vougeots vem de um vinhedo bem perto de Amoureuses, com alguns vinhedos com mais de 80 anos. O Chambolle Musigny Les Gruenchers conjuga o lado mineral (terroir próximo de Fuées) com a delicadeza de Charmes, outro vizinho.

Entre os premiers crus de Gevrey, o Goulots se destaca pela mineralidade, o Combe aux Moines, pelo lado mais masculino e animal, o Cherbaudes, pela elegância, o Champeaux, pela concentração fruto dos vinhedos com quase 100 anos de vida, e o estupendo Clos Saint Jacques, pela complexidade. Um dos cinco proprietários desse mítico terroir, que produz um vinho que para muitos é um grand cru, o Saint Jacques de Fourrier tem algumas uvas plantadas em 1910, o que permite, em alguns casos, como na safra 2015, produzir algumas poucas garrafas de Clos Saint Jacques Vignes Centenaires. Ele é o menor produtor da apelação, com 0,89 hectares. Aqui está o grande rival do Rousseau, em um estilo bem diferente. Provocação: Fourrier é Mugnier, Rousseau é Roumier?

O Griottes Chambertin, um dos mais raros grands crus de Gevrey, cuja produção total soma 1000 caixas em um bom ano, tem toda a elegância desse terroir, em um estilo diferente do produzido pelos Dugats. A paleta dos grands crus, ampliada pelo lado negociante, tem dois destaques: o Amoureuses (sim, para mim é um grand cru, apesar de a legislação dizer que não), um vinho que ainda ganhará muito com as mãos de Fourrier, e um grandioso Chambertin.

Não sei por quê, mas minha sensação foi próxima à que tive quando visitei Frédéric Mugnier, o que não pude deixar de compartilhar na visita. Os vinhos de Fourrier são sutis, delicados, elegantes, emocionantes, não têm peso, nem álcool, que são poemas líquidos e que integram uma partitura, cada um compondo uma música de uma trilha sonora criada por um maestro. Assim como não se jogam fora livros que fizeram sua vida, não se deixam de lado amizades de anos, não se esquecem músicas da adolescência, não se cospem vinhos de gênios.

Latour-Giraud: Meursaults fora do radar

9 de Novembro de 2023

(Originalmente publicado em pisandoemuvas.com)

Há produtores que estão fora do radar das principais publicações, não fazem barulho como outros vizinhos, nem têm suas alocações vendidas meses antes de os vinhos chegarem às prateleiras. Quando aparecem notas a seu respeito, ganham curtos parágrafos, mesmo que elogiosos. Esse é o caso do Domaine Latour-Giraud, com mais de três séculos de história e com a maior área de produção de Genevrières, prestigiado premier cru de Meursault, hoje uma das cidades mais disputadas pelos enófilos por causa dos vinhos cada vez mais estrelados de Jean Marc Roulot, Arnaud Ente, Coche Dury.

Pierre Latour comanda o Domaine Latour-Giraud, que fica na antiga rua que abrigava um leprosário em Meursault. Hoje a rue de l´hopital não existe mais, tendo sido substituída por uma vicinal que corta a cidade e a interliga às cidades de Volnay e Puligny-Montrachet. Nem o GPS tem o Domaine no seu radar. Sorte que o senhor parado por nós sabia como se chegar lá.

Pierre Latour é um homem de cerca de 60 anos, educado e curioso. Nunca tinha recebido brasileiros e queria saber o que nos tinha levado lá. Com cerca de 85% da produção voltada para brancos e 15% para tintos, o Domaine faz Meursaults em um estilo diferente dos feitos por Roulot. Talvez um estilo entre Roulot e Lafon. São vinhos brancos feitos para a guarda, com fruta e um estilo menos mineral, muito gastronômicos. A safra 2014 é considerada por ele uma das melhores dos últimos anos. Em 2015, são vinhos mais acessíveis na juventude, talvez semelhantes aos 2009, sem grande capacidade de envelhecimento.

O Meursault Cuvée Charles Maxime é daqueles vinhos que os críticos pontuam com 89 a 90 pontos, mas que são a mostra de que pontos funcionam no basquete, não nas taças. Um chardonnay gastronômico, opulento, refinado e mineral, de comprar de caixa. O Les Narvaux é mais mineral, outro também para se comprar de caixa. No terreno dos premiers crus, o primeiro a desfilar é o raro Bouchères, com um toque mais acentuado de frutas secas; o próximo é o Poruzots, mais gordo; depois chega o suculento e profundo Charmes.

Pierre Latour comenta que o preço da terra na Bourgogne está cada vez mais alto. Um hectare de premier cru Charmes, em Meursault, pode custar um milhão de euros, o que cria um grande problema para os domaines familiares. A lei de transmissão na França recolhe 30% dos bens a serem herdados para seus cofres e põe pressão sobre o futuro em uma atividade de capital intensivo e sujeita às intempéries da natureza. Pressão ainda maior desde o início da década, quando as safras foram menores do que a média.

