No rarefeito universo dos vinhos, a Maison Krug ocupa uma posição diferenciada, seja nas borbulhas, seja entre vinhos tranquilos. É muito mais que quatro letras. Representa uma filosofia de tempo e individualidade que permanece inalterada desde sua fundação em 1843. Degustar uma sequência de safras como 1998, 2000, 2004 e 2006 de uma propriedade dessas é antes de tudo um privilégio e não é um exercício sensorial de comparação climática, mas uma imersão na visão de um homem que se recusou a aceitar a fatalidade das colheitas ruins. Para compreender o que está na taça durante essa degustação, com vinhos acima de 95 pontos, é preciso primeiro compreender a obsessão que forjou e se basear nos detalhes que John Gilman escreveu há alguns anos em uma visita à maison, em um artigo intitulado “A Bit More Detail on Champagne Krug”.

A história começa com Joseph Krug, um visionário nascido em Mainz que, após anos trabalhando na renomada casa Jacquesson, sentiu-se frustrado com a inconsistência da qualidade ditada pelos caprichos do clima em Champagne. Joseph dividiu sua produção em duas categorias distintas. A primeira, que ele chamou de Cuvée No. 1 (hoje a icônica Krug Grande Cuvée), seria a recriação anual da “Champagne perfeita”, uma orquestra sinfônica composta por mais de 120 vinhos de mais de 10 anos diferentes. A segunda, a Cuvée No. 2, seria o que hoje chamamos de Krug Vintage (ou Safrada).
Aqui reside a definição fundamental da filosofia Krug para suas safras: uma Krug Vintage não é criada apenas porque o ano foi “bom” ou tecnicamente perfeito. Um ano péssimo inviabiliza sua produção, mas é preciso mais. Ela é criada porque o ano tem uma história única a contar. Se a Grande Cuvée é a busca pela harmonia absoluta, a Krug Vintage é o momento do solista. É a interpretação de um ano específico através da lente intransigente da Krug.
Para compreender o peso de uma garrafa safrada da Krug, é preciso entender o rigor do momento de sua concepção. Segundo John Gilman, de View From the Cellar, a decisão de declarar um ano como “Vintage” não se baseia apenas na qualidade técnica. O Comitê avalia dois critérios supremos e inegociáveis:
- A Narrativa Única: A safra é expressiva o suficiente para contar uma “história única” através das lentes do artesanato Krug?
- A Integridade Estrutural (O Teste do Século): O vinho possui a estrutura necessária para evoluir graciosamente por uma janela de tempo extremamente longa? A Maison trabalha com a perspectiva de que uma Krug Vintage pode beber maravilhosamente bem por até um século. As decisões tomadas por Eric Lebel e Olivier Krug nas caves hoje serão julgadas pelos netos e bisnetos dos atuais clientes.
A filosofia da Krug dita que o vinho só é liberado quando está pronto para dar prazer, e não quando o mercado exige. Um exemplo clássico citado, que ilustra perfeitamente essa independência, foi o lançamento das safras de 1988 e 1989. Embora 1988 tenha vindo cronologicamente antes, o vinho apresentava-se “tenso, vivo e fechado” (tight and snappy) após seus dez anos regulamentares em cave. Em contrapartida, a safra de 1989, embora posterior, mostrava-se opulenta e generosa. A decisão da Maison? Inverter a ordem. A Krug lançou a 1989 primeiro e reteve a 1988 por vários anos adicionais nas caves de Reims, até que ela “desabrochasse”. Poucas casas no mundo teriam o capital financeiro e a disciplina para reter um estoque pronto em prol da perfeição sensorial.

Isso também explica a diferença da Krug 1989 para seus pares. Enquanto muitos Champagnes de 1989 de outros produtores eram maduros demais e já passaram do apogeu, a Krug 1989 mantém até hoje uma “espinha dorsal” de acidez e mineralidade que a preserva vibrante, provando que a seleção rigorosa de estrutura paga dividendos décadas depois.
Filosofia posta, o que une as safras de 1998, 2000, 2004 e 2006? O método. A Krug fermenta 100% de seus vinhos em pequenos barris de carvalho velho, boa parte deles com 20 anos de vida. O objetivo não é conferir sabor de madeira, longe disso, mas permitir uma micro-oxigenação que “imuniza” o vinho contra a oxidação futura, garantindo uma longevidade lendária.
A obsessão pelo detalhe é absoluta: cada parcela de vinhedo é vinificada separadamente. Um “Cru” não é tratado como um bloco monolítico; se uma parte do vinhedo tem uma exposição solar diferente, ela se torna um vinho separado. Essa abordagem “parcela por parcela” dá ao Chef de Cave e ao Comitê de Degustação, composto por seis pessoas, uma paleta de cores infinita para compor o retrato do ano. E, finalmente, há o tempo: uma Krug Vintage repousa nas caves de Reims por no mínimo dez anos antes de ver a luz do dia, desenvolvendo uma complexidade que poucos vinhos no mundo conseguem alcançar.
