Archive for Novembro, 2024

As krugs entre Chambolles

22 de Novembro de 2024

A ideia original era realçar as sutilezas de Chambolle-Musigny e pôr em perspectiva uma degustação ocorrida dez anos antes, mas intenções se esvaem nos céus quando o início se faz com as quatro letras do universo enófilo: Krug.

Se na bíblia do enófilo deveria estar inscrito que tudo se inicia com Champagne (duas exceções à regra, ambas italianas), no Gênesis do afortunado deveria estar que iniciar com Krug é certeza de ver o céu, mesmo sob mau comportamento.

O primeiro duelo trouxe uma Krug antiga (156? Ou 164?) – cujo rótulo não tem a marcação da edição e comprada fora não trazia nenhuma outra indicação – e uma jovem – a edição 171, assemblage de 131 vinhos de 12 anos diferentes, sendo o mais novo de 2015, enquanto o mais antigo data de 2000.

Na juventude, a Krug esbanja acidez, cítricos e o toque exótico de gengibre, enquanto a maturidade concede a grandeza que o tempo permite apenas alguns chegarem. Na linguagem cinéfila: Margaret Qualley, protagonista de ‘A Substância’, que interpreta uma versão mais jovem personagem de Demi Moore; já a com idade me remeteria à Grace Kelly de “Janela Indiscreta”, na cena em que ela leva uma quentinha e um Montrachet ao fotógrafo voyeur.

Há muitas incertezas na vida, mas uma certeza enófila: uma Krug jovem sempre deixará incomodadas as próximas garrafas, uma bem conservada e com alguns anos de adega se torna um dos vinhos grandiosos, com poucos rivais no mundo em brancos, tintos. Num mundo em que Montrachets saem por preços cada vez mais astronômicos, um champagne desse se torna uma saída infalível. Ambas podem sobreviver décadas e podem acompanhar de salmão defumado a foie gras, de peixes a aves, do silêncio à contemplação, na dor e na alegria.

O que pode ser melhor depois dessa abertura? Uma Krug de uma safra excelente, como a 2008. Aí é melhor deixar com o especialista que Olivier Krug chamou de “o nerd do mundo do vinho” – Mr. John Gilman, nota de 2023, com 98 pontos e que ele classificou que sua janela de consumo se abre em 2030. “The 2008 Vintage bottling from Krug just continues to get better each time I am fortunate enough to taste it. I last tasted this wine a year ago and it has not seemingly aged a bit since that time, as it remains a glorious vintage here that will demand plenty of patience before it properly blossoms. The bouquet remains beautifully precise and bottomless, offering up scents of apple, tart pear, lemon, a beautiful base of chalky minerality, patissière, dried flowers, blossoming smokiness, just a touch of caraway seed in the upper register. On the palate the wine is deep, full-bodied and structured, with a snappy girdle of acidity, a rock solid core, great mineral drive and grip, elegant mousse and a very, long, bright and seamlessly balanced finish of enormous potential complexity. All this great, great vintage of Krug needs is more time alone in the cellar.”

Parêntesis: (1) A envelhecida chamou tanto a atenção de um amigo, que ele, que mal pega o celular sobre a mesa, passou minutos tentando decifrar de que edição era a Krug. 2) Depois de ter bebido 4 rótulos da casa em duas semanas, eu, obrigado a dar notas, daria de 95 a 98 às quatro, com uma briga dura entre a envelhecida e a Rosé edição 24 no segundo lugar, mas as quatro entre as quatro melhores do ano em borbulhas, com a 2008 o melhor vinho que eu bebi esse ano, se a memória não falha.)

No capítulo dos brancos, tivemos três estilos de Chardonnay. O novo mundista Montelena, uma propriedade histórica da Califórnia, participante do Julgamento de Paris, em 1976, ganhador daquela degustação. Um vinho interessante a US$ 40, mas se entrevê que hoje alguns outros californianos jogam numa outra liga e poderão dar trabalho, às cegas, aos bourguignons (e não é só rótulo de Rajat Parr e seu ótimo Sandhi).

Sylvain Pataille e seu Marsannay branco da safra 2020 ainda mostra contenção, um vinho a se reencontrar porque aqui está um dos poucos produtores da Borgonha que vinificam bem em branco, tinto e rosé e em três uvas (seus aligotés são muito bons). Há estrutura aqui.

Às cegas chega o belo vinho de Tissot, Les Graviers, da safra 2020, um Jura que em tempos de provável guerra comercial entre Estados Unidos e seus parceiros poderá se tornar um imbatível qualidade preço, ainda mais diante do câmbio em que os próximos contêineres bourguignons serão fechados…

Passados champagnes e brancos, chega a hora do tema do encontro: pelos campos do senhor. Antes de passar aos dois protagonistas, a abertura com Anne Gros e seu chambolle combe orveau 2017, um elegante e delicado vinho, com toque de violeta e ainda fruta negra. O Brasil recebeu tantos novos produtores da Borgonha e Anne ainda não tem seus vinhos representados de forma contínua e adequada no Brasil, uma pena. Seu Richebourg 2000 é um dos grandes vinhos bebidos pelo site.

