Claude Dugat e a rainha de Chambertin


(originalmente publicado em pisando em uvas; visita feita em setembro de 2017)

Algumas vezes na equação da vida, expectativas altas são diretamente proporcionais a grandes decepções, enquanto um pé atrás pode ser sinônimo de uma queda de joelhos diante da surpresa. Com apenas seis hectares de pinot noir em Gevrey-Chambertin e alguns vinhedos com mais de 100 anos de idade, o Domaine Claude Dugat vinha precedido por alguns comentários de amigos e de alguns críticos de que produzia vinhos extraídos demais, modernos demais, com maquiagem demais, ao gosto do mais famoso crítico de vinhos do mundo.

Da janela da casa de Bertrand Dugat


As notas 99 pontos e 100 pontos dadas por Robert Parker aos Griottes-Chambertin 1990, 1993, 1995 e 1996 tinham tornado todos seus vinhos cultuados e cobiçados por uma legião de enófilos da Europa, Estados Unidos e Japão. Encontrar uma garrafa para comprar era e é uma tarefa nada fácil para um Domaine cuja produção total em um ano sem perdas pode chegar a 30 mil garrafas. Com esse retrospecto, marcar uma visita não era prioridade, até que numa vez, pouco antes da viagem à Bourgogne, numa rodada de perguntas sobre produtores preferidos, a Guria disse que Claude Dugat não era Dugat-Py (primo, cujos vinhos são importados no Brasil pela Mistral) e que ele produzia grandes vinhos.

O email foi mandado, a resposta veio dias depois: uma quarta-feira de outubro às 14 horas. Com Claude e sua esposa Marie Thèrése Gillon curtindo a vida viajando pelo mundo depois de longos anos à frente da propriedade, agora é a vez dos três filhos comandarem o Domaine: Laetitia, Bertrand e Jeanne, que se revezam nos diversos papéis nos vinhedos, na cave e no escritório. Há também um braço negociante (La Gibryotte), em que, diferentemente de outros Domaines, eles não compram as uvas de terceiros e as vinificam, mas compram o vinho já vinificado por outros e o rotulam. “Compramos e rotulamos se está bom, damos a liberdade ao produtor que nos vendeu”, afirma Bertrand Dugat, nascido em 1982.

Grande parte da produção do Domaine é exportada para Estados Unidos, Japão e Europa. O Domaine não vem para o Brasil, sendo que só dois casais de brasileiros já o visitaram. Do Brasil ele sabe pouco. “O Neymar está ganhando 100 mil euros por dia”, diz, apesar de não ser fã de futebol. Os Dugats produzem sete vinhos: o bourgogne, em uma área de 1,5 hectare e uvas plantadas em 1979; o Gevrey-Chambertin, com uma área de 3,39 hectares e uvas de 1955; o Gevrey Lavaux Saint-Jacques (vizinho do Clos Saint Jacques), com 0,3 hectares e vinhedos de 1980; o Gevrey Chambertin Premier Cru, com uvas de Craipillot e La Perrière, de 1960; o raro Griotte-Chambertin, com 0,16 hectares (cerca de 600 garrafas) de 1957; Charmes Chambertin de 0,3 hectares de 1976 e uma minúscula parcela de 0,1 hectares de Chapelle-Chambertin, de 1902. Há um segredo para os amantes de charutos: uma minúscula produção de Marc de Bourgogne. “Nós somos simples, somos homens da terra e queremos vinhos simples.”

Os premiers e grands crus passam por 100% de madeira nova, o Gevrey Chambertin por 60% e o Bourgogne em barris com um ano de uso. A safra 2016, provada na degustação no barril, teve perdas relevantes nos vinhedos por conta das condições climáticas em abril do ano passado, o que reduziu a produção em alguns casos em mais de 30%. “A safra é clássica”, define Bertrand, que também se mostra otimista com a qualidade e a quantidade da safra de 2017, talvez parecida com 1999, considerada uma das melhores dos últimos 30 anos.

A degustação começa pelo Bourgogne, candidato a melhor genérico regional já bebido e que bateria muitos Gevreys villages de diversos produtores. Com bom potencial de guarda, é um convite para se subir aos outros degraus. O Gevrey Village parece ser um premier cru, tal seu conjunto. “Esses dois são mesmo um Bourgogne e um Gevrey?”

“A gente não muda os barris para a degustação, não”, diz Bertrand, desconfiado. “Desculpe-me, não quis ofender, mas, ao contrário, elogiar a qualidade”, respondo. O Gevrey Premier Cru é ótimo, mas o Lavaux Saint Jacques é a estrela, um vinho que dá muita vontade de colocar às cegas numa degustação com o Clos Saint Jacques do Rousseau; acredito que não haveria derrotados.

O Chapelle Chambertin, com dois barris, vinhedos centenários, produz um vinho mais fechado, mais masculino, feito para durar décadas. O Charmes-Chambertin é um vinho para ser degustado com menos tempo de garrafa, masculino, potente. E o Griotte? “A rainha de Chambertin?”, pergunta Bertrand, quando percebe meus olhos marejados pela emoção de degustar um vinho que arrepia a pele e não termina na boca. Sem voz, concordo com a cabeça, imortalizando na minha memória cada nuance de um vinho inesquecível, com um futuro glorioso. É a estrela dos Dugat, o que tem rendido problemas. “Meu pai participou de uma degustação na Ásia com o Allen Meadows em que um vinho era falsificado.”

O passeio está quase no fim: há um barril de Marc de Bourgogne, feito para um grande charuto, talvez um Hoyo de Monterrey Double Corona. Os vinhos são feitos para a guarda, com dez, quinze, vinte anos, abrem todas as camadas que um pinot pode proporcionar, apesar de já mostrarem ao que vieram desde cedo. Claude Dugat pode descansar e viajar pelo mundo em paz. Os filhos comandam hoje um dos melhores Domaines da Bourgogne. Se um dia encontrar uma garrafa com o rótulo Claude Dugat, em algum lugar do planeta, não hesite: compre-a. E lembre-se de que na equação da vida é essencial ter o mínimo de preconceitos, a maneira mais tola de viver a vida.

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