O preço alto do terroir faz com que a geração que assume um Domaine tenha de desenhar estratégias para se manter no comando: pode-se vender parte do estoque nas caves, pode-se vender 20% a 30% do domaine para outros viticultores, pode-se chegar até a vender o Domaine todo, tentação para pessoas que nunca viram um cheque tão alto. “Isso preocupa muito e isso traz grandes problemas para a Bourgogne, que é artesanal”, diz Pierre, pai de duas meninas. Ele quer manter a tradição familiar.

Antes de chegar ao Meursault Genevrières, a razão de nossa visita ao Domaine, Pierre Latour abre um Puligny Champs Canet, um dos mais refinados Pulignys, com um toque floral delicado. “É bom ter a oportunidade de fazer um vinho fora de Meursault”, afirma. Com dois hectares e meio de Genevrières, ele resolveu vinificar duas parcelas desse terroir: a normal e a chamada Cuvée des Pierres, geralmente quatro barris de vinho, com as uvas com mais de 50 anos. São dois vinhos distintos, ambos refinados, elétricos, com acidez que mostra um potencial de envelhecimento superior a uma década. Muito interessante seria colocá-lo às cegas em uma degustação com o Perriéres de Jean Marc Roulot.


Os vinhos não vêm para o Brasil, mas são facilmente encontrados nos Estados Unidos e se configuram em barganhas em relação aos preços que Roulot e companhia estão cotados hoje. Pierre Latour não está no radar de muitos, mas definitivamente entrou no meu.

Merci beaucoup, Joël Robuchon

9 de Novembro de 2023

(Originalmente publicado em pisandoemuvas.com em 6 de agosto de 2018, na morte de Joël Robuchon)

Houve um tempo em que não existiam aplicativos, em que a internet ainda engatinhava, em que as companhias aéreas não cobravam para se marcar o assento, em que não havia Trivago e afins, em que o São Paulo era campeão ano sim, ano sim. Faz quase uma década e meia. Foi quando pisei pela primeira vez no Atelier de Joël Robuchon (naquele momento havia apenas um, em Saint-Germain), dica de Amauri de Faria, que, sempre escasso em elogios, disse que Röbuchon e Senderens eram obrigatórios e que o primeiro não errava, quaisquer endereços colocasse seu nome.

A reserva foi marcada para meio dia e meia. A pé cumpri o quilômetro que distanciava o hotel até o endereço em que minha vida mudou. Sentei-me num balcão. Ofereceram uma taça de champagne: Bruno Paillard première cuvée (vendida pela sempre confiável Taste Vin). Abri o cardápio, mas não cheguei a prestar atenção, porque queria saber do garçom o que ele recomendava naquela quinta-feira. Havia uma proposta de alguns pratos que tinham ficado famosos nas mãos de Robuchon.

E o prato principal, um cordeiro de leite, viria com o purê de batata, que poderia ser repetido quantas vezes fosse necessário, não haveria problemas, assegurou o garçom. “O que tem num purê de tão especial?”, perguntei, sem saber de um dos pratos assinatura do chef. “O senhor saberá”, sorriu.

Os lagostins em raviolis trufados e couve flor vieram, o atum, o caranguejo real, veio também pela primeira vez um Meursault. Conhecia de nome a vila da Bourgogne. O produtor era então um desconhecido: Jean Marc Roulot. O vinhedo ainda mais ininteligível: Clos Tessons de mon Plaisir. “Bate muito premier cru às cegas”, disse o sommelier. Me fiz de entendido, mas quando levei à boca entendi que havia vinhos sobrenaturais, que talvez se chamassem premiers crus.


Vieram o cordeiro de leite e o purê. Na primeira garfada, veio o silêncio. Na segunda, a emoção. Na terceira, a constatação: comida e vinho podiam rimar com algo indecifrável, que levava a imagens, sons, gostos, prazeres, amores, emoções, livros, filmes. Perdi o chão. Fui arrebatado por uma paixão incontrolável que une  comida e vinho. Paixão que só cresce, mas que começou mesmo ali na esquina da rue Montalembert número cinco, a alguns quarteirões do Sena.

Por anos, mandei uma legião de amigos e amigas irem para Paris e descobrirem Robuchon, de quem até Odete Roithman, protagonizada pela genial Beatriz Segal, era fã. Não tive a oportunidade, a idade, o conhecimento ou o dinheiro para descobrir Robuchon no Jamin, onde ele fez sua fama e onde ele comandava a cozinha todos os dias com rigor, técnica e emoção. Roberta Sudbrack teve essa sorte.


Eu tenho outra sorte: a de ter por tantos e tantos anos vivido a arte de Roberta, autodidata que aprendeu lendo os livros do hoje lendário Robuchon, no RS, na Lineu Paula Machado, 916, que por tanto tempo chamei de minha casa no Rio de Janeiro.

Espero que minha sorte seja ainda maior e que possa viver muito mais da arte de Roberta no seu novo endereço no Jardim Botânico, onde ela alça novos voos, feliz da vida.

A lenda Robuchon, chamado de maior chef do século XX por publicações francesas, sobreviverá em seus discípulos e nas memórias de quem passou por suas mesas e suas criações.

Merci beaucoup!

PS: quem quiser ter um gostinho do que foi o Jamim, leia esse texto aqui: https://bradspurgeon.com/articles-as-opposed-to-posts/a-dinner-at-robuchons-jamin/