Feita a introdução à cidadela cujos vinhos são descritos como os mais femininos da Borgonha, chega a hora dos protagonistas: chambolles 2009, um de Frédéric Mugnier, outro de Christophe Roumier, quase vizinhos na cidade de pouco mais de 250 habitantes.

Há dez anos, no chef Vivi, levei às cegas as duas garrafas para o Nelson experimentar. Ele nunca tinha tomado Mugnier, só ouvia minhas juras de amor ao produtor e tinha clara preferência por Roumier na village. Terminada a degustação, retirado o papel alumínio, Nelson se viu confuso sobre o que ele achava e disse: “agora, entendi sua paixão.” Escreveu a degustação no site, “Chambolle pelo maestro Mugnier“, irritou alguns, ao escrever: “Já o meu favorito a priori, antes da degustação começar, perdeu-se um pouco em sua tipicidade. A despeito de ser um belo vinho, mostrou-se como uma mulher muito austera, fria, tentando sustentar uma seriedade que não possui. Faltou feminilidade. De fato, de início, um pouco fechado e misterioso, tanto em boca, como nos aromas. Seus taninos, bem presentes, pareciam por demais extraídos.”

Dez anos e duas outras garrafas depois, Roumier e Mugnier se confrontaram com vinhos de 15 anos de envelhecimento. Mugnier, com um vinho ainda jovem, em que os terciários mal aparecem, faz um estilo mais feminino, mais floral, com a cor muito mais tênue e uma discreta mineralidade; já Roumier ao longo das horas vai numa miríade de fruta em compota, um leve floral, mais mineralidade, com algo indecifrável, cor muito mais negra na taça. Para este aqui, a maior diferença dos dois está no uso de Fuées na assemblage por Roumier e não apenas no desengace total ou parcial, que faz com que degustação às cegas seja facilmente perceptível na cor.

Um dos melhores crus de Chambolle, ao lado de Cras (Amoureuses joga em outra liga), Fuées tem uma mineralidade distinta, mas pela sua parcela estar no pedaço mais íngreme do terroir Christophe julga que ele não estaria à altura de ser vinificado em separado. Usa no assemblage de seu chambolle, seu cartão de visitas.

A visitar o domaine, minha pergunta seria: qual Fuées Roumier tem reverência? Acredito que seja o de Mugnier, que a partir de 2005 começou a fazer um Fuées impressionante, assim como o Bonnes Mares seu evoluiu absurdamente a partir da safra 2011, com as uvas superando 35 anos. Na visita a Frédéric, alguns anos atrás, perguntei o que ele achava dos vinhos do vizinho: “muito bons”. Faltou perguntar qual Cras era de sua preferência. A resposta eu imagino.

Mugnier ou Roumier? Uma parte da mesa foi prum lado, outra, pro outro. Eu? Há dez anos, eu teria um vencedor, hoje eu deixei a conjunção alternativa no dicionário e me perco entre as nuances dos dois.

Roumier e Mugnier ou Mugnier e Roumier.

Nuits à Babette

3 de Novembro de 2024

Comida e arte chegaram ao ápice na história do cinema em 1987 com “A festa de Babette”, que levou o oscar de melhor filme estrangeiro daquele ano e consagrou a literatura de Isak Dinesen, classificada por um crítico do NY Times como “delicada como um cristal de Veneza”.

Numa vila puritana, cercada de preconceitos, Babette resolve gastar todo o dinheiro ganho em um prêmio em uma noite para os habitantes daquele vilarejo, como uma forma de gratidão aos que lhe deram teto, depois de sua saída da França como foragida política. Em um menu e vinhos selecionados (o mundo de hoje impede que sopas de tartarugas sejam feitas), ela desfila seu talento para sair do comum. Ao fim, quando descobrem que Babette gastou todos os francos no jantar, uma das irmãs que a recebe declara: “você será pobre para o resto da vida”. Ao que Babette responde olhando as estrelas: “um artista nunca é pobre”. Nem quem tem amigos que valorizam as histórias.

Degustações temáticas são sempre uma forma de dialogar seja com quem está presente seja com quem está ausente. Os detalhes que as conduzem têm uma história particular que remonta às madeleines de Proust. Cada garrafa, cada prato conduz a um elo como uma Sherazade aprisionada em Baco.

No início, antes da champagne, o endereço: Emiliano, a mesa preferida há anos, seja quando o Nelson era autor, seja quando assumiu o lema. Agora sob o comando da chef Vivi e do sommellier Luis Otavio Álvares Cruz, melhor serviço de vinho de terra brasilis.

