Grazie, Giuseppe!


Cerca de 60% das empresas não sobrevivem após cinco anos no Brasil, segundo dados do IBGE. No setor gastronômico, a mortalidade empresarial é ainda mais alta: sete em cada dez negócios fecham as portas antes de completar o quinto aniversário. Quem sobrevive mais de três décadas então merece atenção especial, ainda mais quando sua história é recheada de mitos. Nossa, aquele restaurante? Mas é caro, não? É démodé, né? Não perdeu a mão?

No início de 1994, quando o Brasil vivia ainda os primeiros meses do plano Real, Giuseppe Rosa, aos 52 anos, abriu o Vecchio Torino. Pensou inicialmente em fazer um restaurante somente com pratos de sua cidade, Turim. Terminou optando por um cardápio mais abrangente, composto basicamente de pratos do Norte da Itália.

Arregimentou fãs ardorosos e também críticos contumazes. Uns se locupletam nos sabores familiares e emocionais, outros criticam o ambiente kitsch, os preços, as idiossincrasias, a preferência pelos clientes antigos que são assíduos e seriam privilegiados. “Faz tempo que não vai?”. “Lembra a minha infância, mas faz década”. “Tá na hora de voltar, não?” “Quando fui lá, eu era estagiário.” “Cada gnocchi eram dez reais.”

Quatro amigos resolveram tirar a teima numa sexta-feira do verão paulistano, ao redor de vinhos italianos e a comida de Giuseppe Rosa. O ambiente nesses anos mudou pouco: tem um quê dos anos pré-Real (a proteção de pano das cadeiras) com o kitsch que combina reproduções de quadros e uma cozinha simples, sem rococós.

O couvert vem à mesa: antepastos italianos e pão fresco com manteiga. “Fazia tempo mesmo que eu não via aqui, a gente chegava no meio da tarde de um domingo e eu perdia o domingo aqui.”

Finalmente, chega o último amigo. Emidio Pepe e seu trebbiano abruzzo 2015. “Eu sou mais Valentini, mas queria trazer esse aqui.” Servem-se as taças. “É um branco com alma de tinto, abrirá com o tempo, aqui tem tudo e um pouco mais.”

E o que comeremos? Gnocchi de entrada? Sim, sempre. “Talvez queira de entrada e de prato principal.” Pensa-se na arquitetura da refeição. Pede-se para abrir o rosso di Montalcino 2020 de Poggio di Sotto.

Chegam os pratos de gnocchi. Sente-se o aroma do molho fresco de tomates. Leva-se a massa à boca. “Nossa, isso tem o mesmo gosto da infância!” Come-se. Aprecia-se. Rememora-se. “Isso aí é um elogio forte, hein. A volta à infância.” “Tem Proust aí na versão italiana da nonna.”

Branco ou tinto? “Prefiro o gnocchi com o trebbiano”, diz um. Outro aquiesce. “Mas o tinto tem uma acidez aqui, não sei, não”, afirma outro.

Tempo de pedir para abrir a terceira garrafa: poderi alto conterno, Cicala 2001, um monforte d´alba há anos adegado, pronto para ser aberto em um momento diferenciado. Uns pedem o brasato, outros a codorna com risoto de trufas negras.

O vinho ainda jovem, com a elegância de uma Nebbiolo bem cultivada, o prato? “Não preciso aproximar do rosto para sentir a trufa.” “Isso aqui tá muito bom, hein, cacete.” Terminam-se os pratos. “Porra, podíamos vir aqui todo o mês hein!”

Aos 31 anos, o Vecchio Torino mantém uma cozinha de alto nível, com um gnocchi emocional e pratos muito equilibrados. É caro? Assim como vários outros da cidade, mas aqui há detalhes e diferenças que não se encontram nos outros. Quando vem a conta, não se sente, ou melhor, se faz uma pergunta: quando voltaremos?

Quando você fala isso em SP?

Grazie, Giuseppe!

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