Petrus e os Três Reis de Pauillac


Sabe aquele dia que nada pode dar errado. Você não quer correr riscos, nada de quase, nada de poderia ser melhor, ou seja, você põe o Dream Team em quadra. Para começar a escalação, que tal um Petrus 1955?

O problema agora é colocar companheiros à altura para dar liga. Só tem uma saída: convocar a tropa de elite de Pauillac, a começar pelo Lafite 59, um dos grandes destaques desta safra maravilhosa cheia de craques. Complementando o time, Mouton 82, uma das feras de outra safra mítica, e um bebezinho ainda engatinhando chamado Latour 1996, uma safra perfeita para este Chateau excepcional.

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Para o aquecimento deste timaço, foi convocado Comtes Lafon com seu maravilhoso Montrachet 2013. Seus últimos Montrachets tem estado com notas altíssimas, realmente numa grande fase. Seu estilo de certa opulência, oferece camadas de frutas acajuadas, toques de pâtisserie, textura macia e envolvente. Apesar de tenra idade, um Montrachet delicioso que acompanhou com distinção alguns crudos muito bem executados no restaurante Nino Cucina.

linguado e atum divinamente in natura

Voltando agora ao Dream Team, vamos falar do maior clássico de Pauillac, a disputa eterna entre Latour e Mouton, dois grandes Premier Grand Cru Classe. Na foto abaixo, duas grandes safras em momentos diferentes de evolução.

Tour de Force de Pauillac

Falar de Mouton 82 é falar de um tinto perfeito, 100 pontos inconteste, e uma das safras históricas deste Chateau. O vinho é exuberante em aromas, taninos que deslizam como rolimãs, boca absolutamente perfeita e final longo, macio, luxuriante. Uma bela garrafa em plena forma. Já seu oponente, um monstrinho que destruirá tudo pela frente em 2040, seu apogeu previsto. Um mar de taninos ultrafinos a serem lapidados lentamente nas sonolentas adegas mundo afora. Um Bordeaux à moda antiga onde os tintos não passavam de 12,5 graus de álcool. Equilíbrio perfeito e grande expansão em boca. Será certamente um dos Latours históricos de 2030 em diante. Neste embate você vê claramente como nasce uma estrela e ao mesmo tempo, o apogeu de outra estrela de brilho intenso. Ainda bem que neste caso, não precisamos de anos-luz para atingir o esplendor.

aqui não há perdedores

Mais do que comparar essas duas obras de arte acima, é poder divagar sobre a essência destes respectivos terroirs únicos dentro de si mesmos. Se pensarmos em Pauillac como a grande comuna do Médoc e a força dos vinhos de margem esquerda, os exemplos de Latour e Mouton encaixam-se perfeitamente neste cenário com vinhos pujantes e de grande torque. São exemplos mais que didáticos para enaltecer as características de um grande Pauillac. Já no caso de Lafite, outro Premier Grand Cru Classé de Pauillac, tudo muda, a exceção acontece. Os solos de Lafite tem um cascalho fino misturado com areia e importantes camadas de calcário. Essa configuração confere leveza ao vinho e ao mesmo tempo, elegância, acidez, tensão, dada pelo calcário, fazendo de Lafite o Borgonha do Médoc. É um vinho cheio de sutilezas e um certo mistério brilhantemente demonstrado neste 1959. Um tinto que foi crescendo no decanter por horas, seduzindo cada vez mais os convivas com uma finalização impecável. Um Lafite histórico!

pratos requintados

Fazendo uma pausa para o menu degustado, dois destaques do almoço com os Bordeaux. O tortelli de vitela com cogumelos à esquerda da foto acima, ficou divino com os velhinhos bordaleses, Lafite e Petrus. Enquanto isso, a paleta de vitela ensopada, cozida lentamente com guarnição de polenta cremosa, deu as mãos ao grande Mouton 82 de ricos sabores. Parabéns ao Chef Rodolfo de Santis.

Partindo agora para o grande Petrus 1955, é fundamental ressaltar o prazer de provar um Petrus pronto, sem aquelas amarras que este Pomerol costuma nos receber em tenra idade. Petrus é outra exceção de terroir dentro de Pomerol. Quando pensamos nesta comuna, lembramos de tintos afáveis, macios, generosos e acessíveis em aromas e sabores, os quais são regidos pela presença marcante da casta Merlot. No entanto, o terroir de Petrus busca o ponto mais alto de Pomerol numa solo único de argila azul, de drenagem muito particular onde mesmo em anos secos, o suprimento de água para as raízes das velhas vinhas é garantido. Essa condição faz do Merlot de Petrus uma uva de grande estrutura, austera, rica em taninos, muito mais semelhante a um Cabernet Sauvginon, proporcionando tintos de grande poder de longevidade.

solos: Lafite e Petrus, respectivamente

Voltando aos vinhos propriamente dito, estavam maravilhosos. Os toques de incenso, cedro, ervas finas, especiarias, tabaco, permeavam a taça de Lafite. Boca delicada, elegante, ao mesmo tempo tensa, com uma acidez de aço. Um Pauillac fora da curva. Já o rei Petrus, altivo, toques minerais, terrosos, profundos, um núcleo frutado extremamente elegante. Em boca, uma estrutura tânica magnifica, quase imortal. Persistência aromática expansiva, extremamente harmônico. 

Neste último embate, ficou claramente marcado o lado masculino, viril, de Pomerol, neste terroir único de Petrus. Por outro lado, a feminilidade, a sutileza, de Pauillac, foi enaltecida pelo elegante Lafite. Características antagônicas a seus respectivos terroirs que fazem destes ícones, tintos de enorme personalidade. Um final de prova triunfante.

Fica até deselegante falar dos valores que envolvem estas preciosidades, mas a generosidade dos confrades presentes não tem preço. Obrigado pela companhia, a boa conversa de sempre, e o privilégio de constantemente dividir os prazeres da mesa e do copo com grandes amigos. Que Bacco nos proteja!

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