Ao analisar a sequência degustada, percebemos como a filosofia da casa se adapta para narrar quatro histórias climáticas radicalmente diferentes. A Krug atribui “apelidos” ou definições de personalidade para cada uma de suas safras, capturando a alma do vinho.
1998: Hommage au Chardonnay (Tributo ao Chardonnay) A safra de 1998 marca uma quebra de paradigma. Historicamente conhecida pelo domínio do Pinot Noir, a Krug viu-se diante de um ano de contrastes extremos: um agosto escaldante seguido de chuvas em setembro. Enquanto muitos produtores lutaram com a maturação, o Chardonnay da Krug, especialmente os vinhedos de Le Mesnil-sur-Oger, brilhou com uma pureza e frescor tão intensos que salvou o ano. O Comitê decidiu, em um gesto raro, dar ao Chardonnay o protagonismo absoluto (46% do corte). O resultado é um vinho de “classicismo e pureza”. Com quase três décadas de vida, está no seu platô. É a safra da precisão. Detalhe: apenas em 1981 o predomínio da Chardonnay foi tão expressivo no corte. Harmonização com codornas e morilles.
2000: Gourmandise Orageuse (Indulgência Tempestuosa) Se 1998 é a precisão clássica, 2000 é a generosidade caótica. O apelido “Tempestuosa” refere-se a uma temporada de cultivo imprevisível e difícil, que culminou em uma colheita que surpreendeu pela riqueza. A Krug 2000 é definida por sua opulência. É um vinho intenso e imediatamente gratificante e que, aos 25 anos, ainda esbanja juventude, eu a colocaria um degrauzinho acima da 1998. No nariz e na boca, explodem notas de caramelo, avelãs tostadas e frutas maduras. É uma safra que não pede licença; ela arrebata com acidez e um final longo. É o a maturidade com toque da juventude. É a prova de que o caos climático pode gerar um prazer profundo e hedonista. Harmonização com codornas e morilles.
2004: Lumière Fraîche (Luminosidade Fresca) Após o calor tórrido de 2003, o ano de 2004 trouxe um retorno ao equilíbrio e à frescura, mas com uma luminosidade fresca, cativante, pronta. A natureza foi generosa em quantidade e qualidade, permitindo que as uvas amadurecessem mantendo uma acidez elétrica. A Krug definiu esta safra como “Lumière Fraîche” para capturar sua tensão vibrante. A 2004 é estruturada e brilhante. O nariz é dominado por gengibre, frutas cítricas cristalizadas e um toque mentolado. Na boca, é vertical, direta e cristalina. Enquanto a 2000 é horizontal e ampla, a 2004 é um raio, prometendo uma evolução lenta e graciosa nas próximas décadas. Difícil resistir à sua juventude expansiva hoje. Ela tem um quê da 2002 (talvez a melhor da última década), mas em uma esfera inferior. Harmonização com vieiras e beurre blanc.
2006: Caprice Indulgent (Capricho Indulgente) Fechando a sequência, a safra de 2006 apresenta uma personalidade que flerta com o exagero, mas com a sofisticação da Krug. Foi um ano quente, com períodos secos e chuvosos intercalados, resultando em uvas de grande maturidade e concentração. Na definição da casa, “Caprice Indulgent” reflete um vinho que é redondo, generoso. Nesse caso, a garrafa não mostrou isso, um vinho ainda fechado, contido, como se fosse um Chevalier Montrachet de madame Leflaive ou o Bouchères de Jean Marc Roulot. Na sua infância Diferente da tensão elétrica da 2004 ou da elegância contida da 1998 ou do arrebatamento da 2000, a 2006, tímida, talvez esteja em sua transição. Harmonização com aves.
Degustar as quatro safras lado a lado é testemunhar a aplicação prática da filosofia de Joseph Krug. Não se trata de buscar um padrão imutável — para isso existe a Grande Cuvée — mas de permitir que o terroir e o clima ditem a narrativa. Da elegância focada no Chardonnay de 1998 à opulência tempestuosa de 2000, passando pela luminosidade vibrante de 2004 e chegando timidez de 2006, a Krug demonstra que uma “safrada” não é apenas um vinho datado; é a captura líquida da memória de um ano, imortalizada pela paciência e pela arte do assemblage.
Como dizia o Nelson, “me perdoem Selosse e os amantes das independentes, mas Krug é Krug”. Em tempos em que Montrachets de primeiro nível saem a mais de US$ 3 mil a garrafa, essas champagnes se tornam um refúgio seguro.
Como também dizia o Nelson: “É fácil agradar. Basta servir o melhor. Krug.”
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