Ao mestre, com carinho 2


(Homenagem ao Nelson, fundador do site, enófilo e grande amigo, que fez a passagem em 7 de maio)

“Tem ´Duro de Matar 4´?” Foi desse jeito que, no início de abril, o Nelson respondeu, por telefone, à minha pergunta se ele estava bem e havia se recuperado da cirurgia de oito horas, realizada três dias antes. Nunca perdeu o bom humor. Nunca reclamou de nada, dinheiro, saúde, percalços. Sempre pensava no próximo almoço ou jantar, de preferência, “comme il faut”, como gostava de dizer, com champagne, brancos, tintos, vinhos de sobremesa e, por fim, o charuto de Vuelta Abajo, acendido por ele com fósforos longos, cada terço harmonizado com um tipo de bebida diferente, com trilha sonora ao fundo de Paulinho da Viola, Tom Jobim, Chet Baker. Era a pensão Humaitá da São Paulo da década de 30 e 40 transposta décadas depois em Pinheiros, Vila Madalena, Santo André, Rio de Janeiro.

Fui seu aluno na ABS em 2003, mas comecei a ser mais próximo dele dois anos depois, em uma sofrível degustação de vinhos espanhóis. A partir daí convidava-o mensalmente para comermos. Eu levava um vinho, ele me ensinava.  Os almoços, geralmente às quartas-feiras, passaram então a ser mais frequentes, ganharam fins de semana, Páscoas, Natais, réveillons, aniversários.

Bebi os melhores vinhos da minha vida com ele. Tive inesquecíveis refeições na pensão Santo André, quando ele abandonava um pouco a sommelerie e, como o engenheiro formado que era, fiscalizava as receitas de sua sua mulher, Maria. De vez eu quando eu ia à casa de sua mãe, onde ela preparava o molho ao sugo, a bracciola e  gnocchi que fazia lembrar aquele que minha avó fazia com suas mãos e me criou gosto pela comida e pelo vinho. Ali testávamos italianos de regiões menos badaladas, como os vulcânicos Etnas.

Abriu um bourgogne, meu terroir preferido, apenas uma vez para mim. Era seu jeito sutil de me ensinar que vinho não é uma região, vinho não é rótulo, é vida. Há muito mais do que cabe numa taça. Convergíamos em muito, discutíamos em algumas coisas, debates iniciados no primeiro terço do puro, envoltos em aguardentes e fumaça azul. Ele achava que João Gilberto não tinha voz, que o Chico já tinha parado a carreira havia mais de três décadas, que Garrincha não era nada demais, que Nuits Saint Georges bom era do Gouges e do centro da vila.

nelson

O amor pelos charutos cubanos era comparável ao que nutria pelos Bordeaux. Inferior apenas ao que oferecia à mulher e à filha. Discorria por horas sobre qualquer terroir do mundo, sobre receitas, sobre harmonizações, charutos, música brasileira. Vi-o apenas uma vez ficar sem palavras: em Uberlândia, quando a Helo se casou com o Cesar.

Não me ensinou como se abre um Mouton 59, a profundidade de um La Turque 1988, a vivacidade de um madeira 1895, a elegância francesa de Angelo Gaja, me ensinou, com generosidade e humildade, suas maiores marcas, como se enfrenta a vida, como ela está nos pequenos detalhes, nos almoços e jantares com amigos, no carinho de cozinhar, beber, receber. Abrir as portas é generosidade, é amor, é dar o que se tem de melhor ao outro. Amizade é o que há de melhor. A vida se dá para quem se deu, como dizia o poeta. É por isso que a gente sempre voltava à “Festa de Babette”. “Mas sem tartaruga porque é crime ambiental.”

Espírita, não tinha medo da morte, nem de morrer. “Tem hora para tudo.” Para ele, o fim era uma passagem. O que é a vida? “Um teatro.”  As cortinas se fecharam em 7 de maio. Não houve “Duro de Matar 5”. A Covid-19 não deixa. Em sua homenagem, a ABS-SP fez uma live, a confraria de que participava fez um vídeo. Muitos ergueram brindes.

Ano passado, em outubro, a última vez em que fui à pensão Santo André, o senhor me disse, no primeiro terço do Behike, que, quando não estivesse aqui, eu o homenageasse à altura: um les amoureuses do Mugnier e uma combinação enogastronômica desafiadora que estivesse fora dos livros. “Por favor, coisa complexa, seu Roberto.”

Quando o vírus permitir, farei com amigos um almoço “comme il faut”, como eu aprendi com você, minucioso em cada detalhe. Brindaremos a vida. Nos encontros e desencontros da vida, recorro sempre a Guimarães em seu “Grande Sertão Veredas”. “Viver é muito perigoso… Porque aprender a viver é que é o viver mesmo… Travessia perigosa, mas é a da vida.”

A vida me tirou o convívio com você, mas não retira os anos em que o tive ao meu lado e, ao manter seu site, posso fazer a obra ficar.

Obrigado, doutor Nelson, por tudo.

Uma resposta to “Ao mestre, com carinho 2”

  1. Henrique Gudde Says:

    Sou um seguidor anônimo do site. Nestes anos de leitura aprendi muito com os artigos escritos por ele. Meus sentimentos aos familiares e amigos.

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