No Gêmesis do enófilo, tudo se inicia pela champagne. Há cerca de dez anos, o Nelson escreveu em um post que havia tomado uma champagne “emocionante”. Era a Jacquesson 736. Quando ele me ligou para falar de um jantar de que ele tinha participado, perguntei se era emocionante mesmo. “Prove!”. Tenho-a provado há dez anos. Aqui tivemos um confronto entre a 744, que ganhou muito com três anos de adega, e a 746, que é um enigma para mim depois de quatro garrafas abertas. Com predominância de Chardonnay (43%), 30% Meunier e 27% Pinot Noir, é exuberante, mas mostra um lado mais raso que outras cuveés da casa. Safra ou transição? Acho que até responder a essa pergunta eu terei de abrir algumas 746, hoje importadas corretamente pela Delacroix.

Sentados ao redor da mesa, com o menu da chef Vivi, partitura do Luis Otavio, tivemos o primeiro prato: ravioli de camarão com seu bisque. Dois pulignys: o de Boyer, importado pela Cave Leman, com seu cítrico ao fundo, e o belo Clos de Noyers Brets 2020 de Alvina Pernot. A família Rockmann e família Pernot têm uma história com essa cidadela e com os Pernots: meu pai não era de vinho, mas algumas garrafas ele carregava consigo. Numa das idas e vindas da UTI, ele se lembrou de um branco que eu tinha aberto com ele dois meses antes – Champs Canet de Paul Pernot. Ele disse que queria beber quando saísse. Não saiu, mas os Pernots ficaram sempre na memória afetiva, mas com a troca de Paul por Alvina, a talentosa neta.

À elegância de Puligny se somam dois champagnes rosés e uma focaccia selada com dados de polvo, páprica, pimentão vermelho e cebola roxa assada. No início dos anos 2000, Billecart Salmon rosé estava nas mesas dos bons restaurantes de São Paulo, tanto era assim que meu pai me deu uma garrafa quando eu comecei a trabalhar no Valor Econômico em dezembro de 2000. Por anos, sempre a tive com carinho.

Se o Silvio Santos comandasse um programa de auditório sobre vinhos, as quatro notas que ele pediria para o maestro Zezinho seriam facilmente detectáveis: K R U G. Como dizia o Nelson, é fácil agradar, só servir a perfeição, Krug. Ou outra frase: “me desculpe os independentes e os Selosses, mas Krug paira acima de todos”. A harmonização realça o toque exótico dessa champagne.

 Chega a hora dos tintos. Na pensão Santo André, um terroir criava discussões intermináveis envoltas em fumaça azul do fumo de Vuelta Abajo: Nuits Saint Georges. Para o Nelson, Gouges e Les Saint Georges. Para mim, havia muito mais do que o centro da vila e o sobrenome preferido dele. Havia o centro da vila, mas o lado de prémeaux, do lado de Beaune, palco de vários monopoles, havia o lado mais próximo de Vosne Romanée.

Na última vez que nos encontramos, num almoço no Evvai, em dezembro de 2019, combinamos de marcar duas degustações: uma de Clos de Tart, outra de Nuits. Cinco anos depois, saiu uma, sem a presença dele, com dois Nuits mais próximos de Beaune (clos de la Maréchale 2010 de Fréd Mugnier e o Vieilles Vignes 2005 de Prieuré Roch, uvas mais antigas do monopole Clos de Corvées), com um de centro de vila (les Saint Georges do maior produtor do cru mais famoso do vilarejo) e o único não cru, o Vieilles vignes 2019 de Chevillon (que era o produtor que o Nelson mais queria beber do terroir, depois de um confrade ter dito que ele deveria experimentar.) Outro parêntesis: se em Volnay minha dúvida eterna é ducs ou chênes nos Lafarges, em Nuits é Cailles ou Vaucrains dos Chevillons.

Para os quatro nuits, um arroz vermelho de pato confitado e um flat iron selado com cogumelos, roti de porcini e folhas de pak chai. Cada um com sua nuance, apesar de o Nuits de chevillon ter desagradado parte da mesa. Achei os quatro vinhos notas de uma partitura de elegância, mesmo sendo uma village rústica para os padrões e para as mãos das outras cidades mais famosas da Côte de Nuits.

Na sobremesa, a participação de Alois Kracher, um austríaco que faz alguns dos melhores vinhos de sobremesa do planeta e que por uma conjunção astral era o único vinho de sobremesa que meu pai se recordava depois de comer uma torta de maçã da Confeitaria Christina. Mas nesse caso, o do Emiliano, tivemos minha sobremesa favorita nas mesas paulistanas, mesmo com minha intolerância a lactose: bolo de tâmaras com calda de caramelo, baunilha e flor de sal.

Chega-se ao fim de uma festa de Babette. Como escreveu Oscar Wilde, hoje em dia conhecemos o preço de tudo e o valor de nada. Detalhes. Restaurar e recuperar ânimos na ansiedade do dia a dia e fazer esquecer os dramas da existência cotidiana ajudam a buscar a felicidade, que Guimarães Rosa dizia que “se acha é em horinhas de descuido”.

O que é a vida? Nos encontros e desencontros dela, recorro sempre a Guimarães em seu “Grande Sertão Veredas”. “Viver é muito perigoso… Porque aprender a viver é que é o viver mesmo… Travessia perigosa, mas é a da vida.”